Eduardo Batarda: "Se fizéssemos só o que se ensinava ou era exigido nas Belas Artes, estávamos tramados"

O pintor está sem pintar há alguns meses, desde que uma doença entretanto tratada o forçou a pousar os pincéis. Há telas à espera de tintas e figuras abstratas ou não e textos, como é próprio do universo de Batarda. A Galeria Miguel Nabinho expõe nove quadros, Descrições de Imagens, 2. Para ver e para ler.

Recebeu-nos no ateliê, isto é, na casa de Campo de Ourique onde mora. O espaço de trabalho tem muito mais do que telas prontas a ser pintadas, porque está forrada com milhares de cds e livros, e pelo meio ainda há mais montes de cds e livros. Uns espaços estreitos permitem a passagem, mas com cuidado para não desfazer o equilíbrio precário. O microfone ficou num pequeno escadote, o técnico de som sentado a um cantinho. No tempo curto de um programa não cabe toda a conversa que apetecia ter. Ainda assim, aqui estão as histórias dos obstáculos que evitou na sua vontade de ser pintor, a atitude de desafio, rapidamente abandonada, perante a arte antiga, a vontade insistente de trabalhar. Com a ironia intacta. Nascido em 1943 em Coimbra, o pintor, Grande Prémio EDP de 2007, fez as Belas Artes em Lisboa, depois a tropa, depois o Royal College of Art, em Londres. Pinta e escreve, e junta tudo nos retângulos de formas e cores que nos mostra.

Tem uma exposição na galeria Miguel Nabinho, em Lisboa. Nove quadros pintados de uma assentada?

Foram pintados em sequência, sistematicamente, são quadros que dependem de um script que fiz antes, ou que fui continuando a fazer à medida que pintava outros. A exposição destinava-se a ter apenas oito quadros mas no fim de agosto, quando acabei este grupo de nove, houve um diagnóstico de doença. Não pude tornar a pintar e foi decidido integrar nesta exposição o primeiro da série da exposição seguinte.

Em alguns há figuras, personagens que me fizeram lembrar as suas pinturas que se aproximavam da banda desenhada.

Se as pinturas lhe fazem lembrar banda desenhada é porque têm qualquer coisa em comum - é figuração com certas caraterísticas formais da tradição da banda desenhada, dos bonecos animados, dos cartoons. Não nego que isso foi uma fonte, ou um conjunto de fontes que usei desde o princípio, em meados dos anos 1960. Agora fui buscar isso porque às tantas apeteceu-me variar ligeiramente e pareceu-me que uma espécie de bonecos que aparecessem à volta, ou sobrepostos, como que a comentar, ou a fazer àpartes relativos ao assunto, ou à falta de assunto, escritos nos quadros, poderiam ter algum efeito. Com algum trabalho. Estes quadros demoram-me, se eu estipular uma média de nove horas por dia de trabalho, 21, 22 ou 23 dias.

Cada quadro?

Cada quadro. Esquecendo as preparações e esquecendo a escrita. As preparações não são muitas.

A preparação da tela, do fundo?

Eu compro telas preparadas, muito bem preparadas, que já vêm isentas de irregularidades e do grão da tela. Mesmo assim, gosto de ser eu a começar esse pseudo-preparado. Digamos que é uma fase em que há um não-trabalho que, no entanto, é uma espécie de alibi - estamos a trabalhar sem estarmos necessariamente a inventar ainda nada. Compro as telas preparadas e montadas.

Este verde do fundo foi pintado depois?

Esse já foi posto por mim, elas vêm brancas. Eventualmente, essa poderia vir, ou não, a ser a cor de base ou daquela figura do meio do quadro, ou do fundo à volta dela, e vice-versa.

Como escolhe o fundo, a primeira cor?

