Inês Pedrosa abre editora Sibila para ensaios femininos

A escritora Inês Pedrosa vai ser também editora. A Sibila Publicações vai privilegiar os ensaios femininos e editar, principalmente, textos de mulheres. Joumana Haddad e Maria Antónia Palla são as primeiras.

Todos os escritores sonham em criar uma editora, quanto mais não seja para fugir à tirania dos editores. Não será o caso de Inês Pedrosa, que gosta da sua, mas não resistiu a montar uma editora. Chama-se Sibila, um nome que homenageia as personagens femininas desde a mitologia greco-romana a Agustina Bessa-Luís, e completa um sonho seu de há muitos anos. Como explica: "Os escritores queixam-se da edição, mas não alteram a situação através de atitudes." Acrescenta que começa a ter uma idade em que certos propósitos de uma vida necessitam de ser postos em prática: "A Virginia Woolf montou uma editora, The Hogarth Press. Portanto, não sou o primeiro caso, mesmo que não me queira comparar a ela."

A escritora Inês Pedrosa

Mas podem-se fazer comparações ao nível de meios, tanto que a nova editora faz questão de não as esquecer: "The Hogarth Press não publicava como uma editora normal, mas em conformidade com as posses de Virginia Woolf, o que também acontecerá com a Sibila Publicações." É que o capital para a nova editora vem das economias da escritora e terá uma estrutura muito simples. Terá Gilson Lopes, o marido e designer gráfico, como responsável pelo grafismo e comercialização, a escritora como editora e as restantes fases da edição, como a tradução e a revisão, contratadas.

Quatro livros preparados

Quanto à programação editorial, os primeiros quatro títulos já estão escolhidos e pertencem à Coleção Mulheres de Palavra. O cartão-de-visita é um ensaio da autora líbia Joumana Haddad, intitulado Eu Matei Xerazade - Confissões de Uma Mulher Árabe em Fúria, que sai no próximo mês. Logo em seguida, acontece uma importante reedição, com dois textos inéditos, o esgotadíssimo volume de reportagens de autoria de Maria Antónia Palla, Só Acontece aos Outros. No início de 2018, será a vez da prémio Nobel italiana de 1926, Grazia Deledda, com o texto Depois do Divórcio, um livro também desaparecido das livrarias há muito. O quarto trata-se de uma outra reedição, o Mundo Novo, de Ana de Castro Osório, uma importante feminista da I República.

A coleção com que a Sibila Publicações dá início à sua existência tem a particularidade de estar voltada para mulheres romancistas e ensaístas, deixando de parte por enquanto - e pelos primeiros tempos - os autores homens. Não será uma regra para o futuro, mas pretende apontar uma direção editorial. Para Inês Pedrosa, a opção pelo género não é apenas uma forma de dar voz à "escrita feminina", conceito do qual discorda, mas sim "recordar a palavra das mulheres escritoras no que reporta, tal como a dos homens escritores, à bela e terrível aventura da condição humana".

O primeiro livro editado pela Sibila tem um papel muito importante no nascimento imediato da editora e não daqui a alguns meses conforme estava inicialmente pensado. Segundo Inês Pedrosa, que traduziu esta obra de Haddad, o ensaio deveria ser publicado por outra editora mas o corte na saída de novos títulos fez que fosse adiado. Como a autora vem a Lisboa participar numa grande conferência da Gulbenkian no dia 16 de outubro, o Encontro Mulheres nas Artes, e no Folio, foi um passo curto para tornar-se o primeiro livro da editora Sibila.

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