Os 70 anos do Hot Club não cabem na Praça da Alegria

Um concerto no São Luiz com uma orquestra de várias gerações (grátis), um convidado especial (Joe Lovano) e um festival de jazz para crianças (Kids Can, em junho). O Hot faz 70 anos e quer o tempo a andar para trás.

Inês Homem Cunha fala alto e bom som. Foi professora primária antes de pôr a vida a dar voltas. Essa pode ser uma explicação. A outra são as aulas de canto que a dada altura frequentou. A mais plausível, o entusiasmo com que fala do que faz: presidir ao Hot Club de Portugal, vetusta instituição que na próxima segunda-feira chega aos 70 anos. Ou as três, juntas.

"Quando assumi a presidência disseram "ai isso é aquela coisa superelitista ali na Praça da Alegria". Não é nada! Nós hoje em dia temos 300 alunos, temos aulas para todas as faixas etárias. Desde os 8 anos até aos 80, as pessoas podem ser alunas do Hot! Quem quiser aprender jazz vem ao Hot e inscreve-se. Essa era uma ideia que existia quando eu vim para presidente do Hot e quis muito desmistificar. Por isso, temos tomado algumas decisões com esse objetivo, de fazer passar para fora aquilo que o Hot faz e aquilo que o Hot é."

Inês está à frente da associação desde 2009. Entrou no Hot pela primeira vez para ter aulas de canto em 1989. Aconteceu depois de um ano a dar aulas no "Alentejo profundo" - "foi uma experiência traumática - não pelas pessoas nem pelo Alentejo, que eu adoro, mas porque achei que não estava nada preparada para aquilo. Era muito miúda, tinha 21 anos, não estava de todo preparada. E então decidi que ia estudar outra vez". Natural do Porto, vai para Lisboa estudar marketing e publicidade no IADE e aprender a cantar. "Nessa altura fui absorvida, sugada, por aquele ambiente e por esta instituição que tem contornos muito engraçados".

Voltaria mais tarde, em 2003. Ofereceu-se ao então presidente da direção, Bernardo Moreira, para organizar o espólio de Luiz Villas-Boas. Nessa altura, fez o mestrado em museologia "com a ideia de fazer a casa do jazz ou o museu do jazz, como gostamos de dizer". Não voltou a sair dali. Quando o "engenheiro" Bernardo Moreira quis sair da presidência, os olhares viraram-se para ela. Inês não enjeitou o desafio e ficou ("eu nunca na vida me tinha passado pela cabeça ser presidente do Hot. Pensei assim: "se eles acham que eu sou capaz, vou ver se consigo...""). Até hoje.

Admite que o universo do jazz é muito masculino, mas nem ela nem ninguém parece importar-se. Na escola de jazz Luiz Villas-Boas, na Travessa da Galé, em Lisboa, já se veem alunas, mas a maioria dos que ali estudam são rapazes. A média de idades oscila entre os 16 e os 24 anos - e há um aluno com 74. Bruno Santos, diretor pedagógico da escola e vice-presidente do clube, foi ali aluno e agora cuida de passar a mensagem: "Esta música tem muito de tradição oral, ou seja, de ouvir muita música, assistir a muitos concertos, é uma coisa muito prática, muito relacionada com a música em si. Nunca acreditei muito em métodos. É possível virar a coisa muito para a música, fazer jam sessions com alunos, pôr os alunos em contacto com a música... não há outra forma de aprender esta música". Bernardo Moreira diz o mesmo por outras palavras. Tem 87 anos e dá aulas de História do Jazz. "Posso ensinar aqui teoria musical e técnica do instrumento. Eu não posso ensinar a tocar jazz a ninguém, mas esse alguém pode aprender comigo. Há quem tenha talento natural e com qualquer migalha de informação faz qualquer coisa fabulosa e há quem absorva toneladas de informação e não sirva para nada", diz. Acabara de dar uma aula em que levou 18 alunos até ao final da década de 30, intercalando com a teoria alguns excertos de músicas que acompanhava com um estalar de dedos e eles com pés a abanar. escutava-se The A Train.

