Free Jazz e poesia hip hop de Nova Iorque em Sines

Noite intensa no Festival de Músicas do Mundo, com David Murray a encantar a multidão e a encantar-se com ela.

David Murray pede um gin tónico. Precisa de beber qualquer coisa. Diz aos músicos que adorou e foi fantástico. Saul Williams sorri. Minutos após o final do encore dos David Murray Infinity Quartet Feat Saul Williams, o músico ainda tem energia e simpatia para falar aos jornalistas no camarim. Tocar em Sines é como tocar em casa. Sente parte da familiaridade como em Berkeley, na Califórnia, a sua terra natal. "A responsabilidade é sempre maior, lá tenho os meus primos que vêm aos concertos, e estão em cima de mim, mas há pouco senti o mesmo, olhei para o público e só vi caras conhecidas. Não os posso desiludir", revela.

David Murray, um dos maiores da sua geração, tem casa em Sines e não raras vezes aparece no ginásio com os filhos. É conhecido por todos. Aqui abarca a responsabilidade de também estar em família. Saxofonista de renome com 40 anos de carreira e 130 discos editados, provou, esta sexta-feira, a simbiose que o une a Saul Williams, um jovem poeta, ator e cantor que tem ganho fama nas chamadas "slams", competições de poesia, onde as palavras fluem ao ritmo da cultura urbana contemporânea. E a fusão foi bem apreciada pelo público que os aplaudiu no recinto do Castelo, nesta noite de sexta-feira. Murray compara a melodia da música a ter um filho "podes fazer o que quiseres com a melodia, tu é que a tornas livre, é como criar uma criança". Os olhos brilham. "Estou muito orgulhoso dos meus, são como notas que eu esculpi!". Saul Williams tem idade para ser seu filho e parece que era essa a intenção do saxofonista de 61 anos, encontrar alguém de outra geração. "Queria um músico duma geração diferente da minha, o Saul é um poeta, um visionário, poderia perfeitamente ser um líder, ser um Barack Obama, é um homem pensante, um compositor de intelecto, um homem de palavras, todos queremos alguém inteligente para nos liderar, certo?", questiona. E lá chega o gin.

Saul ondula o corpo ao sabor do elogio e à primeira música da banda do percussionista tunisino Imed Alibi que se prepara para incendiar o recinto dali a escassos minutos com os ritmos do Magrebe e do Médio Oriente. Boa parte do público ja recria ambientes de transe e cinematográficos. A dança é esfusiante num limbo poroso entre Oriente e Ocidente. Entre Zied Zouari nos violinos, Pascal Teillet no baixo e Stéphane Puech nos teclados, qual deles o melhor na viagem dos sentidos a somar pontos em mais uma noite de casa cheia em Sines que ainda teve energia para os Konono N-1 meets Batida. Dentro das muralhas, e por volta das duas da manhã, Congo, Angola e Portugal eram só uma voz a cantar e a gritar "Bom Dia". Ninguém deixou de saudar de volta.

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