Essa parte da superfície ou das figuras abstratas que ficam por baixo, ou melhor, servem de fundo à escrita, é feita, como quase tudo nas minhas pinturas acrílicas, por tentativas. Experimento uma cor, mais ou menos casual, encontrada por acaso. Há alguns princípios, desde que comecei estas séries em 2014. Lido essencialmente com tons cinzentos coloridos, muitas vezes pardacentos, acastanhados, esverdeados. Mesmo os amarelos são muito perversos, os encarnados são castanhos. De tal maneira que quando duas cores se encontram podem dar o que se convencionou chamar uma harmonia, mas podem também aparentar instantaneamente um contraste violento entre duas cores opostas, quando na realidade são dois tons não tão opostos como isso. Não posso esquecer que vão servir de base a uma quantidade de conversa, texto que tem de ser legível a dois, três, quatro metros. Esse trabalho é essencialmente improvisado. Até chegar ao fim dessa operação pode haver a sorte grande - num dia nunca consegui mas em dois dias já fiz vários. Mas normalmente serão cinco dias até a coisa estar satisfatória. Isto acontece porque sei que, a não ser brincadeiras feitas num cantinho ou intervenções numa área menos importante, uma vez as letras pintadas não posso alterar o fundo, a não ser que seja maníaco, maluco, ou que elimine as letras todas. Quando falo em oito ou nove horas de trabalho diário, posso estar a pensar em seis, sete ou mesmo oito a pintar e depois, a seguir ao jantar ou pela noite ou depois da televisão ou às tantas da manhã, a escrita. Essa não está aqui contabilizada, embora na minha cabeça ela esteja.

A escrita aparece depois de ter a tela preparada ou estava preparada antes?

Quando começo um quadro, a escrita está pronta.

Tentou primeiro ir para Medicina, andou por lá um tempo e desistiu. O que é que lhe deu para ir para Medicina?

Não me deu, deram-me. Quando tinha 14 anos, tinha feito o exame do antigo 5.º ano do liceu, e para ir para o 6.º e para o 7.º havia o sistema das alíneas que nos endereçavam para cursos. Vim ao Instituto de Orientação Profissional onde me fizeram uma série de testes para concluir aquilo que eu sabia lindamente, ou seja, que jeito para mecânica era uma coisa que eu não tinha, nem jeito para contas ou ciência - tinha boas notas a Matemática, era muito bom aluno, mas sabia do que gostava.

De que gostava?

Gostava de ler, essencialmente, de ir ao cinema, de arte que praticamente nunca tinha visto a não ser em criancinha ou numa ou outra vinda a Lisboa ao Museu de Arte Antiga e ao Porto também. Não é que fosse altamente inspirador. Havia livros lá em casa, livros de arte também - havia mulheres nuas nas reproduções, o que era sempre um incentivo. Disso eu gostava, disso e dos livros. O Instituto de Orientação Profissional recomendou vivamente que eu fosse para um curso da Faculdade de Letras. Acontece que os meus pais eram os dois cientistas, universitários da Faculdade de Ciências, e tinham um desprezo profundíssimo por tudo o que fosse estudos de Literatura, porque literatura é uma coisa que se lê em casa. Não eram propriamente literados, longe disso, mas tinham os seus consumos de acordo com as modas da época. Fartei-me de ler coisas fundamentais para mim e para a minha geração que também o tinham sido para a geração deles.

Por exemplo?

Liam línguas, havia livros em várias línguas. Lembro-me que o primeiro livro que li em casa, talvez não inteiro, tinha oito ou nove anos, foi A Paixão de Jane Eyre [Charlotte Brontë, 1847], porque era o livro com mais páginas e estava numa estante onde eu chegava sem problemas. Fiquei de tal maneira assustado e assarapantado com a cena da loucura e da louca que sai do sótão ou lá de onde estava presa que voltei rapidamente ao Júlio Verne durante alguns anos.

Era mais aventuroso mas mais tranquilo?

Absolutamente, não metia aquele género de medo. Portanto, eu devia ir para Letras mas a conclusão dos meus pais foi de que eu devia ir para a alínea f, que dava a escolher qualquer curso de Ciências, Medicina ou Matemática.

Tudo coisas em que não estava nada interessado.

