Iludir as pessoas e explicar-lhes como podem ser iludidas

Aos 23 anos, sagrou-se campeão do mundo de magia com cartas. Nascido no Porto há 33 anos, Helder Guimarães vive em Los Angeles e está em Portugal para estrear Retrato Clandestino

Tenho dois impulsos quando vejo uma atuação de magia. Por um lado, gostava de perceber, por outro não quero. Entende isso?

Consigo pôr-me no seu papel.

Eu quero perceber como se faz mas não quero destruir a ilusão. Mas para si a questão foi sempre descobrir como se faz?

Gostaria muito de não saber o que sei, e de conseguir viver a ilusão de uma forma pura. Como as coisas estão sempre a evoluir, há momentos em que sinto isso, e se nos últimos cinco anos me aconteceu uma vez foi muito. Mas adoro quando acontece. Quando passamos para o outro lado, perde-se parte do encanto, não há o "fator uau!" mas existe uma apreciação da componente técnica e das decisões tomadas para que uma ilusão seja efetuada com mestria. É uma outra beleza. Quando um pianista vê outro pianista a tocar, não vê o mesmo que eu, porque o que eu sei de música é básico. Ele está a ver as decisões que o outro está a tomar. Num número de magia de três minutos feitos por uma pessoa brilhante, há 200 ou 300 decisões a ser tomadas. E apreciar isso é fantástico.

A perceção da beleza é outra?

É diferente. O problema é que as pessoas não têm cultura de ver espetáculos de magia. Se viram muito cinema, a forma como avaliam um novo filme tem a ver com os que viram antes. Para quem vê magia com regularidade, esse "fator uau!" continua lá mas aprecia-se uma outra componente. Eu gosto de que os meus números tenham uma mensagem, uma história por detrás. Mas o "fator uau!" tem que estar lá, se não perde-se o encanto.

Vai fazer em Lisboa, Porto, e depois em Coimbra e Braga, o Retrato Clandestino. O que vamos ver?

O Retrato Clandestino foi criado ao longo dos anos. Vai ser estreado mas é uma compilação de histórias reais que aconteceram comigo. Parte do meu trabalho é emprestar o conhecimento que tenho como mágico a outras áreas.

Como consultor?

Sou consultor de diferentes coisas. Este espetáculo é uma coletânea de histórias que se passaram comigo quando servi de consultor em projetos muito variados. Há uma narrativa principal da qual saltam pequenas histórias e depois há vários níveis de entendimento. Por exemplo, coloco a questão da ética, porque algumas coisas que sei aprendi-as de pessoas que fazem batotice à mesa, realmente, e também já fiz consultadoria para casinos.

Consultadoria para a segurança de casinos?

O sistema de segurança de casinos é montado de forma a que certas coisas não possam acontecer internamente. Como eu sei o que é possível ser feito, posso aconselhar um casino. Há esse lado ético que é engraçado, porque é preciso andar de bem com o diabo e com... Há outro tema que para mim é muito importante no mundo em que vivemos: a segurança e a forma como as pessoas podem ser iludidas facilmente. Depois dos últimos acontecimentos, torna-se ainda mais relevante. O espetáculo tem essa componente didática: ao mesmo tempo que estou a iludir as pessoas também estou a explicar como estão a ser iludidas ou como podem sê-lo. Explico como funcionamos como seres humanos, como funciona o nosso cérebro. Quem fizer uma leitura mais profunda terá material de sobra para chegar a casa e refletir até sobre coisas que fazemos no dia-a-dia sem pensar muito. Mas o espetáculo tem também um lado de puro entretenimento, quero que as pessoas se riam, se divirtam.

É campeão mundial de magia com cartas. As cartas não são o seu único trabalho?

São grande parte do trabalho, e a partir daí o resto acaba por surgir.

E porquê, tem alguma explicação?

As cartas têm um potencial muito engraçado. Há objetos que ao longo dos tempos foram mudando, mas a certa altura parece que a evolução terminou. Por exemplo: um lápis é um lápis, chegou a uma coisa tão simples que agora é simplesmente replicado. Está na perfeição, num balanço entre o que é necessário e o que é estético, e funciona. O baralho de cartas teve bastantes variantes. No início havia menos cartas, os baralhos tinham apenas 37, depois não havia cartas de figura, depois começaram os oito, nove e dez que também não havia. Mas hoje um baralho de cartas é o que é, já não vai mudar. Há uma simbologia à volta deste objeto, muito relacionada com o tempo.

O tempo?