A escola de jazz tem o curso regular (de quatro anos), o curso livre (em que qualquer pessoa se pode inscrever, mesmo sem nunca ter tocado um instrumento) e o Atelier - funciona um dia por semana e destina-se a... miúdos. "Sempre tinha ouvido dizer que o jazz não se ensina a crianças. Como se o jazz fosse uma coisa que está lá na estratosfera. Eu acho que não é, tudo se ensina a crianças. E não é abébezando as coisas, eu tenho alergia àqueles CD de Beethoven para bebés... Beethoven é Beethoven! Há que perceber como é que se ensina uma linguagem que não é óbvia a miúdos muito novos. Como é que não há uma escola que ensine jazz a crianças? Que os introduza, que os apresente, que os ponha a ouvir? Então criámos este projeto que é o Atelier", conta Inês Homem Cunha. Passado um ano, foram contactados por um professor norueguês que queria copiar o projeto e visitar a escola. Começou então uma rede de troca de experiências e de miúdos que tocam jazz. "Já fomos ao Japão, já fomos à Dinamarca, já fomos à Noruega, ontem recebemos um mail de suecos que querem cá vir visitar a escola e trazer um grupo de miúdos para tocar connosco! De repente, o Hot Club, que é aqui no canto do mundo, começou uma coisa que ninguém fazia. Ninguém ensinava jazz a crianças!", diz. E em junho (21, 22 e 23) Lisboa vai receber um festival de jazz para crianças: "Os miúdos têm aulas na escola e à noite vão para o clube tocar".

Sobre a formação que as crianças (dos 10 aos 15 anos) recebem, esclarece: "é igualzinha ao curso dos adultos, mas as coisas são introduzidas de outra maneira: meia hora de teoria, uma hora de instrumento, e depois têm uma hora de combo, que é o que eles gostam mais. Adoram dizer que têm uma banda...".

Bernardo Moreira - Binau para uns, engenheiro para outros -, acredita que na escola há uma minoria de alunos "fa-bu-lo-sa". Ele que se formou em engenharia civil e é músico autodidata (contrabaixista), teve quatro filhos, e três deles são músicos de jazz (Pedro, João e Bernardo). "Vim para Lisboa em 1955 para fazer engenharia. Tinha a opção da Faculdade de Engenharia do Porto ou o Técnico. Claro que por causa do Hot vim para o Técnico", conta. Em Coimbra, onde estudou e de onde é natural, ouvia um disco que era "de um tipo do Porto" umas 20 vezes... por tarde. Foi assim que começou a aprender (o disco era Stardust, de Lionel Hampton). "Depois começámos a tocar em Coimbra. Não havia sopros. Eu comecei a tocar contrabaixo para substituir um macaense que acabou o curso de engenharia e foi para Macau. Rapidamente aprendi umas coisas e comecei a tocar. Eu fui um autodidata e comecei a tocar assim", conta. Anos mais tarde, ensinou aos filhos em "dez segundos" o que a ele demorou dez anos a aprender.

"Tocávamos tudo como verdadeiros profissionais. Tocávamos com qualquer americano que chegasse aqui. Toquei [no Hot] com uma data de craques mundiais, do Dexter Gordom ao Chet Baker", conta. Não quis seguir a carreira musical em exclusivo porque não havia em Portugal hipótese de sobreviver como músico de jazz: "Foi a coisa mais inteligente que fiz na vida porque a verdade é que eu da engenharia estou reformado e da música ainda não".

No domingo, dia 25, vai estar no palco do São Luiz (17.30) para o Concerto dos 70 anos do Hot Club. Um concerto de portas abertas ao público: "Vão tocar são formações da escola e uma formação com os primeiros sócios do clube, com o engenheiro Bernardo Moreira, o Dr. Barros Veloso, que são pessoas com mais de 80 anos. O concerto vai começar com essa formação e vai acabar com a nova geração que tem 15/16 anos". A renovação que se procura no clube de jazz mais antigo da Europa, fundado em 1948 por Luiz Villas-Boas.

"O sangue vai-se renovando naturalmente com os alunos da escola, e a prova é que, toda a gente sabe, o Festival da Canção está cheio de ex-alunos do Hot. Acabamos por ser uma escola de referência, se calhar porque mantemos essa relação muito estreita com o clube", diz a presidente.

Entremos, então, na sala escura, sempre demasiado pequena, agora no número 48 da Praça da Alegria. Estão no palco, aquele prolongamento da sala, Carlos Bica (contrabaixo), João Mortágua (saxofone) e André Santos (guitarra). Apresentam temas que têm trabalhado juntos, algumas composições de Santos, outras de Bica. O primeiro tema termina e ouve-se da plateia uma voz elevada: "lindo!". Um elogio que veio do interior daquele molho de gente que escutava o trio em silêncio. Mais tarde tocariam Wattenmeer e o público retribuiu com um saboreado "huummm". Carlos Bica contou então que aquele tema foi batizado no Hot, há uns anos, por uma senhora que estava na assistência. Histórias assim há muitas, acede o contrabaixista que já não se lembra de quando entrou no Hot pela primeira vez. "É como estar em casa", diz o músico português, atualmente radicado em Berlim. Também ele foi aluno da escola e deu os primeiros passos ali. Desejos para o futuro? "Quero que o Hot continue como sempre foi até agora: uma casa que traz todas as gerações e onde o público tenha prazer em ouvir música".

Amanhã à meia-noite, os Parabéns tocam-se na Praça da Alegria, com tonalidades jazz.

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