Exatamente. E assim foi. Não quero ser injusto ou pôr em causa coisas que não têm a ver com o que é atual, mas havia uma certa vontade, que eu não tinha, acompanhada pela observação da evidência: se eu era filho de lente, devia ser lente. E havia também uma hierarquia entre as faculdades, ou certas pessoas consideravam que isso existia. Se eu não herdasse a cátedra do pai, então herdaria uma cátedra algures, uma coisa decente. Por que não Medicina? Fiz três cadeiras do primeiro ano, no primeiro ano, e nunca mais pus os pés nas aulas.

Na Universidade de Lisboa?

Em Coimbra. A única coisa que fiz no meu segundo ano foi apresentar-me ao exame da célebre Anatomia em que talvez pudesse ter passado com 10 e vir a ser um daqueles médicos que ao longo de doze anos e com 10 em todas as cadeiras, conseguem abrir um consultório, sabe deus aonde. Não deu para isso.

Porque recusou?

Não, porque fui recusado. "Venha cá em outubro", diziam. Do lado de lá da secretária do júri havia a opinião de que podia deixar passar alguns com 10 mas não aqueles que eram supostos ser bons. Era preferível perder um ano ou vir em outubro.

Foi isso que o salvou?

Se me salvou não sei, talvez eu estivesse muito mais feliz se tivesse sido médico.

Não diga isso.

Não, eu não tinha sequer estômago para aquelas coisas mais repelentes, não tinha jeito, não tinha paciência, não tinha gosto. Estava lá, assistia às coisas, via, palpava-as, mexia nelas, puxava pelos músculos ou pelos órgãos e sentia os cheiros, mas não tinha qualquer espécie de interesse naquilo.

Como é que em alternativa aparece a arte?

A alternativa aparece ainda sob a forma de uma tentativa de mudar para o curso de História. No meu terceiro ano de Medicina estudei para fazer as quatro cadeiras que me dariam acesso ao curso de História - História, Grego, Latim e Literatura. Ainda fiz exames e passei, tive 10 a Grego. Juro que três ou quatro meses depois já nem o alfabeto sabia de cor.

Mas não chegou a ir para História?

Não, porque houve vários desenvolvimentos. Cada vez aparecia em menos aulas e a minha família passou a estar muito embaraçada, envergonhada comigo. Possivelmente suspeitavam que eu tinha uma vida dupla qualquer.

O "filho de" não se mostrava interessado?

Ou era burro ou atrasadinho ou um estoira-vergas ou um boémio. Não era nada ou era um bocadinho disso tudo. Estúpido era com certeza, se não tinha passado a todas as cadeiras de Medicina. Foi-me feito um desafio muito interessante: eu tinha de sair de Coimbra, e sendo óbvio que eu queria escolher outro curso, eu que escolhesse. Enquanto eu fosse menor - e na altura só se era maior aos 21, o que foi a minha sorte - o meu pai sustentava-me e ajudava-me em tudo o que eu precisasse para os estudos. Cheguei a Lisboa, informei-me, fiz a admissão às Belas Artes sem ter muita preparação. Um contínuo à porta da escola, quando me fui inscrever, perguntou "já tem professor?" e lá me deu cartões de visita de dois professores.

Professores de desenho?

Exatamente. Fui para os dois, onde estive no máximo sete ou nove dias. Foi intensivo, percebi alguns truques. Percebi logo que, se deitasse o carvão de uma certa maneira para parecer mais rápido e mais espontâneo, podia atrair alguma atenção, sobretudo podia disfarçar alguns erros nas proporções, e que a proporção era tudo. Era assim. Aquilo era uma lotaria e tive sorte. Não era preciso ter passado cinco anos a acabar o liceu, em Medicina e a passar pelas crises académicas.

Porque isso tudo se passa no princípio dos anos 1960?

Foram anos complicados, não só para mim mas para muita gente com problemas cem vezes piores que os meus, gente que foi expulsa da universidade, gente que foi transferida de universidade compulsivamente, etc. Muitos dos meus amigos, em Coimbra e em Lisboa, pertenciam a essas duas raças. Quando vim para Lisboa, não tive dificuldade em fazer amigos novos e encontrei muita gente que já conhecia, de Coimbra, ou que conhecia dos Dias de Estudante e dessa coisa toda. Depois percebi que a coisa era incompatível com o ter de sair da Escola de Belas Artes para ir a correr tentar pintar para mim, ou tentar fazer uma coisa diferente daquilo que se fazia nas Belas Artes.

