Godard: um grande filme e uma conferência por telemóvel

Jean-Luc Godard continua a ser um notável experimentador: Le Livre d"Image está na competição, prolongando as suas reflexões sobre a história, a memória e a cinefilia

O que é uma conferência de imprensa em Cannes? Um momento essencial na passagem de qualquer filme pelo maior festival de cinema do mundo. Uma oportunidade mediática, para aplicarmos a linguagem dominante dos nossos tempos. Mas não é todos os dias que temos a possibilidade (e também o privilégio) de acompanhar uma conferência de imprensa concebida como uma simples, mas fascinante, encenação cinematográfica. Imagens e sons, como diria (e disse) o seu protagonista: Jean-Luc Godard.

O pretexto foi a passagem do seu novo filme, Le Livre d"Image, na secção competitiva do festival. Godard estava na Suíça e foi a partir de sua casa, via telemóvel, que dialogou com os jornalistas. Nada de transcendente do ponto de vista técnico - dir-se-ia mesmo uma variação plebeia sobre os mecanismos correntes das chamadas "videoconferências". Só que com Godard, génio de todas as formas de experimentação, a situação transformou-se num verdadeiro happening cinéfilo, suscitando a partilha de uma série de reflexões, ora graves ora irónicas, sobre o belíssimo Le Livre d"Image.

O moderador, o jornalista Gérard Lefort, limitou-se a explicar que quem tivesse perguntas deveria dirigir-se a um microfone colocado à frente da mesa da sala de conferências do Palácio dos Festivais. Assim aconteceu, com cada jornalista a formular a sua pergunta, não para a mesa, mas diretamente para a imagem de Godard no telemóvel de Fabrice Aragno (um dos atuais colaboradores do cineasta, juntamente com Jean-Paul Battaggia). Dir-se-ia uma insólita ginástica humana, a fazer lembrar alguns dispositivos surreais de encenação de filmes de Godard, desde os delírios trágicos de Fim de Semana (1967) até aos labirintos poéticos de Adeus à Linguagem (2014), passando pela mercantilização do sexo em Salve-se Quem Puder (1980). Subitamente, tão peculiar dispositivo não era uma banal celebração da tecnologia, antes um esforço partilhado para refletir sobre o que as imagens mostram e, como diria Godard, "aquilo que fica por mostrar".

Herdeiros da Cinemateca

A propósito de Le Livre d"Image, Godard lembrou que vale a pena questionar a estrutura tradicional de fabricação de um filme. O facto de voltar a aplicar muitas imagens de outros cineastas (Rossellini, Dovjenko, Ophuls, etc.) pode ser entendido como a verdadeira montagem, de tal modo que "a rodagem passa a ser a pós-produção".

De onde vem, então, esse desejo de citação e reinvenção das imagens dos outros (e também de alguns dos seus próprios filmes)? Pois bem, da "educação" dos autores que, como ele, fizeram a Nova Vaga francesa: "Não estudamos numa escola de cinema, em vez disso frequentamos a Cinemateca." Mais ainda: esses filmes que vinham do passado, programados por Henri Langlois, eram "os filmes do nosso presente".

Le Livre d"Image propõe uma viagem ao mundo árabe, citando como uma das suas referências a antologia A Arábia Feliz (publicada por Alexandre Dumas em 1860). Trata-se de saber o que fazer, dizer e mostrar, de modo a superar o maniqueísmo de qualquer redução da política a uma variação sobre o religioso (de qualquer religião). Falou-se, por isso, de coragem, com Godard a lembrar que, para além da essencial "coragem de viver", importa não abdicar da "coragem de imaginar".

Tudo isso acontece no ecrã (e na espantosa banda sonora) através de um processo de relançamento de memórias em que reencontramos alguns temas nucleares de Godard, incluindo o modo como o Holocausto assombra a história da humanidade no século XX e a existência do cinema como uma máquina, tão ambígua quanto fascinante, de apropriação e reflexão, pensamento e reinvenção. Abordagem documental ou encenação ficcional? Godard voltou a lembrar as experiências da Nova Vaga e, em particular, a lição de Jean Rouch: "Ficção ou documentário, para nós é a mesma coisa."

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