Bem vindos a bordo. Livros que levam os miúdos em viagem

Partimos à descoberta do "Atlas das Viagens e dos Exploradores", de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho para jovens leitores.

O frade Giovanni da Pian del Carpini já tinha 60 anos quando o Papa Inocêncio IV o encarregou de fazer uma grande viagem para se reunir com o chefe supremo dos mongóis e recolher informações sobre os seus costumes e as táticas militares. Saiu de Lyon, em França, no domingo de Páscoa de 1245. Após 106 dias e quase cinco mil quilómetros, chegou a Qaraqorum. Permaneceu na região durante alguns meses e aprendeu muitas coisas sobre os mongóis, a maneira como viviam e as suas crenças. "Comem tudo o que é comestível. Até os vimos a comer insetos", escreveu ele nos seus cadernos. O regresso foi duro pois a Ásia central estava coberta de neve. Quando chegou a Kiev, em junho de 1247, a surpresa foi grande: todos o julgavam mortos

Já conheciam esta história do "frade espião"? Provavelmente não. E esse foi um dos motivos que levaram Isabel Minhós Martins e o ilustrador Bernardo Carvalho a escolhê-lo para o seu Atlas das Viagens e dos Exploradores - As viagens de monges, naturalistas e outros viajantes de todos os tempos e lugares.

Nos dias que correm, em que todos os locais do mundo estão à distância de um click no Google Maps, os autores recuperam a velha ideia do atlas. "Eu e o Bernardo gostamos muito de mapas e acho que tudo começou por aí, por querermos fazer um livro com mapas", explica Isabel Minhós Martins. Neste caso, trata-se de um atlas com as viagens de exploradores de outros tempos, para mostrar aos jovens como era vida antes de termos GPS.

"O que pode levar alguém a fazer-se à estrada quando a estrada ainda não existe?"Logo no início, Isabel Minhós Martins faz-nos um desafio: imaginar como seria viver num mundo sem mapas. Sem sabermos exatamente qual é o nosso lugar, onde estão os outros e quanto tempo demoramos para os alcançar. Até que alguém decidiu ir ver o que havia no mundo.

Falemos, então, de alguns desses corajosos viajantes. Não têm que ser os mais conhecidos nem os que fizeram as viagens mais importantes. Por exemplo, todos conhecem Marco Polo mas poucos sabem que antes dele, o pai e o tio também viajaram pelo Oriente. Para "este barco", os autores convidam os viajantes que mostraram "maior respeito pelas pessoas, pelas culturas e pela natureza que encontravam". "Claro que os tempos eram outros", avisa Isabel. Conceitos como os direitos humanos e a biodiversidade são muitos recentes. Mas procurou-se aqueles viajantes "menos bélicos, menos ligados ao colonialismo. Mas sem adocicar a história."

Ficamos a conhecer, por exemplo, duas das poucas mulheres exploradoras: a francesa Jeanne Baret (século XVIII), a primeira a dar a volta ao mundo e Mary Henrietta Kinsgley (séc. XIX), "uma aventureira destemida na África Oriental". Entre Pytheas (séc. IVa.C.) que viajou da França até às ilhas britânicas, e a viagem a bordo do Beagle de Charles Darwin (séc.XIVX), ficaremos a saber um pouco mais sobre outros viajantes, incluindo o português Bartolomeu Dias, que passou o Cabo da Boa Esperança. "Gostava que depois de lerem este livro quisessem saber mais sobre os exploradores", diz a autora. "Quando comecei a pesquisar não conhecia muitas das histórias e são incríveis. Isto é só um aperitivo."

Outras viagens

Aproveitemos o sol e os dias compridos. Há mais livros que nos incentivam a levar os mais pequenos em viagem. A Orquestra, de Chloé Perarnau, é um livro que é também um jogo. Conta-nos a história dos músicos de uma orquestra que vão de férias, cada um para um sítio diferente do mundo. O maestro vai recebendo os seus postais. Aos leitores, resta-lhes encontrá-los no meio da multidão - numa festa de carnaval na Rússia, num mercado em Instambul, nas ruas do Rio de Janeiro.

No seu álbum de estreia, Horizonte, editado pela Orfeu Negro, a escritora e ilustradora Carolina Celas põe-nos a olhar à nossa volta. Para o perto e para o longe. Para o infinito e para dentro de nós. Mesmo que o horizonte esteja nublado, como acontece em A Nuvem, o livro de Rita Canas Mendes (texto) e João Fazenda (ilustração), publicado pela Pato Lógico, que nos põe a pensar nesta coisa simples: as nuvens não mudam a realidade, apenas podem a tornam temporariamente menos clara.

E António Jorge Gonçalves acabou de lançar também na Pato Lógico mais um livro para crianças: Estás tão crescida é a história de uma menina que aprende a aceitar-se como é, independentemente do que os outros querem que seja.

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