Era um ensino muito clássico?

Era muito saudável. Pressupõe-se que eu entretanto passei no exame de admissão. Sentei-me no exame de admissão, de um lado estava a Ana Jotta, do outro lado o Gaëtan, um bocadinho mais novos do que eu - a Ana era quatro ou cinco anos mais nova, parecia uma menina de 14 anos, e eu já um veterano com 19 anos. Eu tinha entrado para a faculdade com 17 anos, muito cedo, e daí eu conhecer várias gerações da estudantada. Tinha colegas mais velhos das outras faculdades. O ensino das Belas Artes era suposto ser rígido, era vagamente absurdo, para não dizer que era completamente absurdo. Pretendia-se, num sistema mais ou menos rígido, com horários, cadeiras e programas mais ou menos controlados, com horários das oito da manhã às cinco ou seis da tarde, com intervalo para o almoço, uma formação de estudantes que desse como resultado aquilo que dava o sistema de 150 anos antes, quando os meninos entravam com 12 ou 13 anos em estúdios, levantavam-se às três da manhã para irem acender as lamparinas e varrer o ateliê ao mestre, tinham trabalho de desenho durante 12 ou 14 horas por dia durante quatro ou cinco anos até terem direito a experimentar a primeira pincelada. Isto só quanto à desproporção horária, para não falar das outras desproporções conceptuais, de modas, de tempos, o que se faz à nossa volta. A escola pretendia, com um sistema liceal, formar pintores académicos à maneira do tempo do Veloso Salgado. Obviamente nunca conseguiu fazer coisas dessas. Havia professores que olhavam ironicamente para esse sistema, "permitiam" algum tipo de "liberdades", não podiam ir muito longe nisso, eram diferentes dos seus superiores, mas isso só nos ajudava a convencer-nos de uma coisa: se fizéssemos só o que se ensinava ou só o que era pedido ou exigido na escola, estávamos tramados. A primeira vontade era de ir buscar um quarto alugado ou partilhar um ateliê. Era frequente, e acabou por ser para mim também, sair da escola, à qual se ia mais ou menos para cumprir os horários, para não chumbar por faltas, e começar então o dia de trabalho. O meu primeiro ateliê partilhado foi aqui no bairro de Campo de Ourique, onde moro.

Foi assim o tempo do curso?

O ensino não nos preocupava muito. No primeiro ano e depois no terceiro ano, houve várias excursões inspiradas pelo associativismo dos estudantes, para ver a famosa Escola do Porto, onde eu viria uns anos depois a dar aulas. "Aqui deixam fazer moderno! Aqui deixam até - alguns - pintar abstrato!" Sem reparar que a ideia de liberdade que podia ser retirada do que deixavam fazer era a muitos títulos errada e falsa. Encontrávamos maior liberdade a fazer só e a ter como únicos valores o nosso trabalho fora da escola, a limitar-nos a cumprir calendário, a cumprir o que os professores queriam sem prestar a maior importância, ou sem respeitar, em termos de critérios, se era bom ou se era mau o que fazíamos na escola. Enquanto alguns dos nossos colegas, aqueles que prestavam unicamente atenção à escola, discutiam o que era bom - "aquele meu Santo António era muito melhor que o teu, aquela minha Sagrada Família tinha qualidade e o mestre não foi capaz de olhar para aquilo, era muito espiritual". Esse tipo de coisas.

Depois o grande salto é quando vai para Inglaterra estudar?

