Eugenia Rico: "Queria ver o mundo das mulheres pelo olhar dos homens"

A história de um inquilino que é internado num manicómio para que o senhorio tenha o seu apartamento no centro de Paris de volta. Depois de várias traduções, chegou a hora da língua portuguesa para Os Amantes Tristes.

Dezoito anos após a primeira edição de Os Amantes Tristes, a Parsifal publica um dos romances de maior sucesso da espanhola Eugenia Rico. Um livro que persegue a escritora como a própria confessou durante a passagem por Lisboa para apresentar Os Amantes Tristes: "Foi o meu primeiro livro publicado e já compreendi que marcou bastante muitos leitores." Pergunta-se o porquê e responde com um caso exemplar: "Estive na feira do Livro de Sant Jordi e um leitor contou-me que a mulher o seguia pela casa e lia-lhe frases do romance. Por isso, pedia-me um autógrafo." Não fica por um caso: "Um leitor brasileiro que já o tinha lido, questionou-me para quem é que escrevia? Respondi-lhe que não existia um leitor especial, eram todos, porque é o livro que encontra os próprios leitores."

Para Eugenia Rico, citando a sua experiência de escrita, o autor é um médium: "Tudo o que escrevi ou está a acontecer, já aconteceu ou vai acontecer. A inspiração mais não é do que um contacto com um inconsciente coletivo. Se os leitores gostam de um livro meu é porque encontrei o leitor certo para o que plasmei no texto. O mérito não é do escritor mas do leitor."

Quanto ao romance que a trouxe a Lisboa, avisa que como já não é a pessoa que o escreveu fica surpreendida pela receção do livro tantos anos depois: "A explicação que encontro é a de ser uma história melhor compreendida do que no tempo em que foi lançado." Acrescenta que Stendhal "dizia que escrevia para ser lido 50 anos após a sua morte, porque os livros sobrevivem ao seu autor". Recorda também o que se passou com F. Scott Fitzgerald: "O Grande Gatsby só foi reconhecido alguns anos após a sua publicação." Por isso, acha que agora os leitores estão mais preparados para Os Amantes Tristes, afinal o livro não tem envelhecido. Volta à questão da perseguição: "É como o filho pródigo, está sempre a regressar até mim." Ou seja, garante, "o êxito pode ser uma condenação porque não facilita tentativas de experimentação literária posterior."

Daí que se pergunte se o sucesso deste romance obrigou a autora a seguir um mesmo modelo, situação de que discorda: "Os Amantes Tristes fazem parte de uma trilogia a propósito do que é o amor para os gregos. Como tinham palavras diferentes para amor, também os livros incorporam estilos diferentes. Foi uma situação a que me obriguei para não estagnar."

A história que é narrada por Eugenia Rico neste romance é verdadeira, esclarece: "Sim, passou-se em Paris e relata o drama de alguém que é expulso pelo senhorio da sua casa só porque a habitação fica no centro e tem renda controlada. A lei francesa permite que uma pessoa seja internada no manicómio contra a sua vontade, foi o que aconteceu a alguém que não estava louco e que me interessou transformar num personagem. Investiguei, escrevi cartas aos verdadeiros personagens e descobri que não era apenas a loucura que me interessava, mas também a amizade e a traição."

Após este período de investigação, houve personagens que cresceram conforme Eugenia Rico ia escrevendo: "Pareciam fantasmas, mas mandavam na história. Esse momento é aquele que mais me entusiasma e, por isso, digo que o livro foi, na realidade, escrito mais pelas personagens do que por mim." Entre as que se agigantam está Ophélie: "Todos acham que ela é inspirada em mim, o que não é verdade pois sinto-me mais na pele dos personagens masculinos." O que leva a perguntar se lhe foi fácil escrever no registo da fala masculina: "Não é fácil, mas creio que consegui explorar a sexualidade masculina. Tanto que num outro livro, O Beijo do Canguru, entrevistei quase trezentos homens para perceber como é a perspetiva da vida sexual pelo lado do homem. Queria ver o mundo das mulheres pelo olhar dos homens, porque para mim um verdadeiro escritor é hermafrodita." Eugenia Rico socorre-se outros escritores para esta questão: "Como conseguiu Flaubert contar Madame Bovary tão por dentro e deixar de ser homem ou mulher." Para concluir: "Enquanto escrevo não tenho sexo." Não deixa de referir que a forma como encontrou a voz literária levou muito tempo, mas desde cedo sabia querer tornar-se escritora.

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