Festivais disputam presença de um Nobel em Portugal

É impossível imaginar um país onde se editam 15 mil livros por ano sem haver correspondência em festivais literários que os divulguem

Está aberta a época dos festivais literários e o Correntes d"Escritas é o primeiro de uma dezena que vão realizar-se até ao fim do ano. É também o mais antigo e o que mais fama tem no estrangeiro, pois pela Póvoa de Varzim já passaram centenas de escritores de muitas nacionalidades, principalmente os da língua portuguesa e espanhola, que vão fazendo boa publicidade.

Ainda o pano estará a fechar na Póvoa e até ao fim de maio acontecerão mais quatro: o Festival Literário da Madeira e o Fronteira, em Castelo Branco, em abril; Livros a Oeste, na Lourinhã; o Encontradouro, em Sabrosa, e o Literatura em Viagem, em Matosinhos, todos em maio. Seguem-se os festivais de Belmonte, Viseu, Cascais, Óbidos; bem como a Escritaria, em Penafiel, e a Festa da Poesia. E já se anuncia um novo festival, o de Guimarães, ainda sem nome, e que fará homenagem a Raul Brandão.

Quem observa este efervescente mundo festivaleiro na literatura nacional, a primeira pergunta que faz é se existem escritores portugueses suficientes para tantas evocações literárias. A conclusão que se tira após ouvir a maioria dos organizadores é de que não falta por onde escolher, mas, como o segredo é a alma do negócio, todos dificultam a revelação das suas estrelas para evitar atropelos da concorrência. A luta é tão grande que nas últimas semanas até houve uma disputa pelo escritor Claudio Magris, que já se tinha comprometido com um festival e o seu nome foi apresentado por outro.

No entanto, o objetivo principal entre os organizadores é trazer a Portugal um Prémio Nobel da Literatura. Uma corrida em que os principais certames estão envolvidos desde o ano passado e que ainda se mantém sobre a mesa em três dos festivais, mesmo que neste caso o silêncio seja mais rigoroso.

Voltando à escassez de autores para tantos festivais, Paulo Ferreira, da Booktailors, um dos principais organizadores destes eventos, garante que existem, mas explica que foi preciso ser criativo: "É verdade que não temos tantos escritores para tantos festivais, portanto foi preciso misturar autores com outras personalidades do mundo da cultura. Ou seja, artistas plásticos, músicos e outros nomes que possam emparelhar com os escritores e serem suficientes para chamar espectadores às sessões."

Paulo Ferreira garante que a cultura só tem a ganhar com esta mistura e até já se impôs a si próprio um desafio: "Um dia, hei de fazer um festival literário sem escritores!" Faz esta afirmação num tom de brincadeira, mas é esse o perfil que domina muitos destes eventos. O próprio explica porquê: "Se for possível, as pessoas querem as duas coisas, pois gostam de assistir a um debate em que estejam na mesa o Pedro Abrunhosa e o Valter Hugo Mãe. Esse modelo satisfaz e alarga o espectro de público que quer assistir aos festivais." Aliás, faz uma outra afirmação que pode parecer estranha no que respeita à forma como surgem os espectadores destes eventos: "É mais fácil juntar pessoas em Belmonte, os que estão lá, ou vão da Guarda e da Covilhã, porque não há tanta oferta como em Lisboa." Resume: "Quando se descentraliza há mais público." Além de que, diz Paulo Ferreira, estes festivais são antecedidos por muito trabalho local: "No LEV decorre durante o resto do ano um plano municipal de leitura que mobiliza as escolas do concelho."

A receita das Correntes

Foi também essa a mecânica que tornou o Correntes d"Escritas o grande festival literário em Portugal. Para onde o fotógrafo Daniel Mordzinski (ler entrevista ao lado) irá mais uma vez na próxima semana, depois de ter estado num gigantesco evento do género, o de Bogotá: "Há 28 anos que participo em festivais literários em todo o mundo e garanto que o Correntes d" Escritas já tem um lugar privilegiado no mapa mundial."

Não foi por acaso que tal aconteceu, e o vereador da Cultura da Câmara da Póvoa de Varzim explica como foi: "Sempre demos muita atenção ao livro no concelho e a certa altura tivemos de avançar ainda mais devido ao resultado do trabalho que a biblioteca fazia junto da população." Diga-se que o Correntes foi a inspiração da maior parte dos festivais e a maioria decalcou o modelo no seu arranque. Já o Correntes passou de uma sala de 70 lugares, na primeira edição, para uma sala com 700 sempre cheia, lembra Luís Diamantino.

Quanto a custos deste eventos ninguém fala. O vereador Luís Diamantino refere: "No caso da Póvoa, a compensação em termos de visibilidade nos órgãos de comunicação social a nível nacional custaria muito mais do que é feito no investimento das Correntes d"Escrita."

Não há livraria mas tem festival

A distribuição geográfica dos festivais é praticamente de âmbito nacional. A 70 quilómetros de Lisboa, o Livros a Oeste já vai na quinta edição, e João Morales considera que tem vindo a ganhar relevância: "Esta é uma terra onde não existe uma livraria, mas as pessoas acorrem cada vez mais ao evento." Por isso, este ano, o festival espalha-se por toda a localidade.

Também no Funchal, o Festival Literário da Madeira aposta forte na programação da sexta edição. E na sua diversificação, pois entre os nomes anunciados está o cantor Jorge Palma e o escritor Mia Couto. O organizador, Francesco Valentini, tem apostado bastante nos escritores nacionais mas não descura os internacionais: "Neste ano teremos seis autores estrangeiros." Quanto a números, do milhar inicial, no ano passado as sessões interessaram a quatro vezes mais pessoas.

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