O salto é muito maior porque entretanto fui para a tropa. Em 1968, aí sim, foi um salto. Houve algumas particularidades no meu serviço militar que me fizeram concluir que eu tinha que ir para Londres. A decisão não foi tomada unicamente sobre informações ou fatores artísticos ou de ensino, foram também coisas práticas. Embora fizesse um serviço militar de três anos e meio, como não tinha sido chamado para África mas pertencia a um ramo combatente das Forças Armadas - eu sou artilhêro - percebi uma lei não escrita, não muito conhecida: iria ser mandado para a vida civil durante três ou quatro anos e depois tornavam a chamar-me. Ia ter "um mais três anos", incluindo três em zona de combate e com responsabilidades de comandante de companhia, ou seja, capitão. Era o destino que me estava preparado e era já o destino de alguns homens um bocadinho mais velhos que eu via no quartel onde estava, com olhares vazios, a jogarem bilhar o dia todo, à espera de serem chamados para outro sítio para formarem batalhão. Tipos com 34 ou 35 anos que tinham feito quatro anos de serviço, seis anos antes, e que eram chamados para mais quatro anos. Tinham as vidas profissionais e familiares acabadas. Conheci alguns. Eram pessoas em desespero.

Aí pensou que tinha de ir embora e conseguiu uma bolsa da Gulbenkian?

Consegui uma bolsa, não sei se foi ou não difícil de arranjar. Eu era bom aluno. Cheguei às Belas Artes e era muito mais fácil do que Medicina. Alguém pode dizer que não são coisas comparáveis. Em termos de facilidade ou dificuldade, praticamente tudo o que é físico e diz respeito a estudo é comparável. Nos dois anos em que tínhamos em Belas Artes a cadeira de Anatomia eu tive 18 sem estudar, enquanto em Medicina não consegui sequer chegar ao 10. Era tão simples como isso.

Estava a falar da ida para Londres.

Tive um conjunto de fatores em que posso dizer que tive sorte. Tinha boas notas, tinha já um certo número de exposições coletivas, tinha uma exposição individual, tinha críticas muito razoáveis, para não dizer boas. Tinha tido uma aceitação nesses dois ou três anos que vão de 1966, quando mostrei trabalhos de 1965 na Sociedade de Belas Artes, até 1968. A receção foi, se não entusiástica, pelo menos muito protetora, se não entusiasmante foi pelo menos amiga, mesmo da crítica de arte afeta ao antigo regime. Bateu muito na minha escrita, não por eu escrever nos quadros mas porque era em estrangeiro, não era suficientemente patriótico.

A chegada a Inglaterra e a um outro sistema de ensino foi agradável, desafiante?

A chegada a Inglaterra foi sobretudo para mim o contraste da tropa. Tive uma licença especial, tiraram-me um mês de tropa para poder começar lá o ano letivo sem problemas. Saí literalmente do quartel um dia, para dois dias depois estar no Royal College of Art. Tinha lá estado em entrevistas na Páscoa anterior, tinha sido aceite. Correu tudo razoavelmente, até de uma maneira inesperada no sentido de a libra estar baixíssima e o escudo, com a guerra colonial, estar altíssimo.

Isso ajudou bastante?

Ajudou muitíssimo. Não devia, ou não podia, dizer quanto recebia da Gulbenkian, e mais uma ajudinha do pai, e a minha mulher com a ajuda dos meus sogros. Em termos portugueses, vivíamos miseravelmente, para os meus colegas vivíamos como príncipes. Nessa altura, em Portugal - cheguei a Londres em 1971- era dificílimo comprar um par de jeans. Compravam-se pelo preço pelo qual um homem podia fazer um fato num alfaiate muitíssimo decente. Toda a gente andava de fato. E embora eu tivesse depositado as centenas de gravatas e não sei quantos fatos num baú e dado outros quando fui para Londres, com aquela coisa do "eu vou para não voltar", tinha de usar lá pelo menos os restos das minhas fatiotas. Era ligeiramente mais velho, embora de aspeto ainda não o denotasse - eu tinha 27, quase 28 anos, mas podia parecer 23. Ainda assim era mais velho do que a média dos meus colegas que, embora tivessem feito pelo menos o Foundation Course e um curso de arte, e estivessem a fazer uma pós-graduação, as idades e os tempos somados chegavam aos 23. Perguntavam-me: "de onde é que você vem?". Eu dizia: "Venho de um quartel de Artilharia" e ficavam logo com aquela imagem. Era difícil explicar o que era um alferes miliciano. Eles diziam oficial, e oficial do Exército ativava-lhes aquelas coisas do sistema de classes. Nas cadeiras teóricas e nos seminários também era notável, porque revelava um certo número de coisas em que eu estava à vontade, apesar das diferenças linguísticas, mas que não eram bem aceites por alguns dos meus colegas, porque quem se dá bem com livros é quem tem livros e quem tem livros é porque é de classe média. Havia rejeições.

