Navegar entre objetos que unem Portugal e Brasil

Palácio dos Condes da Calheta recebe uma história de objetos - e artistas - que unem os dois lados do Atlântico. Até 15 de julho.

É no chão que une Portugal e Brasil que começa a mais recente exposição do MUDE, Tanto Mar. Fluxos Transatlânticos do Design. Fotografias mostram esse "mar largo" da Praça do Rossio ao lado do calçadão do Rio de Janeiro, um desenho que se tornou maior do que a sua origem. "Ganhou uma importância tão grande que tem gente que acha que é brasileiro", diz a co-curadora brasileira Adélia Borges.

Chegou ao Brasil com os portugueses e espalhou-se pelos vários territórios da colonização (e não só). Angola, Ilha de Moçambique, Macau, Manaus, em 1901, e Rio Janeiro, em 1908. Adélia Borges detém-se para contar como este desenho foi revisto e ampliado pelo artista e paisagista Roberto Burle Max nos anos 60. Manteve-se, agora paralelo ao mar e em diálogo com as palmeiras e um outro passeio de figuras geométricas. "Uma obra de arte cinética", descreve a metade brasileira deste projeto curatorial.

Tanto Mar. Fluxos Transatlânticos do Design foi buscar o título a Chico Buarque - Sei que há léguas a nos separar/ Tanto Mar, Tanto Mar/ Sei também quanto é preciso, pá/ Navegar/ Navegar - e é uma exposição em dois sentidos e a duas vozes: a da ex-diretora do Museu da Casa Brasileira e curadora Adélia Borges, do outro lado do charco, e da diretora do MUDE - Museu do Design e da Moda, Bárbara Coutinho, do lado de cá.

"Olhar para a cultura dos dois países e tentar perceber os fluxos, contrafluxos, movimentos, e até equívocos que existem entre os dois países ao longo da sua história." Assim define Bárbara Coutinho este trabalho moldado nos últimos dois anos.

Um leva-e-traz que se materializa nesta exposição e na encomenda do MUDE a Mana Bernardes e ao coletivo A Avó Veio Trabalhar - "um projeto muito legal", palavras de Adélia -, liderado por Susana António, que reúne mulheres com mais de 65 anos. A artista brasileira escreveu um texto e concebeu uma peça de linho branco com letras bordadas, que deste lado do Atlântico se bordou a dourado sobre azul - cores da história que une os dois países.

De uma peça de cerâmica Bordallo Pinheiro trabalhada por Vik Muniz, Adélia Borges extrai uma metáfora desta exposição. "Chama-se Colador de Cacos, um pouco como esta exposição." Pedaços da história que se colam nas chitas que os portugueses trouxeram da Índia e levaram para o Brasil cerca de 1800 e continuam a ser "um material muito popular". Ao lado, um coordenado de Dino Alves no mesmo material. Adélia Lopes explica: "Em Portugal, as cores mais desmaiadas, os padrões mais pequenos. No Brasil, as cores mais fortes e o estampado maior."

"Deliberadamente, não dizemos o que é português e o que é brasileiro", frisa Adélia Borges. "Deixamos os visitantes descobrirem", diz. "As legendas dão os nomes dos artistas, o ano e o local de nascimento, o que já fornece alguma informação". O que pode não ser suficiente.

Fernando Lemos é brasileiro ou português? "Aí a gente vai brigar", diz Adélia Lopes ante a referência do trabalho do artista, autor de um conjunto de fotografias surrealistas a vários autores surrealistas. "Está no Brasil há 70 anos, tem 92, é um ativo genial", comenta Adélia Borges. Autor do cartaz da exposição, Lemos desenvolveu maior atividade no Brasil, como designer. Fez posters, coordenou a revista da Associação Brasileira do Desenho Industrial, trabalhou a estampagem de tecidos, como se vê nas amostras que estão na exposição.

E Carmen Miranda é brasileira ou portuguesa? "Apresentava-se como brasileira, mas morreu portuguesa, nunca se nacionalizou", diz Adélia Borges, sobre a cantora, nascida em Marco de Canaveses em 1909. "Ela é o design", diz. No ecrã vão passando as imagens dos seus filmes e ouve--se O Que É Que a Baiana Tem?, ao lado da cadeira dos irmãos Campana, outro símbolo de notoriedade brasileira.

São criação da artista os turbantes de frutas, marca registada de uma carreira que chegou a Hollywood e um artifício engenhoso para disfarçar a altura da pequena notável. Coincidem com uma viragem na sua carreira. O momento em que revela o compositor Dorival Caymmi, baiano, autor da famosa canção.

"Ela era uma cantora, mas era também uma autoconstrução do design, nessa estética do over (exagero), do barroco total."

Além dos adornos na cabeça, usa muitas pulseiras e o balangandã, joias de crioula, utilizadas pelas mulheres negras para mostrar o poder do dono e que são consideradas os primeiros exemplos do design brasileiro de joias. Um deles, oriundo da Bahia, no século XIX, veio para a exposição, tal como uma réplica de um turbante de Carmen Miranda, do museu com o seu nome no Rio de Janeiro.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.