Bonga. Saudades dos velhos, dos sabores e do cheiro a mato

Entrevista ao cantor angolano Bonga, ou ao campeão de atletismo Barceló de Carvalho.

A conversa começa com um 2 em 1. Bonga está acompanhado por António Fonseca e Costa que foi treinador de Barceló de Carvalho, campeão indiscutível dos 400 metros em Portugal nos anos 1960/70. Ambos nascidos em Angola, a conversa é feita de picardias e subentendidos, histórias de um longo passado em comum. Bonga/Barceló sempre exuberante e de gargalhada bem sonora, António, irmão do cineasta que morreu há um ano, mais contido mas não menos mordaz. Falam divertidos e saudosos dos anos do atletismo do Benfica, recordam gente por meias palavras. Mas a entrevista é para falar do novo álbum.

Em Sodade meu bem sodade, o Bonga, que é angolano, transformou uma canção brasileira num fado. Como foi possível?

Ouvi muito esta música na voz da minha mãe. Enquanto lavava a roupa, engomava, fazia a lida da casa, estava sempre a cantar "saudade meu bem saudade, saudade do meu amor...". Há muitas músicas brasileiras dos anos 50 e 60 que me marcaram e esta é uma delas. Resolvi pôr no disco. Os brasileiros já cantaram tanta coisa minha, agora vou eu cantar uma deles. Pus uma guitarra portuguesa para ver o que dava, porque tinha trabalhado meses antes com a Ana Moura e tinha corrido bem. Gravámos com guitarra portuguesa, o violão no baixo, todo o condimento, e com a mestria do Ciro, um ótimo músico que me acompanha. Não era para vir no disco mas quando ouvi decidi que ficava. E ficou maravilhoso. Um casamento tremendo, os três países.

Também tem Cabo Verde com o Odji Maguado do B.Leza.

É a minha vivência com Cabo Verde e começou em Angola. Falo crioulo, escrevo crioulo de Cabo Verde, tenho grandes amigos de lá. Os meus primeiros discos foram feitos na Holanda, no Morabeza Records do Djunga d"Biluca, patrono dos cabo-verdianos no exterior. A Sôdade, que me deu tanta saudade dos meus recantos específicos, está sempre à tona. Quando temos uma tocatina em casa, Cabo Verde está ali.

Mas de facto é angolano?

Angolano de gema não vou trair Angola nunca, tenho Angola na minha muxima [coração). Nasci no Kipiri, que é na zona do Bengo, no Caxito, 60 quilómetros a norte, e depois fui para viver para Luanda.

Do que se lembra desse tempo?

Dos velhotes, uma força tremenda. Eles educavam-nos, davam-nos o exemplo, levavam-nos para todo o lado e eram responsáveis. Até hoje eu tenho o cheiro do mato comigo. E guardo também os comeres verdadeiros. Aprendi a cozinhar com a minha avó, faço-os em minha casa.

Que comeres são esses?

Há quem pense que Angola é só muamba, mas há muito mais: os kizakas, as folhas, o kipiko, a canjica, o feijão de óleo de palma, o mufete. E a caldeirada de cabrito. Picante não pode faltar. Gengibre e cola, a kissangua, as bebidas que temos lá.

Como consegue os ingredientes?

Há coisas que não encontro. E há tendência a esquecer, os jovens querem bife com batata frita, o hamburger e a coca-cola. Os chefes não se preocupam com a identidade.

E de que mais tem saudades?

Da vivência. Gostaria de escrever sobre essa forma de estar na vida, com o ritmo sempre presente. O africano não precisava da ideologia importada, nem das psicologias dos outros, tinha a sua filosofia. Isso faltou neste tempo da independência. Fazem falta pessoas motivadas com dom de palavra, e com espaço na família. Já não existe esse espaço.

A família era o núcleo?

Nós chegávamos a ser filhos dos vizinhos também e isso não é pejorativo. A mãe mandava no nosso amigo e quando estávamos na casa do amigo acontecia o mesmo. A mamã estava a amamentar a sua criança, ouvia outra criança a chorar noutra casa, saía e ia amamentar o filho da outra. Na Europa isso era impossível. Com essa forretice que existe aqui? Foi a primeira coisa que encontrei em Portugal. É um exemplo do que trago de um outro tempo. Quando faço uma comida tenho de chamar amigos. Vêm saborear comigo, na galhofada, a gente vive e revive o antigamente.

Costuma ir a Angola?

Vou quando convém lá ir. Não me aconselho a mim próprio a lá ir, por causa das engrenagens várias que existem. Vêm aí as eleições, tem havido recuperações táticas, até aos artistas considerados do clã ou do regime.

Em Portugal cruzou-se com Rui Mingas, ambos eram do atletismo e da música. Mantêm ligação?

Em Portugal tínhamos uma grande ligação, cantámos juntos e cantamos temas um do outro. Ele, o Reis Pires e o Cumura Imboá já estavam em Portugal, bem como os jogadores de futebol como o Nando Vieira Dias, que ganhavam mais e pagavam as farras. Meteram-se os partidos políticos no meio e estragaram tudo. A nossa família degenerou e até com histórias complicadas de suportar. Já não sou amigo dele e nem volto a ser. Virou embaixador, ficou ligado à clique. Nunca serei capaz de comportar-me de uma certa maneira derivando do partido.

É isso que acha que acontece em Angola?

O povo tem uma vida ilusória, não tem uma participação ativa na economia do país e fica como verbo de encher. Está resignado, diz " é o azar que a gente tem". Não reivindica. O "tá-se bem" do angolano é uma chatice, nunca o entendi. O angolano não comeu o dia todo mas diz que está mais ou menos. Não fala que tem fome. Faz falta frontalidade.

Veio para Portugal por causa do atletismo?

Vim como os outros, havia a colonização, tinham a faca e o queijo na mão. Fui pescado para o Benfica e para a seleção nacional.

Ainda é do Benfica?

Estive seis anos seguidos no Benfica e vivi com aquela família do atletismo, dos desportos amadores. A gente telefonava-se todos os dias, o campeonato era uma farra. Inclusive com os lagartos havia convivência, eles acabavam os treinos e passavam pela Churrasqueira do Campo Grande para confraternizarmos. Ainda sinto falta disso.

Foi para a Holanda porque soube que a Pide andava atrás de si?

Os outros tinham sido engaiolados e quem trouxe o recado para mim foi o André Mingas, irmão do Rui. Nessa altura estava no Restelo, o Rui estava a treinar lá e nós fomos todos com ele.

Era já conhecido como músico?

Era percussionista, tocava nos discos e nos concertos do Rui Mingas, do Duo Ouro Negro. Havia também o Vum Vum, o Eleutério Sanches, a Lilly Tchiumba.

No aeroporto de Lisboa, em plena guerra colonial, deixaram-no sair?

Eu disse que ia comprar discos, vou ali e já volto, e não estranharam.

Da Holanda foi para Paris?

Andei pela Alemanha, Bélgica, Holanda. Não podia estar num sítio só, não havia Comunidade Europeia. Tinha o passaporte de um negro, era difícil atravessar determinadas fronteiras.

Como ganhava a vida?

Como os outros imigrantes: lavava pratos, tomava conta do que fosse preciso. O disco [Angola 72] teve um impacto tão grande que depois a França me recebeu de braços abertos. As salas começaram a encher, fui fazendo espectáculos de grande envergadura e nunca mais parei. E continuo a ser solicitado.

Continua a gostar de cantar?

Quando estou em casa estou sempre a cantar, gosto, é a minha têmpera, faz parte de mim.

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