Pode desenhar-se matemática? Escher, mau aluno, diz que sim

Cerca de 200 obras do artista gráfico holandês MC Escher. que a crítica ignorou e o público adotou, podem ser vistas a partir de hoje no Museu de Arte Popular, em Lisboa

“Um dia perguntaram a MC Escher se era o pai da arte ótica. Ele respondeu: O que é isso?”. A história é contada por Federico Giudiceandrea, curador da exposição de Escher, que a partir de hoje pode ser vista no Museu de Arte Popular, em Lisboa, enquanto fala das obras que foram selecionadas para esta mostra, a primeira em torno da obra do artista gráfico holandês em Portugal.

A biografia de Maurits Cornelius Escher explica parte do trabalho que produziu. A começar na viagem a Itália que empreendeu, depois de terminar os estudos, “como muitos artistas da sua época. ”Ia conhecer as ruínas romanas”, nota Federico Giudiceandrea, vê-se nas fotografias que se espalham pela exposição. Começa em 1922 e fica até 1936. Pelo meio conhece a mulher e tem o primeiro filho. “Durante o verão, desenhava as paisagens”, conta o curador. “No inverno, transformava-as em obras gráficas”. É desse período, um caderno com uma série 137 desenhos coloridos a aguarela que servirão de base a muitos dos trabalhos que fará depois. Caso da capa da Scientific American, com os seus emblemáticos pássaros.

Quando a revista chega às bancas, em 1961, Escher é já um artista reconhecido, coisa que não acontece até 1954, quando os matemáticos, sobretudo norte-americanos o ‘descobrem’.

Recuemos a 1936. No momento em que o filho é forçado a usar o uniforme obrigatório da Opera Nazionale Ballila e em desacordo com as políticas de Mussolini, Escher abandona o país. Instala-se na Suíça por dois anos antes de voltar à Holanda. Morre em 1972 e não regressará a Itália , mas as suas paisagens ficam nos seus trabalhos.

Outra viagem que marca o seu percurso de Escher é ao palácio do Alhambra, em Granada. É lá que descobre a repetição de padrões geométricos, fonte de inspiração para a tesselação (recobrimento de um plano tendo como base polígonos congruentes ou não). É uma técnica que aplicará muito ao longo da vida.

Nascido em 1898, filho de um engenheiro hidráulico, uma profissão bastante apreciada na Holanda da época, foi um mau estudante com um bom professor. O artista sefardita de origem portuguesa Samuel Jessurun de Mesquita aconselhou-o a estudar artes gráficas, reconhecendo o seu talento para o desenho. Deixando para trás o curso de arquitetura que o pai queria que fizesse, ingressa na escola de Haarlem. Obras do seu professor, agora parte da coleção da Fundação Escher, podem ser vistas no início da exposição, mostrando a ligação entre o estilo do mestre e o do aluno.

“É dos artistas mais amados e conhecidos do mundo”, diz a diretora da Arthemisia, Iole Siena, apresentando a exposição, a primeira da empresa em Portugal. A afirmação encerra um paradoxo. Se o trabalho é muito conhecido, o nome não está debaixo da língua, apesar de ter inspirado uma eschermania - Um episódio de Os Simpson, anúncios de uma marca de mobiliário sueco, imagens do filme À Noite no Museu ou capas não autorizadas de discos dos Pink Floyd. Referências resgatadas para a última sala desta exposição que procura dar ao visitante uma experiência imersiva, que convida o visitante a tirar fotografias nas bolas espelhadas que tanto fascinaram o holandês, usar os seus padrões geométricos para habitar os planos ou brincar com a noção de perspetiva - fundamental na obra do artista.

Depois das tesselações, a obra tornou-se mais complexa. Em 1939 cria Metamorfose, nome de uma das suas 400 obras e técnica de trabalho. Um desenho que se esgaça até se tornar outro que se esgaça e se torna outro... Só por esta altura consegui convencer o pai. “Começou a achar que, afinal, ele tinha talento”.

Escher “não se enquadra em nenhum movimento artístico da época”, diz o curador. “Mas se quisermos mesmo muito podemos dizer que é um surrealista”. E que, como não se cansará de frisar, passou despercebido grande parte da vida, inicialmente “entre os críticos”, apesar de ter gozado de grande popularidade nos anos 60 também entre os hippie. “Yoko Ono foi uma apreciadora de Escher”, lembra Giudiceandrea. “A crítica não gostou, mas o povo sim”, afirma. “Foi um artista pop”.

Tão popular que a sua obra foi amplamente reproduzida sem que lhe fosse pedida autorização. “Era algo que o deixava triste”. No entanto, “Mick Jagger pediu autorização para reproduzir uma imagem e ele disse que não”.

Ler mais

Exclusivos

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.

Premium

Rui Pedro Tendinha

O João. Outra vez, o João Salaviza...

Foi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.