Um baralho tem duas cores: o negro significa noite e o vermelho significa dia. Tem quatro naipes que são as estações do ano. Cada naipe tem 13 cartas, os 13 ciclos lunares. Cada baralho tem 12 cartas de figura - os 12 meses do ano. Tem 52 cartas - as 52 semanas do ano. Se somarmos os valores de todas as cartas o baralho dá 364. Isto não é casual, foi feito intencionalmente. Quando as pessoas olham para um baralho de cartas, pensam em jogo, ou em prever o futuro. Há histórias de prisioneiros que comunicavam secretamente com as famílias através de baralhos de cartas, guardavam mensagens - as cartas eram bem mais grossas do que hoje - dentro das cartas. Existem mapas de fuga de prisões feitos em cartas de jogar, escondidos no meio do papel da carta.

E há sempre novos truques, não é sempre a mesma história?

Por muito que queira dominar ao máximo o baralho de cartas, há sempre algo mais, há sempre uma evolução a esse nível. É um trabalho que eu tenho para a vida e que nunca vou terminar. É quase a cena do Ícaro que quer chegar perto do sol e quanto mais perto chega mais depressa cai. É um objeto que no mundo mágico tem uma infinidade de possibilidades e de simbolismos. E é prático.

Porque é fácil de transportar?

E em qualquer lado se arranja. Já me aconteceu nas minhas viagens perder a mala, por exemplo, e basta-me arranjar um baralho de cartas no sítio onde estou e posso fazer um espetáculo.

Usa um baralho de cartas normal?

Sim, claro.

Posso comprar um baralho de cartas e é uma questão de treinar?

É prática pura e simples.

E é portátil, não é uma caixa para serrar ao meio uma mulher.

Esse tipo de magia é, não digo datada, mas tem menos impacto mágico exatamente porque as pessoas associam o momento da ilusão ao objeto. É o objeto que cria a ilusão. Com as cartas, o objeto está lá mas é aquilo que eu posso fazer com ele que cria a ilusão. Sou completamente parcial neste assunto. Acho que existe um diálogo artístico muito mais honesto com o público quando a magia é feita não pelo objeto mas pelo performer. É como a diferença entre fazer playback ou cantar ao vivo.

Vi que o interessam temas como o engano psicológico, as ilusões de ótica e a manipulação de perceções. Como estudou isso?

Hoje há muita informação na internet. É preciso saber encontrá-la, saber onde está a boa informação, no meio há muita mentira, muito exagero, muito bullsheet. E há especialistas nessas áreas que fui conhecendo nas viagens e nos cursos, com os quais aprendi e mantive algum contacto, porque algumas coisas que lhes interessam também vivem no meu campo de conhecimento. É uma troca de conhecimento por conhecimento. Há um lado que é puramente estudo. Depois há a implementação. No meu dia-a-dia eu olho para a realidade a pensar nestas coisas. O que para muitas pessoas é assustador - perguntam-me como consigo viver a tentar perceber sempre onde há uma ilusão, um engano. Calma: nem tanto ao mar nem tanto à terra. Eu também consigo abstrair-me em muitas situações.

Por exemplo?

Até na forma como as pessoas lidam umas com as outras há uma estratégia que é puramente intuitiva, mas pode ser desconstruída racionalmente. Muitas vezes estive quase como observador externo em conversas entre duas pessoas e percebi mais do que uma delas estava a perceber. Isto tem a ver com conhecimento que se adquire e pratica. E depois é testar estas coisas, sobretudo ilusões de ótica. O que faço é criar uma situação no quotidiano, quase um laboratório, normalmente com amigos, familiares, pessoas próximas, para ver se funciona ou não, para depois poder extrapolar a partir daí.

Nasceu no Porto e viveu aí até aos 27 anos.

Sim, fui para os Estados Unidos em 2011, 2012.

Até lá estudou o quê?

Muito orgulhosamente, entrei na Faculdade de Ciências, estudei engenharia de redes e sistemas informáticos durante um ano. Adoro computadores, continuo a ter amigos dessa época, mas não conseguia ver-me a fazer aquilo diariamente. Tinha vontade de estudar teatro, para aprender o lado performativo na magia. E então tive uma conversa séria com os meus pais.

O momento "temos de falar"?

Disse-lhes: vou conseguir tirar o curso, não é esse o problema, mas não sinto que aquilo seja a minha vida. Vão pagar-me um curso superior que eu no fim ponho na gaveta, e perdi quatro anos que podia investir noutra área que acho que me vai ajudar. O meu pai sempre soube que o meu objetivo era ser mágico e disse: "O teu plano B não é muito seguro. Se não conseguires ser mágico, ser ator não é mais seguro." Um pai preocupa-se com o filho, é normal. Fizemos um acordo: quando eu terminasse o curso de teatro tinha um ano para me tornar independente. Se não conseguisse retomava a engenharia e iria trabalhar ao mesmo tempo.

