Museu do Rio de Janeiro vende quadro de Pollock para garantir futuro

O Museu de Arte Moderna decidiu vender uma obra do artista norte-americano Jackson Pollock, para garantir sustentabilidade dos orçamentos.

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro decidiu vender uma obra do artista norte-americano Jackson Pollock, uma das mais representativas da sua coleção, para garantir sustentabilidade dos orçamentos, nos próximos anos, anunciou a instituição. A obra em causa é o quadro "N.º 16", pintada por Jackson Pollock (1912-1956) em 1950, doada ao museu pelo multimilionário norte-americano Nelson Rockefeller, em 1954.

Pintado sobre aglomerado de madeira, com 56,7 centímetros de lado, "No.16" é uma das 16 mil obras do acervo do museu e uma das mais requisitadas para empréstimo, de acordo com o comunicado publicado na página da instituição na Internet.

A escolha da pintura para venda reside no facto de "não ser de um artista brasileiro", e porque, apesar de ser de pequeno formato, pertence "a uma série conhecida de Pollock", muito "requisitada por museus no exterior, tendo relevância, portanto, no mercado internacional", lê-se no comunicado.

O Museu acrescenta ainda que, embora possua uma coleção de escultura bem estruturada, com "um certo peso e coesão", "com obras importantes" de Brancusi, Giacometti, Max Bill, Lipschitz, Barry Flanagan, Henry Moore, a sua coleção de pintura estrangeira, "embora tenha exemplares importantes - e Pollock é um deles - não se constitui em um de seus 'carros-chefes'", não sendo das mais representativas do museu.

A decisão de vender o quadro do Pollock faz parte de um conjunto de medidas que o museu vai adotar para garantir a sustentabilidade, "durante pelo menos 30 anos".

A venda do quadro de Pollock permitirá ao museu do Rio criar um fundo financeiro, que será denominado Património com Destino Específico (PDE), com regras rígidas para o seu uso, e cuja gestão estará a cargo de uma comissão e será auditada pela PriceWaterhouseCoopers (PwC).

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, instituição privada sem fins lucrativos, criada em 1948, possui no seu acervo obras de Portinari, Tarsila, Volpi, Anita Malfati, Maria Martins, Lygia Clark, Lygia Pape, Segall e Di Cavalcanti, sendo apresentado como um dos mais significativos do país.

Inclui ainda uma Cinemateca, "uma das mais importantes da América Latina", e "um acervo especializado em arte moderna e contemporânea, formado por cerca de 220 mil documentos (fotos, folders, convites, cartas, releases e recortes de jornais), 31.500 publicações (livros e catálogos) e 618 títulos de periódicos".

De acordo com o museu, a venda do quadro tem vindo a ser equacionada há vários anos, para que a instituição possa contar ingressos fixos para "o desenvolvimento dos seus projetos, atualizar o seu acervo de arte brasileira e manter a estrutura de altos".

"É bom deixar claro" que o Museu de Arte Moderna do Rio "pretende com a criação do PDE se valer apenas de seus rendimentos, mantendo o montante principal intocado na instituição financeira -- ainda a ser escolhida. Dessa forma, assegura para as próximas gerações um patrimônio financeiro seguro para sua manutenção e desenvolvimento", conclui o comunicado.

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