Bordalo II abre-nos a porta do seu mundo e do seu ateliê

Attero mostra o autor de animais gigantes feitos de lixo como nunca o vimos em Portugal: fora das ruas num mundo só dele

Diz-se de Artur Bordalo o que se diz de muita gente: a sua reputação antecede-o, persegue-o. Mas no caso do artista essa reputação é construída a partir de animais gigantes feitos de lixo que tem espalhado por ruas do mundo inteiro, e que parecem a muitos dos que por eles passam ter como autor um desconhecido. Attero, a exposição que inaugura amanhã no número 49 da rua de Xabregas, em Lisboa, é um mergulho nesse mundo autoral povoado por um número cada vez maior de animais e uma força também ela crescente na mensagem que quem os cria quer passar. A de que estamos a destruir a natureza com aquilo que Artur usa como matéria-prima para o dizer: o lixo. De plásticos vários a bonecos, botas, eletrodomésticos, contentores, ou calçado. Até hoje, o artista terá já usado cerca de 28 toneladas de desperdícios, que tratou de espalhar em obras distribuídas por 19 países.

O armazém que se encontra ao chegar ao número 49 da rua foi, durante dois anos, o local de trabalho de Bordalo II, neto do também pintor Artur Bordalo. Quando o visitámos em fevereiro, o espaço estava repleto da referida matéria-prima do artista e dos instrumentos que este usa para a modificar: berbequins, serras circulares, latas de tinta. Agora, desse armazém, que Bordalo deixará depois da mostra, fez-se uma enorme galeria, onde o branco em que são expostas algumas obras contrasta com a cor do betão, do tijolo, ou do estuque. Bordalo II chama-lhe uma espécie de passe-partout naquele espaço que "parece que é cá fora. Todo aquele ambiente devoluto, aquelas paredes muito erodidas, aquele ar abandonado, dá-nos a entender que entrámos numa ruela e que estamos no espaço público."

Somos recebidos por um enorme chimpanzé que logo denuncia o seu autor. Lá dentro, atravessamos o tempo e a obra de Bordalo II. Desde as pequenas figuras da série World Gone Crazy, ao passado recente: os Half Half, animais que em parte são como aqueles que conhecemos da mão de Bordalo, pintados, e numa outra parte (simétrica) apenas compostos por plástico colorido, sem nada a mascará-lo. "Nos Half Half ele mostra-nos a rudez e a crueza do que é o resíduo que está ali por baixo", explica a curadora da mostra, Lara Seixo Rodrigues. Depois surgem os Plastic Animals, todos eles em plástico.

É quase impossível não nos determos perante aquele que é o primeiro Big Trash Animal de Artur Bordalo sem ser pintado: o rinoceronte. Nada está mascarado, nele cada pedaço de plástico serve exatamente ao pedaço de animal que representa. "Ele sabe perfeitamente de que é que precisa para fazer cada olho, cada orelha, cada elemento. Acho que o talento dele é mesmo esse." Lara conta que uma das coisas que sempre achou mais importante ao trabalhar com Artur é a "lista de material" que ele pede. "Um escorrega de plástico, não sei quantos pneus, não sei quantos contentores para as patas..."

Até 26 de novembro, há uma programação paralela que inclui visitas guiadas, tertúlias sobre questões ambientais, ou workshops com crianças (inscrições abertas para dia 25).

Attero, nome da exposição, significa, em latim, algo como eu desperdiço, gasto, esfrego, ou enfraqueço. Tudo acaba com uma secção chamada Aterro, onde o rosto humano aparece na parede também ele um Half Half: uma metade feita de plantas, a outra um esqueleto feito de plástico colorido. Cá em baixo, numa dicotomia que nos interpela, de um lado há plantas vivas, acabadas de regar, do outro uma espécie de charco com lixo à volta um carro velho lá dentro com um Ronald McDonald muito feliz (como é seu apanágio).

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