E conseguiu?

Entrei na ESMAE [Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo, Porto] . Não acredito em destino, acho que fazemos o nosso próprio destino, mas há coisas que parecem feitas de propósito. Quando tive oportunidade de concorrer no campeonato do mundo, em 2006, estava no último ano do curso. Ganhei o prémio e tudo foi perfeito, comecei a ter convites e rapidamente me tornei independente.

A engenharia não tinha hipótese na sua vida?

Não. O acordo com os meus pais foi esse, eles aceitaram. A minha mãe disse-me sempre para seguir o meu coração. Não tenho dúvidas de que o meu pai hoje se orgulha muito mais de mim do que se eu tivesse sido engenheiro. Eles são os dois muito felizes com o que fiz da minha vida. Sabiam que Portugal não é o país mais recetivo a este tipo de atividade e para uma pessoa ter uma carreira internacional é preciso estar a um certo nível. Eu olhava à minha volta e não via ninguém a esse nível.

Daí ter ido para os Estados Unidos?

Percebi que havia muita coisa que eu nunca conseguiria fazer estando em Portugal, grande parte da minha atividade era lá fora. Morava em Portugal e viajava constantemente. Dei por mim a passar num ano sete ou oito meses fora de Portugal e vinha cá fazer malas. O ponto de viragem foi um dia em que estava no meio de uma viagem no aeroporto de Frankfurt, e recebi um convite da Google para fazer uma palestra sobre ilusão em S. Francisco. Primeiro pensei - isto é gozo, só pode ser. E não era. Mas não pude aceitar por uma questão de vistos. Pensei: quantas coisas destas estou a perder por não viver lá? Acabou por ser uma decisão fácil porque tinha amigos lá que me diziam para ir.

Amigos da área da magia?

Também mas não só. Pessoas que conheci nas viagens. Uma vez estive num colóquio na Dinamarca pessoas e fiz amizade com pessoas de outros países. Algumas não são da magia, são da psicologia.

Estudou psicologia?

Estudei no sentido em que li muito. Se calhar sei mais do que muitos psicólogos sobre comunicação e influência, mas não sei nada sobre patologias.

Foi difícil conquistar o seu lugar em Los Angeles?

É outro dos tais momentos que parecem predestinados, porque foi demasiado fácil, devia ter sido um bocadinho mais difícil. Estava naquela "vou não vou", e a minha namorada, que é portuguesa, estava sem trabalho e disse - "Por que não? Vamos. O que é que pode acontecer? Voltarmos e fica tudo igual." Fui para lá para começar a tratar do visto e da parte burocrática. Por erro, a agência que me estava a tratar do visto decidiu acelerar o processo sem eu saber, é um processo que normalmente demora seis a oito meses, e aconteceu num mês.

Não foi um truque seu?

Não, foi a agência que pediu por erro um visto express. Cheguei no dia 30 de dezembro de 2011. A 4 ou 5 de janeiro um amigo que fazia assessoria no The Tonight Show [NBC] soube que havia uma oportunidade de pôr outra pessoa no mesmo projeto e, por causa das minhas valências, escolheu-me. Uma semana depois, fiz um espetáculo no The Magic Castle [clube privado de mágicos, em Hollywood] para substituir alguém que cancelou. O Neil Patrick Harris [o ator que faz de Barney Stinson em Foi Assim que Aconteceu] viu esse espetáculo e adorou. Convidou o diretor artístico de um teatro em Los Angeles para ir ver e ele também gostou. Em setembro ou outubro desse ano eu estava a estrear-me numa das salas mais prestigiadas de LA, esgotada, dirigido pelo Neil Patrick Harris. Foi muito fácil.

Mas havia muito trabalho por trás, quando lá chegou mereceu esse lugar.

É complicado falar em causa própria. Acho que se não acontecesse na altura iria acontecer noutra, é uma questão de uma pessoa estar lá para as oportunidades. Por causa do erro do visto express, não tive de esperar um ano ou dois.

A sorte existe?

Podemos considerar que sim. Mas se dois anos depois eu tivesse tido uma oportunidade semelhante não consideraria sorte, era uma questão de trabalho. Obviamente que há sorte, timings que são até assustadoras.

Tem uma empresa, a Ruse Subterfuge. O que faz?

