Navegar, navegar pela música de Fausto

João Botelho volta a pegar num clássico: "Peregrinação", de Fernão Mendes Pinto, e a surpresa é que parcialmente fá-lo com música, servindo-se de "Por Este Rio Acima", de Fausto. Estreia esta quarta-feira.

Como um filme de aventuras, tinha avisado João Botelho quando se lançou nesta loucura, adaptar o enorme Peregrinação, texto fundamental da nossa literatura clássica. A viagem de Fernão Mendes Pinto pelo Oriente em cinema! De forma económica e com muitos truques de fragmentação, pode dizer-se que está lá tudo. Temos pedaços da viagem de 1537 do escritor explorador, mas também o seu regresso a Portugal e a sua luta para ser levado a sério pela corte.

Mas a surpresa nesta adaptação é a forma como o épico ganha também peso de musical. O golpe de génio de Botelho foi pedir licença a Fausto para ir buscar os temas de Por Este Rio Acima, por sua vez, uma adaptação musical de Peregrinação. As músicas estão aqui em fragmentos, são oito e fazem avançar a narrativa em dois grupos de coros. O efeito tem qualquer coisa de desconcertante, de glorioso, servindo o filme na perfeição. Este Peregrinação é também um musical em seu pleno direito.

Fausto, no meio disto, apenas deu a autorização. O músico de jazz Daniel Bernardes e o compositor Luís Bragança Gil (alguém muito ligado à música para teatro) tiveram luz verde para adaptar as músicas para serem cantadas por dois coros. A missão era simples: as canções iriam servir a narrativa, fazer o filme avançar. Apesar de reconhecermos as melodias de Fausto, as canções ficaram diferentes: "Em muitos casos, não fomos buscar os refrães, apenas os segmentos de texto", começa por nos dizer Daniel Bernardes, lembrando que tiveram toda a liberdade do mundo para alterar as estruturas musicais. Ao todo, estão neste filme oito momentos musicais de cinco temas.

Fausto até agora não terá visto o filme nem sequer ouvido este trabalho de adaptação. Em boa verdade, quando permitimos que a nossa obra-prima venha a ter outra roupagem, o melhor é deixarmo-nos surpreender. Luís Bragança Gil lembra o peso do disco: "O Por Este Rio Acima é um disco emblemático e marcante da música portuguesa. Todo ele está agarrado à tipologia da música popular portuguesa e não à ideia de som do século XVI. A nós, o que nos interessava, além do texto, era trabalhar a nível melódico as canções e criar uma nova leitura, sem que o ouvinte que conheça bem o disco do Fausto se perca."

O seu companheiro desta aventura musical rara no cinema português também não se cansa de elogiar a genialidade de Fausto: "Ele tem um talento inacreditável de dar uma aparência de simples canção mas lá dentro estar escondida uma massa musical muito complexa. No Navegar, Navegar o João Botelho escolheu um verso da música que não era o refrão e o que nós fizemos foi esticar a duração daquilo para depois uma orquestra de cordas fazer a orquestração. Ficámos surpreendidos por toda aquela harmonia tão rica da canção, que fica outra...bastou mudar o tempo! Outras canções ainda tiveram mudanças mais profundas."

Na verdade, quando vemos os marinheiros a cantar não sentimos aquele efeito incoerente de cantoria à Broadway (coisa que muitas vezes Hollywood replica). Há uma coerência, um efeito útil que ajuda a ação a avançar. Luís Bragança Gil lembra que nas naus quinhentistas eram frequentes relatos de cantos dos marinheiros. É uma ideia triunfadora de João Botelho, talvez ainda mais quando chegou a integrar ópera no seu cinema.

Daniel Bernardes sente também que o objetivo foi conseguido. "Conseguimos um meio-termo: sente-se de facto um momento musical e o espectador desfruta dele, mas o ritmo e o fio condutor da narrativa nunca são perdidos. Uma coisa é certa, está lá Fausto. Há um cunho pessoal dele muito forte, por muito que muitas das nossas versões sejam diferentes. O nosso maior cuidado foi afastarmo-nos da estética musical dos anos 1970 e 80 que o disco tinha, sobretudo aquele tipo de percussões que na altura estava em voga. Muitas vezes tivemos de recorrer a soluções invulgares."

E porque o trabalho de Bernardes e Bragança Gil foi literalmente pensado para servir o filme e os seus moldes, não está prevista a edição da banda sonora. Os músicos confessam que se isso viesse a acontecer teriam de voltar a estúdio para dar um certo polimento aos textos.

Afinal, que tipo de música é esta agora, em 2017? "Quisemos do ponto de vista estilístico criar aquela linha de dúvida entre a música popular, erudita ou contemporânea." Seja o que for, é exaltante. E é igualmente o gancho surpresa de um filme que amanhã tem uma grande antestreia no Grande Auditório da Gulbenkian.

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