Gabriel Abrantes: "Este prémio dá-me confiança"

O vencedor do Prémio da Semana da Crítica, Gabriel Abrantes foi uma das figuras de Cannes. O seu Diamantino, realizado a meias com Daniel Schmidt, foi um triunfo a toda a escala, mas o artista e realizador português não quer bater na tecla Cristiano Ronaldo

Ligamos para Paris e sentimos na voz de Gabriel Abrantes o som da ressaca feliz da vitória de Diamantino na Semana da Crítica. A tal comédia "séria" que conquistou a crítica internacional e o júri presidido pela atriz Chloe Sevigny. Abrantes, que logo na sua primeira longa foi premiado, realizada a meias com o amigo americano Daniel Schmidt, conta-nos que naturalmente não estava à espera: "Foi muito bom para a nossa carreira ganhar um prémio em Cannes! É muito fixe um filme como este vencer a Semana da Crítica! Um filme cómico mas que, ao mesmo tempo, foca temas sérios. O próprio júri disse que fizemos um filme que arrisca muito e que consegue juntar comédia a um discurso político bastante forte. Enfim, estou super agradecido a este júri. É muito raro consagrarem uma comédia delirante! Fiquei mesmo super surpreendido, mas sei que é um cliché estar a dizer isso. Na verdade, antes de pronunciarem a palavra Diamantino nunca acreditei. Já estávamos tão surpreendidos com o simples facto de termos sido selecionados que prémios nunca pensámos. Agora, claro, este prémio dá-me vontade em continuar a fazer cinema. Quero continuar a fazer filmes ainda mais malucos mas que toquem sempre o público de forma emocional. Este prémio dá-me confiança para arriscar! ".

O filme conta a história do maior jogador do mundo, Diamantino (interpretado com um empenho comovente por Carloto Cotta), que depois de falhar o penálti decisivo na final do Campeonato do Mundo da FIFA entra em crise. Diamantino, angustiado com a morte do pai, o tratamento opressivo das suas irmãs e o gozo na Net pelo seu fracasso na seleção portuguesa, acaba por se meter numa experiência científica que visa clonar o seu génio futebolista para deixar anestesiado o povo português. Pelo meio, adopta um refugiado vindo de Moçambique, que, afinal, é uma agente das forças secretas portuguesas de origem cabo-verdiana. Se este é, como muitos em Cannes, escreveram um falso "biopic" sobre Cristiano Ronaldo, o realizador português apenas prefere dizer que o filme "é muito mais do que isso". Para Abrantes é importante que o discurso da imprensa não corra atrás das parecenças de Diamantino com o craque da seleção portuguesa: "As pessoas têm que perceber que o filme é uma paródia, a personagem é uma paródia de uma estrela do futebol, que poderia ser uma estrela do desporto em geral. Atenção, o Diamantino não é o Cristiano Ronaldo, mas sim um Frankenstein, com um braço do Michael Jordan, uma perna do Lance Armstrong e uma testa do Zidane." Antes de CR 7, o argumento foi construído a partir de referências de textos de David Foster Wallace sobre ídolos do ténis.

Da cabeça de Abrantes nasceram ideias estrambólicas como este ídolo dos relvados imaginar cães felpudos no meio dos jogos ou o nascimento de seios depois de uma experiência científica levada a cabo pelo Governo fascista deste Portugal imaginado que quer sair da União Europeia. Um Portugal Exit que é uma metáfora ao Brexit.

Madonna, Angelina Jolie e outras celebridades que adotam crianças que poderiam ser refugiados são também alvo de gozo na medida que Diamantino adopta um jovem refugiado. Nesse sentido, é um filme também todo ele atento aos sinais da nossa sociedade. E, como em todo o cinema desta dupla, o corpo masculino é tratado com uma desmistificação das normas heteronormativas. Por isso, a maneira como os músculos de Diamantino são filmados com uma estrondosa ambiguidade trazem água no bico: "O cinema mais massificado impingiu ao longo dos anos uma série de imagens estereotipadas sobre o corpo masculino. É um tema sempre presente no nosso trabalho", garante.

De Cannes, além do prémio, destaca a adesão do público. Na sessão na qual o DN esteve presente, os risos foram muitos: "Sentimos sobretudo muito calor do público. Correu muito bem". E em Cannes, o público internacional, por certo, nem sabia que ao mesmo tempo, em Portugal, no reino do futebol, o "hooliganismo" em Alcochete produzia uma rábula digna da "marca" Gabriel Abrantes. "Pois, diz-se por alguma razão que a realidade é mais estranha do que a ficção".

Nesta altura em que saboreia a aclamação a Diamantino, o realizador que já tinha vencido um Leopardo de Ouro na competição de curtas tem uma forte convicção: "Quero que o filme seja visto pelos portugueses, pelo grande público! Diamantino vai emocionar e fazer rir os espetadores. Fizemos este filme para ser visto por muita gente nos cinemas, não é filme para os festivais nem para os mais cinéfilos! No começo, podem estranhar um bocadinho, mas depois vão mesmo rir e chorar. Aliás, esse lado da emoção deve-se ao grande trabalho do Carloto Cotta. É engraçado, o diretor da Semana da Crítica fez a seguinte interrogação: será que temos de odiar o futebol para gostarmos deste filme? Ele que adora futebol escolheu este filme para a seleção da Semana...Convém desmistificar outra coisa: eu gosto de futebol. Só não sou é das clubites." Para já, aguarda-se que muito em breve que a produtora Maria João Mayer anuncie uma data para o nosso país.

Além de Carloto Cotta, saliente-se o trabalho de atores como Anabela Moreira e Margarida Moreira (alusão às irmãs Aveiro?) e o hilariante Chico Chapas, o pai "bronco" deste futebolista que brinca com bonecos e tem uma Lamborghini amarelo.

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