É a empresa de consultadoria. As pessoas conhecem-me em diferentes áreas e normalmente sou recomendado por alguém que já trabalhou comigo. Criei essa empresa meio ano depois de estar nos EUA porque depois do The Tonight Show comecei a ter outros convites e as coisas evoluíram para outros campos.

A frase que tem no site é "encontrar soluções elegantes para problemas aparentemente impossíveis". A solução elegante é diferente da solução pura?

Há muitas formas de fazer uma mesa mas nem todas são boas, nem todas estão corretas. Uso a palavra elegante porque é a que transmite o que sinto, sobretudo na minha área, porque o que eu faço não é uma coisa física. No fim do ano passado, fiz consultadoria para um filme que vai estrear no próximo ano e vai ser um blockbuster.

Qual é o filme?

Ainda não posso dizer. Havia uma cena que podia ser feita com efeitos especiais. Mas isso para mim e para eles não era uma solução, eles queriam mesmo fazer com artefactos, coisas mecânicas. Contrataram-me para fazer isso. E assessorei duas atrizes para conseguirem fazer um movimento mais relacionado com técnicas de jogo e batotice do que magia. Foi uma espécie de coaching.

Tudo se baseia numa capacidade de mãos?

Há um lado técnico de habilidade manual. A palavra prestidigitação vem daí. Diria que 90 por cento do meu trabalho é prestidigitação. Mas gosto de combinar diferentes conhecimentos e diferentes áreas. E gosto muito de compreender como as pessoas pensam. Todos temos um padrão de pensamento. Como é possível manipular - não digo no sentido demoníaco da palavra - mas influenciar uma pessoa a tomar determinadas decisões? E há ainda o lado, ligeiramente diferente, da perceção: o que é que os outros estão a ver que eu estou a fazer, ou como é que eles estão a interpretar o que eu estou a fazer? É quase um lado semiótico desta questão toda. Eu combino estas três áreas, em diferentes quantidades e de diferentes maneiras, dependendo do que estou a fazer, para criar ilusões. E essas ilusões, se foram bem criadas, acabam por provocar no público aquilo que eu espero, que é a sensação de magia, a sensação de "o que nós vimos é impossível". Por vezes perguntam-me se prefiro ser chamado ilusionista ou mágico.

Aí está uma pergunta que eu tinha para fazer.

Tanto uma como a outra não me incomodam absolutamente. Ilusionista remete para a ilusão, que é aquilo que eu faço. Mágico remete para a sensação que quero provocar no público, porque quero que eles vejam magia. Tanto aprecio ao lado emoção que crio no público como mágico como a ilusão que é possível ou não ser criada e quão bem é possível ser criada.

Joga às cartas com os seus amigos?

Não vale a pena. Quando ganho, eles acham que faço batota, quando eu perco, acham que sou estúpido porque não fiz batota. Acabo por perder sempre.

Seria possível ganhar sempre?

Honestamente, depende de muitas coisas., Depende do jogo, do momento, da situação. É possível? É. Sempre? Não. No espetáculo falo disso, e até de como é possível hoje em casinos ainda haver coisas manipuladas. Para mim existe uma beleza na batota bem feita.

Que mais uma vez exige muita prática?

Como um jogador de futebol a dominar uma bola. Existe uma prática, um treino que permite dominar cada vez mais.

Todos os dias treina os seus números?

Todos os dias, várias horas.

O que se passa na sua zona de alcance percebo que é feito por si. Mas quando aparece uma carta no bolso de uma pessoa que está a vários metros, acho que prefiro não saber se são pessoas contratadas.

Não. Mas também há disso, infelizmente. O meu trabalho tem muitas semelhanças com a música. Um músico escolhe um instrumento e tenta explorá-lo ao máximo. É o que eu tento fazer com o baralho de cartas. Explorar todas as possibilidades tanto no campo da ilusão como no campo do jogo e da batotice à mesa.

O que é que lhe deu o prémio de campeão mundial aos 23 anos?

Foi uma atuação de dez minutos. No início há um baralho invisível, imaginário, que depois ganha corpo mas é todo branco, não tem faces nem dorsos. Depois é toda uma atuação a brincar com o facto de não se ver. A dada altura o baralho todo branco começa a ganhar vida. Por exemplo, uma pessoa pensou numa carta e quando eu a giro a carta é já não é branca, é a carta que a pessoa pensou. E depois há uma carta branca que a pessoa assinou e que achou que era um ás de espadas e de repente torna-se num ás de espadas com a assinatura da pessoa. É começar com nada e acabar com tudo, é toda uma mensagem.

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