"Eu fotografo a Belém cabocla, que é fruto da miscigenação"

Fotógrafo brasileiro mostra em Lisboa o seu trabalho sobre Belém do Pará, cidade fundada pelos portugueses em 1616

Luiz Braga é fotógrafo há 40 anos, com a sua Belém do Pará a ser o principal tema da sua obra, que pode ser vista até junho em Lisboa, na Casa Pau Brasil, no Príncipe Real. Com 61 anos e arquiteto de formação, o fotógrafo brasileiro foi apresentado ao DN pela jornalista Anete Costa Ferreira, que vive há muitos anos em Portugal mas é também oriunda de Belém, cidade da Amazónia fundada em 1616 e onde o legado português continua bem vivo (ver livro Imagens de Santa Maria de Belém do Grão-Pará, da própria Anete Costa Ferreira). Contudo, é a cidade periférica, a cidade cabocla, que Luiz Braga fotografa e não o conjunto arquitetónico herdado da era colonial, onde pontifica a Catedral de Belém e o Palácio do Governador , ambos do século XVIII.

Esta sua exposição em Lisboa, inaugurada no sábado na Galeria Pau Brasil, dura dois meses Sei que fotografa Belém do Pará, a sua cidade, mas não a velha cidade colonial. O que chama mais a sua atenção?

Eu fotografo a cidade cabocla. A Belém do Pará que é fruto da miscigenação dos índios, dos negros e dos portugueses. É uma cidade que tem uma sabedoria peculiar. E é uma cidade onde eu identifico uma diferença que tem influências de diversas culturas. E é muito rica por isso. E por isso me seduziu. O uso da cor, a forma da madeira, a maneira como as pessoas constroem as suas casas, a maneira como vivem, como elas festejam. Todo esse modo de vida me atrai e faço fotos dele há mais de 40 anos.

Notei que nas suas fotografias as cores eram muito impressivas. Como é que consegue esse efeito?

O mínimo que você deve fazer é tratar as cores de lá, da cidade cabocla, com respeito. Essas cores eu consigo porque descobri que usando o filme day light numa situação que não é day light, ou seja, ao fim do dia, quando as luzes se acendem, obtinha umas distorções e com essas distorções eu fui construindo a minha obra. Com estas distorções eu fui premiado em Washington, eu fui à Bienal de Veneza, eu acabei me afirmando como artista a partir de uma matriz popular. As pessoas podem até dizer que em geral o popular é aquele naïf, coisa tosca, sem qualidade, mas não. Isso é uma visão obtusa que não valoriza a sabedoria que surge das pessoas mais simples.

Tem a tentação de fotografar a Belém colonial, os edifícios mais emblemáticos?

Tenho também isso fotografado, em preto e branco. Tenho muito. Porque é muito forte. Eu faço parte dessa herança, desse diálogo. Eu digo que a minha cidade tem uma sabedoria diferente da de outras cidades brasileiras porque ela tem uma influência portuguesa forte, mas também tem uma influência forte do índio e do negro. Então isso cria uma mistura de culturas, o que se chama hoje de hibridismo, que propicia que a nossa música, por exemplo, tenha sonoridades do Caribe, com batuques que vêm do índio. E tudo isso cria uma forma de cultura peculiar. A minha fotografia trabalha sobre assuntos que são o que nos fazem diferentes do resto do mundo. Pense bem: os carros são todos iguais, as roupas são todas iguais, a H&M é igual aqui em Lisboa, em Buenos Aires e em Nova Deli. O relógio é igual, o telefone é igual. O que faz a diferença? Quando você ouve uma guitarra você sabe que está em Portugal.

Qual é a presença cultural portuguesa hoje em Belém do Pará além da arquitetura?

Olha, tanto. A forma de ser. A culinária. A fé católica. Nós temos a maior procissão católica do mundo, o Círio de Nazaré, onde já fiz, e faço, muitas fotos. Porque não é sempre a mesma coisa, cada ano é diferente.

O Luiz consegue identificar as suas origens portuguesas, de onde vieram os Braga?

Possivelmente Braga [risos]. Já estive lá. Mas é só uma intuição. Estou tentando saber mais, até para conseguir a minha cidadania.

Como é para um brasileiro expor em Portugal? Sente-se em casa?

Muito, especialmente aqui nesta casa, na Pau Brasil, que tem o mérito de mostrar o Brasil de que eu tenho orgulho. Eu não tenho orgulho dessa podridão toda que sai no noticiário e não acaba mais.

Tem orgulho do Brasil potência cultural...

Sim. Tenho orgulho desse Brasil do Sérgio Rodrigues, que é um designer de móveis fabuloso, do Hugo França, da música que se toca aqui, muito selecionada. É deste Brasil que eu estou fazendo parte. Fui convidado. E tenho muito orgulho. Claro que eu espero que uma hora eu vou mostrar no Museu Berardo. Tenho fotos na coleção do Centro Português de Fotografia, tenho fotos na coleção no Novo Banco. É um talento a ser reconhecido, feito com sinceridade, com competência, com profissionalismo. Porque as pessoas têm uma imagem muito esdrúxula do Brasil. Eu acho muito pouco se entender o Brasil só pelo samba ou só pelo futebol ou só pelo carnaval ou só pela política, o que é muito pior. Tem tanta coisa.

Tem a tentação de fotografar esta Lisboa que o acolhe por estes dias?

Sempre fotografo Lisboa. Tenho fotografado muito. Mas ainda não editei. O meu tempo de trabalho é muito longo. Os meus ensaios são longos. Eu não sou imediatista. E não acredito em arte imediata. Eu gosto de maturar, de decantar. Esta é a quarta vez que venho aqui e quero vir mais. Porque quero estabelecer essa ponte que está dentro de mim. É uma ponta para dentro. Como se você fosse buscar caminhos que estão na sua história e se vão revelar à medida que for caminhado.

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