Como J.K. Rowling ultrapassou o fracasso com a imaginação

Uma Vida Muito Boa chega hoje às livrarias. Não é um romance, antes a história sobre uma parte muito problemática da sua vida
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Os fãs de J.K. Rowling costumam esquadrinhar todos os seus livros para encontrarem pormenores autobiográficos. Desta vez, não necessitam de ser detetives perspicazes pois o seu novo trabalho é totalmente autobiográfico. Chama-se Uma Vida Muito Boa e tem como subtítulo Os benefícios do fracasso e a importância da imaginação, e chega hoje às livrarias.

O mais interessante deste volume com 70 páginas é que não sendo uma história como as que costuma contar, J.K. Rowling aproveita ter sido convidada para fazer o discurso de abertura de uma cerimónia de formatura da Universidade de Harvard para contar a história da sua vida, sem se cingir ao sucesso de Harry Potter que lhe mudou a vida, mas para alertar os recém-formados para as dificuldades que os espera no mercado de trabalho.

Esta palestra já aconteceu há nove anos mas só este ano é que, em Portugal, é passada a livro e a razão de o ter sido não é só para completar a biografia da escritora com novas informações, antes para angariar fundos para a organização que criou, a Lumos, que pretende diminuir o gigantesco número de oito milhões de crianças institucionalizadas em todo o mundo.

O que é mais interessante no início deste discurso é o modo como J.K. Rowling adverte os alunos que terminaram os seus cursos. Sem quaisquer rodeios diz-lhes que eles fazem parte de uma elite norte-americana e que por essa mesma razão nunca terão tido problemas financeiros na vida nem dificuldades em chegar até ao momento em que estão a ser diplomados. É de uma frontalidade impressionante, o que só por si já faz valer a pena ler este Uma Vida Muito Boa.

E para que os jovens universitários não achem que estão perante as desgraças literárias de Harry Potter, J.K. Rowling expõe como raramente o fez em público uma parte da sua vida, a mais dolorosa (ler pré-publicação).

Não deixa de ser também um discurso divertido pois começa logo por recordar uma história antiga, a da sua própria formatura, revelando que não se lembra de nada do que a a filósofa britânica Mary Warnock disse na sua palestra. Para evitar que o mesmo se repita com estes jovens de Harvard, J.K. Rowling avisa que tentou encontrar algo diferente e um pouco mais duradouro para a sua própria palestra.

É claro que não deixa de introduzir no discurso um ou outro pormenor da saga Harry Potter, que fará com que a sua presença ali fique mais facilmente na memória dos jovens, dizendo por isso que se sente nesta cerimónia como se estivesse a participar na maior reunião dos Gryffindor à escala mundial.

Não é por acaso que a escritora insiste no início do discurso na preocupação que teve para que as suas palavras não ficassem esquecidas como lhe acontecera a si, é que se forem lembradas os jovens podem evitar os problemas porque ela passou com mais facilidade: Tenho-me interrogado sobre o que eu gostaria de ter sabido na cerimónia da minha formatura, em vez de as ter aprendido por si ao longo dos anos que passaram desde essa cerimónia. Diga-se que quando este volume foi publicado em língua inglesa, foi unânime a opinião de que era um ótimo manual de sobrevivência para quem deseja seguir a profissão dos seus sonhos e não aquela que os pais mais desejam para os filhos.

J.K. Rowling não deixa de utilizar alguns truques literários nesta edição muito bem paginada e ilustrada, como é o caso de usar chavetas para fazer afirmações como se as estivesse a cochichar pessoalmente ao ouvido de cada leitor. Como se verifica quando assume que não se pode culpabilizar os pais eternamente e que a partir de um certo momento da vida cada um é responsável por ela.

Talvez o tema mais importante deste volume seja o exemplo da própria escritora ao explicar como lutou contra o fracasso. Considera que esta sensação terrível só pode ser conhecida por inteiro se for vivida e que isso lhe aconteceu sete anos depois da sua cerimónia de formatura, quando o seu casamento demasiado breve colapsou e se deparou com uma situação inesperada de sobrevivência muito complicada.

Entre as perguntas que J.K. Rowling deixa neste seu discurso aos universitários de Harvard está a de quantos de vós tocarão a vida de outras pessoas? Não será por acaso que quando se aproxima do fim da palestra faz esta afirmação: Não precisamos de magia para transformar o nosso mundo; nós temos o poder de que necessitamos dentro de nós: temos o poder de imaginar. Ou seja, para os leitores curiosos em pormenores autobiográficos, este é um dos melhores livros assinados por J.K. Rowling


Uma Vida Muito Boa

J.K Rowling

Editorial Presença

90 páginas

PVP: 9,99

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