Brasileiro Julián Fuks vence Prémio José Saramago

O Prémio José Saramago 2017, no valor pecuniário de 25 mil euros, distinguiu o romance "A Resistência", do autor brasileiro Julián Fuks, foi hoje anunciado na sede da Fundação José Saramago, em Lisboa.

A Resistência, de Fuks, publicado em 2015, recebeu no ano passado, no Brasil, o Prémio Jabuti para o Melhor Romance. O livro é narrado na primeira pessoa por um sujeito que conta a história dos seus pais, um casal de intelectuais argentinos, e do seu irmão mais velho, adotivo. A ação passa-se, portanto, na Argentina a partir de 1976, quando se deu o golpe de Estado que derrubou a Presidente María Estela Perón, e instaurou o poder ditatorial de uma junta militar, que governou o país até dezembro de 1983. A família acaba por se exilar no Brasil.

"Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado", anuncia, logo no início, o narrador deste romance. E facilmente percebemos que a ficção se inspira e se mistura com a biografia do autor. Julián Fuks, filho de pais argentinos, nasceu em São Paulo, no Brasil, em 1981.

Julián fuks encontra-se em Portugal onde vai participar no festival literário Folio: este sábado, às 16.00, irá conversar com a escritora Ana Margarida de Carvalho numa mesa moderada por Ana Sousa Dias. Antes disso, na sexta-feira, o vencedor do Prémio José Saramago estará numa conversa com José Mário Silva esta sexta-feira, às 17.30 na Livraria Adega, em Óbidos.

"O livro de Julián Fuks é uma história com várias histórias dentro e o ato de narrar desvela o nó das convergências que só se percebe pelo alinhamento da palavra em torno do que diz e do que esconde esse pacto da memória que toda a família transporta e passa de geração em geração", escreve Ana Paula Tavares, membro do júri do Prémio José Saramago na sua deliberação.

Outro elemento do júri, António Mega Ferreira, justifica a escolha: "Há tantas coisas neste curto romance, tantas e tão desafiantes, que, às vezes, parece que a narrativa vai implodir. Mas não: com mestria literária notável, o autor suspende os momentos suscetíveis de desencadear as catástrofes à beira de qualquer desenlace, porque o romance não deve ser mais cruel do que a vida". E conclui: "A Resistência é uma peça de câmara, íntima e subtil. É também uma demonstração magistral de como a língua literária portuguesa, aqui no seu modo brasileiro, se adapta bem aos tons sépia de um monólogo despojado, mas impiedoso, recitado sotto voce."

O autor publicou o primeiro livro, Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu, em 2004, tendo ganhado o Prémio Nascente da Universidade de São Paulo. Em 2007 e 2012 foi finalista do Prémio Jabuti, com os livros Histórias de Literatura e Cegueira, respetivamente. O autor foi também finalista do Prémio Portugal Telecom, atual Oceanos, e do Prémio São Paulo de Literatura, com Procura do romance. A revista Granta apontou-o como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros.

A Resistência é o seu quarto romance, com o qual recebeu o Prémio Jabuti Melhor Romance, se classificou entre os finalistas do Prémio Oceanos, no ano passado, e pelo qual recebeu a Menção Honrosa no Prémio Rio de Literatura.

O júri da edição deste ano do Prémio José Saramago foi constituído pela poetisa angolana Ana Paula Tavares, pela professora de Estudos Portugueses da Universidade Nova de Lisboa Paula Cristina Costa, pelo escritor português António Mega Ferreira, pela investigadora Nazaré Gomes dos Santos, da Universidade Autónoma de Lisboa, além de Manuel Frias Martins, crítico literário e ensaísta, doutorado em Teoria da Literatura e vice-presidente da Associação Portuguesa dos Críticos Literários, de Pilar del Rio, presidente da Fundação José Saramago, e da escritora Nelida Piñon.

O Prémio José Saramago foi instituído pela Fundação Círculo de Leitores, em 1999, com o objetivo de distinguir jovens escritores de língua portuguesa, cuja idade não ultrapasse os 35 anos, quando da publicação da obra. O Prémio Saramago é bienal, e distinguiu nas edições anteriores os escritores Paulo José Miranda, José Luís Peixoto, Adriana Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, João Tordo, Andréa del Fuego, Ondjaki e Bruno Vieira Amaral.

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