Forte militar guarda a memória do património cultural

Na semana em que abre a Casa da Arquitetura, em Matosinhos, o DN foi ver como é guardada a documentação do património nacional, no Forte de Sacavém, às portas de Lisboa.

A primeira forma de preservar é inventariar. A frase, da diretora geral do Património Cultural, Paula Silva, resume a missão do Serviço de Informação para o Património Arquitetónico (SIPA), o arquivo nacional onde está guardada documentação e inventário dos monumentos e obras públicas nacionais. E de tão simples contrasta com os números absolutamente esmagadores de quanto está guardado no Forte de Sacavém, às portas de Lisboa, onde está instalado.

João Nuno Reis, um dos técnicos do Serviço, que chegou ao Forte em 1999, com a primeira equipa que aí se instalou, sintetiza: "Foram 10 anos de obras, entre 1997 e 2007, são quatro edifícios, dois mil quilómetros quadrados [200 campos de futebol], e estimamos que aqui estejam guardados 12 quilómetros de documentação textual , entre processos de obra e processos administrativos". Muita desta informação consta das cerca de 35 mil fichas de inventário, às quais estão associadas parte dos 13 milhões de desenhos e das mais de 700 mil fotografias digitalizados. "Só Alcobaça tem associadas 1100 fotografias à ficha de inventário, e plantas nem imagino", acrescenta Paula Figueiredo, outra das técnicas. Informação que, em grande parte, está disponível online, no site monumentos.pt.

Foi em 1997 que o quartel oitocentista, construído a uma altitude de 32 metros, na margem direita do rio Trancão e a cerca de 800 metros do Tejo, começou a ser adaptado para a nova função. Transferido das mãos do Exército - que aí guardava explosivos e munições -, passou para a tutela das Obras Públicas e, num programa liderado pela arquiteta Luísa Cortesão ganhou nova vida. Mas também foi guardada a memória desse tempo, com um dos paióis a ser mantido intacto.

Paula Figueiredo conta que, antes de se avançar para a solução que hoje está implementada, "houve um esforço muito grande de visita de variadíssimos arquivos". Trabalho de campo feito, "reconheceu-se que o Arquivo Nacional do Canadá [ao qual Siza Vieira doou o seu espólio] era o modelo a seguir". E para além do trabalho desenvolvido por Luísa Cortesão, Paula Figueiredo destaca o papel do arquivista João Vieira. "Participava nas reuniões de projeto e as unidades espaciais foram todas pensadas ao pormenor: as condições ambientais de cada espaço (temperatura, humidade), as funcionalidades do que ia acontecer em cada sala foram tidas em conta, o circuito dos documentos, dos técnicos, dos visitantes, foi tudo pensado. Pensado e implementado, contemplando algumas das alterações ao projeto solicitadas pelo arquivista".

É por isso, por exemplo, que os documentos que chegam ao Forte não entram pela mesma porta dos visitantes. Antes por um cais de cargas e descargas que dá diretamente para o chamado depósito sujo onde os documentos são diagnosticados. Os primeiros 21 dias são passados numa câmara fechada (de expurgo) para garantir que estão livres de qualquer tipo de infestação. Seguem depois para uma outra câmara onde ficam em quarentena, durante precisamente 40 dias, findos os quais voltam a ser diagnosticados. Se ainda não estiverem completamente expurgados, o processo repete-se. Depois cada documento passa por um minucioso processo de higienização, num espaço vizinho. É aí que os técnicos de conservação, munidos de máscaras e luvas - quais doutores dos documentos, como, conta João Nuno Reis, alguns visitantes já lhes chamaram - aspiram, retiram todos os metais que possam ter, e os limpam com a ajuda de pincéis feitos de crina de cavalo, pêlo de coelho ou de marta, "sempre do centro para fora", exemplifica João Nuno Reis, durante a visita em que mostrou todos os recantos do Forte.

Se os doutores dos documentos assim o entenderem, alguns seguem para os conservadores/restauradores tratarem das "doenças" diagnosticadas. Caso contrário, estão prontos para serem arquivados e inventariados.

"Ao longo de quase vinte anos desenvolveu-se aqui um projeto-piloto na área do inventário e do inventário associado à investigação e ao arquivo, algo que diferencia este Serviço em relação a qualquer outro inventário", sublinha Deolinda Folgado, responsável do SIPA. Serviço que, contextualiza, "herda um dos departamentos mais antigos do património em Portugal, a Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), criada em 1929".

Por isso mesmo, acrescenta Cátia Taveira Martins, a documentação, guardada em 30 depósitos, abrange um arco cronológico "que vai desde 1929 a 2007, embora exista alguma documentação anterior, dos séculos XVIII e XIX".