Além da diferença no ensino, que havia em Inglaterra, havia diferença no acesso à arte, tinha acesso a museus um pouco mais recheados.

O acesso direto à arte estava limitado à arte que se fazia em Lisboa. Vi o meu primeiro Nikias [Skapinakis, Lisboa, 1931] na montra de uma loja de decoração, no Chiado. Viriam a pôr lá mais, de vez em quando. Lembro-me de ficar muito tempo a olhar para as pinturas do Nikias porque era uma oportunidade única de as ver, ou então tinha de ficar à espera de uma exposição individual porque não o conhecia, embora na altura os conhecimentos entre gerações fossem muito mais simples do que são agora, porque havia muito menos gente. Quanto à acessibilidade da arte em Londres, evidentemente isso foi para mim o principal.

Por ver o que só conhecia dos livros?

Eu era muitíssimo infantil e muito provinciano. Um dos meus provincianismos maiores era uma coisa que partilhava com os meus colegas ingleses - a convicção de que ser atual, ser vanguardista ou, pura e simplesmente, ser moderno tinha qualquer coisa a ver com o não ligar às obras de arte do passado. Fiz uma visita perfunctória à National Gallery, menos de uma semana depois de estar a Londres, e só voltei a pôr lá os pés em janeiro ou fevereiro do ano seguinte. Foi uma adaptação um bocadinho lenta. Morei num hostel do College até ao Natal, e aí mudei para um sítio muitíssimo modesto, com uma localização ótima - ficava muito perto da escola de pintura e do Victoria and Albert Museum. No filme Bande à Part [1964] do Godard, havia um grupo de jovens que corriam pelo Museu do Louvre até tentarem obter um record. OVictoria and Albert Museum tem os cartões para as tapeçarias do Rafael, as mais conhecidas. Estão lá, numa sala enorme, à vista de toda a gente. De onde eu morava, havia uma porta por onde podia entrar, em Brompton Road, e podia sair por outra porta em Exhibition Road. O museu era gratuito, eu podia atravessá-lo e ia em diagonal pela sala dos cartões do Rafael.

Sem olhar?

Sem olhar. Admitamos que eu podia fazer um trajeto mais direto entre a entrada e a saída, e desviava-me um bocadinho para atravessar a sala em diagonal.

Mas sem dar confiança?

Exatamente. O prazer que eu tinha em fazer aquilo como se nada fosse, como se já soubesse aquilo de cor e salteado e tivesse alguma razão para desprezar aquilo, para achar que não era preciso...

Isso depois passou-lhe?

Passou-me muito depressa e foi a minha ocupação principal enquanto estive em Londres. A partir de três quartas partes do primeiro ano, passei a trabalhar também em casa, porque arranjei uma fórmula que fisicamente mo permitia - trabalhar sobre papel em dimensões relativamente pequenas. Trabalhava à noite em casa, não dormia muito e, nos fins-de-semana e em dois dias de aulas, tirava a tarde para ir para a National Gallery, para descobrir os museus pequeninos, o Courtauld Institute, por exemplo, a não sei quantas Collection, e sobretudo as exposições temporárias.

De arte contemporânea?

Algumas eram, outras não. Vi coisas impossíveis de ver ou imaginar em Portugal. Suponho que fui a todas as maiores e a todas as de segunda que houve em Londres, nos anos em que lá estive. É evidente que isso é parte integrante e principal da minha formação. Devo dizer que algumas exposições de arte contemporânea que vi mais interessantes eram na própria galeria do meu colégio, que tinha uma diretora muito à la page, a Roselee Goldberg. Eu já tinha visto catálogos, mas ver exposições mesmo do Giulio Paolini ou de outros artistas do que se chamava na época arte povera, foi no próprio colégio, uma exposição que era aberta ao público mas cujo público principal eram os estudantes.

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