Exposição mostra o que faz de Paris... Paris

Partindo dos principais eixos viários e terminando nos catálogos de ornamentos dos edifícios do século XIX, a exposição Paris Haussmann: Modelo de Cidade apresenta uma visão global de como foi construída a identidade da cidade.

Como podemos construir a cidade de amanhã? Esta questão, "muito simples de fazer" mas "muito complicada de responder", foi o ponto de partida do multidisciplinar gabinete de arquitetura parisiense LAN para uma investigação que os levou a olhar para Paris de uma forma muito particular, inventada por eles próprios. O resultado desse trabalho, uma ferramenta de análise da cidade que pode ser transposta para diferentes metrópoles, forma a exposição Paris Haussmann: Modelo de Cidade, que até 17 de junho ocupa a Garagem Sul do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Deixando de lado os aspetos históricos, políticos e sociais, durante dois anos a equipa olhou para Paris como uma forma, detendo-se "no potencial dos edifícios em se adaptarem às mudanças funcionais da cidade", numa análise que os levou a ver as suas diferentes camadas.

"Paris é a cidade europeia com maior população e densidade humana, e encontra-se mesmo entre as cinco mais densas do mundo. Mas isso não se sente quando aí se vive, trabalha ou visita." Para além disso, "Paris tem um modelo muito resiliente porque muitos dos edifícios haussmannianos [da segunda metade do século XIX] ainda lá estão. Por outro lado, assinala ainda Enrico, "é uma cidade muito sustentável, tem uma rede muito eficiente. Quisemos compreender o porquê dessa resiliência, apesar de a cidade ter mudado tanto desde essa altura, o que poderíamos aprender com esse modelo que permite a Paris ainda hoje competir com as maiores capitais mundiais", explicou o Máximo Enrico, durante a visita de imprensa à exposição, inaugurada há um ano no Pavilhão do Arsenal e agora exibida pela primeira vez além-fronteiras.

O trabalho deixou para outros a bondade ou não da verdadeira revolução urbanística posta em prática pelo barão Georges Eugène Haussmann, responsável pelo departamento do Sena entre 1853 e 1870, que em nome de uma Paris moderna e com melhores condições de salubridade, em 17 anos construiu 600 quilómetros de esgotos, 175 quilómetros de vias, parques, edifícios municipais e escolas, reconstruiu os bairros do centro e projetou os da periferia, estimulando o investimento particular em edifícios de habitação. Para se ter uma ideia, 60% do que foi construído entre 1850 e 1914, período de influência de Haussmann, ainda hoje faz parte da paisagem urbana de Paris.

Através de mais de cem desenhos, planos, materiais de arquivo, maquetas e fotografias de Cyrille Weiner, o ateliê LAN mostra antes como desenvolveu a sua investigação, as questões levantadas e as conclusões a que chegaram.

O primeiro aspeto a revelar-se nesta investigação inédita é que "a criação simultânea das infraestruturas e das superestruturas da cidade produziu uma rede particularmente eficaz, tanto nas deslocações de longa distância como nas de curta". No segundo núcleo da exposição surge outra questão: ao planear a cidade, Haussmann definiu blocos urbanos, os famosos quartiers parisienses, de área e escala variáveis. Mas a análise feita pelo LAN mostra uma densidade constante, seja qual for a volumetria. "E isto foi até uma surpresa para nós", confessa Enrico.

Fazendo novo zoom, o ateliê centrou-se nos edifícios em si, investigação mostrada no terceiro momento da exposição em que se destaca uma maqueta de madeira emprestada pela Cité de l"Architecture, de Paris. Para além do apoio de Napoleão III para as obras públicas, Haussmann apoiou-se em capitais privados e fez do edifício de arrendamento o instrumento para a construção dos quarteirões - se hoje é normal comprar-se parcelas de um edifício, no século XIX esta prática foi uma inovação.

Maximo Enrico elenca uma série de características de todos os edifícios, independentemente de se tratar de habitação para classes alta ou média: "A fachada era pensada a partir de uma grelha, simples e sempre igual, independentemente da planta do edifício. O pé-direito varia segundo o piso, mas é sempre igual em todos os edifícios. Os materiais, sobretudo o calcário vindo de pedreiras locais ou próximas, eram os mesmos, o que variava era o nível de ornamentação, segundo a categoria económica do edifício."

Características que conferem "grande flexibilidade a esta arquitetura, permitindo a sua adaptação face às mudanças tanto dos estilos de vida como das suas funções.

Por fim, e fazendo novo zoom, no quarto momento da exposição surgem catálogos dos ornamentos, de pedra e ferro forjado, utilizados. "Temos de pensar que estamos numa época em que a industrialização já está em curso", contextualiza Enrico, "tornando possível o fabrico de ornamentos em série". Alguns dos quais são reconhecíveis, mesmo num grande plano cinematográfico. É esta a identidade de Paris.

Desenhos do aluno Marques da Silva

Em jeito de complemento a Paris Haussmann: Modelo de Cidade, foi também inaugurada esta semana Desenhos de Marques da Silva no Atelier Laloux 1890-1896, "uma primeira exposição da série arquivos", explicou André Tavares, programador da Garagem Sul do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Os desenhos, muitos deles de grandes dimensões, mostram o trabalho que o então aluno José Marques da Silva fez no ateliê de Victor Laloux (arquiteto, entre outras obras, da Gare d"Orsay) durante o período em que frequentou a Escola de Belas-Artes parisiense.

O conjunto de obras pertencente à Fundação Marques da Silva, constituída pela Universidade do Porto a partir do legado da sua filha, Maria José Marques da Silva, com sede na própria casa-ateliê do arquiteto, no Porto. "Marques da Silva é o arquiteto do Porto, construiu muito mais do que Álvaro Siza ou Eduardo Souto de Moura na cidade do Porto e teve um impacto muito grande ao longo de todo o século XX, sobretudo pela cultura do desenho que imprimiu no ensino nas Belas-Artes, uma cultura que veio de Paris", explica André Tavares, adiantando que "é interesse da Garagem Sul colaborar com muitas instituições desta natureza que existem em Portugal e que têm vindo a recolher uma quantidade substancial de documentação e de legado patrimonial da cultura arquitetónica, sobretudo do século XX".

Outra particularidade tornou possível a exposição destes desenhos, "trabalhos académicos que partem do princípio da cópia": "Ao contrário do que aconteceu nesta altura com arquitetos como Ventura Terra ou Adães Bermudes, Marques da Silva foi estudar para Paris com uma "bolsa" do próprio pai em vez da tradicional bolsa do Estado", refere ainda André Tavares.

Informação útil:
Paris Haussmann Modelo de Cidade
Centro Cultural de Belém, Lisboa
Até 17 de junho. Bilhetes: 5 euros

A par da exposição Paris Haussmann vão realizar-se uma série de visitas, entre hoje e 26 de maio, que mostram a influência francesa em Lisboa. De participação gratuita, basta fazer reserva antecipada no site do CCB.

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