Classificados em 12 tipos, os documentos são guardados num dos cinco ambientes diferenciados existentes no Forte de Sacavém: com diferentes níveis de humidade e temperaturas do ar, de acordo com as exigências dos suportes e até com diferentes níveis de oxigénio, como João Nuno Reis demonstrou, num dos depósitos, face à impossibilidade de se acender um isqueiro.

Para além da documentação, o Forte herdou também o saber dos técnicos da ex-DGEMN, que, explica Paula Figueiredo, "nos anos 1970 começaram a sentir alguma preocupação em reunir documentação sobre imóveis para fundamentar os projetos de obra". "A documentação então reunida foi a grande base que serve de início ao inventário. Em 1988 temos as primeiras fichas de inventário, ainda em papel, nas quais se preenchiam os campos de forma minimalista e se colavam as plantas e umas fotografias". Sorri e diz: "Era o possível na altura".

Investimento de três milhões

Com os anos 90 chegou a primeira base de dados informatizada. Ou melhor dizendo, bases. Uma vez que, continuando a DGEMN sob a tutela das Obras Públicas, com a criação do Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR), em 1992, iniciou-se também aí uma base de dados de inventariação dos monumentos. Uma duplicação à qual a Direção-Geral do Património Cultural pretende pôr fim através da criação de uma infraestrutura que agregará não só essas duas bases de dados como outras pertencentes tanto a instituições do Estado como particulares. Nesse sentido, a DGPC avançou este mês com uma candidatura a fundos europeus, num valor que ultrapassa os três milhões de euros, "que envolve oito entidades que vão desde a Fundação Calouste Gulbenkian, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (que ficará a coordenar o projeto), a Cinemateca Portuguesa, a Câmara Municipal de Lisboa, a Torre do Tombo, o Teatro Nacional D. Maria II, e a RTP", para além da própria DGPC. E à qual poderão depois associar-se outras instituições, como as Faculdades de Arquitetura de Lisboa e Porto, a Ordem dos Arquitetos ou a Casa da Arquitetura, esta semana inaugurada em Matosinhos.

Parceria com Casa da Arquitetura

Dias antes da inauguração, o SIPA e a Casa da Arquitetura assinaram um protocolo de parceria que, afirma Paula Silva, "faz todo o sentido, porque o importante é uniformizarmos critérios nacionais de arquivo e de tratamento de dados". A diretora geral do Património Cultura lembra que "só após a projeção que teve o arquiteto Siza Vieira [em 1992 vence a maior distinção mundial de arquitetura, o Prémio Pritkzer] começou a haver uma vontade de se doar espólios".

O SIPA recebe o primeiro, de Frederico George, em 1998, e, desde então, à documentação herdada da ex-DGEMN já "recolhemos 45 arquivos pessoais e espólios, que aqui estão em comandato, por 25 anos", explica João Nuno Reis. É o caso de arquitetos como Nuno Teotónio Pereira, Gonçalo Ribeiro Teles, Cottinelli Telmo, Pardal Monteiro, Daciano da Costa, entre muitos outros, e até artistas plásticos, como Eduardo Nery. No entanto, nota, "o primeiro espólio foi doado por uma entidade do Estado, o Parque do Bussaco. Os desenhos do Luigi Manini [artista italiano que se radicou em Portugal em 1879, responsável também pela Quinta da Regaleira], do Palace Hotel do Bussaco, estão cá no Forte de Sacavém".

Já a Casa da Arquitetura, desde a sua génese, há dez anos, que tem um acordo com vários arquitetos para aí depositarem os seus espólios. Algo que não preocupa nem Deolinda Folgado nem Paula Silva. "Do ponto de vista de conceito, entendemos que os espólios não têm de estar todos concentrados no mesmo sítio, têm isso sim, de estar guardados em condições que garantam a sua preservação, seguindo a mesma metodologia, e que estejam acessíveis ao público".

Daí a importância da infraestrutura agregadora dos diferentes arquivos em que a DGPC está a apostar. "O objetivo é criar, dentro de Portugal, aquilo que poderá ser uma plataforma pioneira do conhecimento que todas as instituições envolvidas produzem para ficar disponível online, naquilo que é o core business de cada uma delas, nós na área do património cultural", diz Deolinda Folgado.

Aberto ao público de segunda a quarta, o Forte de Sacavém tem uma vasta biblioteca dedicada ao património, urbanismo e habitação social. Há um ano, chegou uma nova vertente: o arquivo de documentação fotográfica responsável pelo inventário fotográfico nacional de museus, palácios e monumentos, que tem também à sua guarda o espólio da Biblioteca da Ajuda e do Laboratório José de Figueiredo.

E quando se visita um dos depósitos, onde caixas de documentos aguardam ainda a ida para as estantes finais, ou quando se ouve os técnicos falar de espólios de da Academia de Belas Artes ou do Ministério da Educação por tratar e estudar fica-se com uma certeza: os números esmagadores com que começámos este texto, vão continuar a aumentar.

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