É tudo azul no novo dos Stones

Os blues voltam a ser a cor para Jagger & companhia. "Blue & Lonesome" é um prazer, pela simplicidade, pela entrega e... pela música

Se estivéssemos nos domínios do cinema ou da literatura, faria sentido o anglófono aviso de que os próximos parágrafos poderiam valer como spoilers (desmancha-prazeres), denunciando o enredo das obras. Na música, essa prevenção tem consequências muito menores - pode optar-se pela recusa em saber previamente o sexo do nascituro; mas, menino ou menina, não fica em nada diminuído o encanto de ser mãe ou pai.

Com os Rolling Stones, todos com idade para serem avôs babados, ninguém levará a mal se se reafirmar o que já foi anunciado: Blue & Lonesome, disco que assinala uma passagem pelos estúdios para novas canções (no reportório da banda, entenda-se) onze anos depois de A Bigger Bang, é um álbum de blues, sobretudo da variante identificada pela ligação a Chicago, que significa um regresso às origens, mais de 50 anos depois de Mick Jagger, Keith Richards & Cª terem gravado The Rolling Stones 2 (1965), em que se abordavam nomes como os de Muddy Waters ou Allen Toussaint.

Antes das motivações (prováveis) e do desfecho (inequívoco), os factos, que poderão ser verificados a partir da próxima sexta-feira, 2 de dezembro, data do lançamento mundial de Blue & Lonesome: são 12 canções que percorrem 42 minutos e 36 segundos de música simples, sem truques, dorida como deve ser, espontânea como merece.

A mais curta, Just Your Fool, logo a abrir, dura 2 minutos e 16 segundos. A mais longa, a fechar, é um caso à parte - são 5 minutos e 13 segundos de I Can"t Quit You Baby, um dos momentos em que os Stones voltam às criações do grande Willie Dixon (que não gravavam desde 1964) e uma aproximação alternativa ao tema que já foi hino às mãos dos Led Zeppelin.

A mais antiga das cantigas precede a formação dos próprios Rolling Stones - I Gotta Go, um dos momentos mais acelerados do álbum, vem de 1955. A mais recente, Everybody Knows About My Good Thing, traz a data de 1971 e dá direito a bónus: é uma das duas em que se apresenta um poderoso reforço chamado Eric Clapton, ao que se sabe convocado quando se descobriu que estava a gravar numa outra sala dos mesmos estúdios. Caso para dizer: abençoada vizinhança!

Sem efeitos e sem medos

Posto isto, vale a pena pensar que, após tantos anos em digressão, com tantos hinos próprios para preencher muitos alinhamentos distintos, com incursões e colaborações "fora da caixa", Jagger e Richards - mais do que Ronnie Wood e Charlie Watts - podem ter procurado um denominador comum, que os reaproximasse um do outro e que os encostasse ao puro prazer, sem pressões de maior. O mesmo é dizer: os blues, que originalmente os juntaram e projetaram.

Gravaram em três dias, quase ao vivo no estúdio, sem efeitos especiais. O elenco completou-se com um baixista (Darryl Jones) e dois teclistas (Chuck Leavell e Matt Clifford) que são presenças habituais nos palcos dos Stones, com uma colaboração do veterano baterista Jim Keltner e com mais duas de Clapton, decisivo na canção atrás citada e em I Can"t Quit You Baby.

Sem diletantismos nem preguiças, que o registo é empenhado, o resto deve ter emergido com toda a naturalidade: as "muralhas inteligentes" das guitarras, a voz múltipla de Jagger (compare-se o registo de Blue & Lonesome com o de Ride "Em On Down), a presença constante da sua nervosa harmónica, os concertantes duelos das guitarras com um piano ou com um órgão.

Nem são precisos grandes solos - Clapton molda o seu virtuosismo ao superior interesse coletivo - nem há lugar para os conhecidos maneirismos vocais de Jagger: este é mesmo um álbum em que alguns dos músicos mais famosos do mundo decidem, humildemente, descomplexadamente, prestar homenagem a alguns grandes criadores da ala dos blues, com Willi Dixon, Jimmy Reed, Howlin" Wolf e Little Walter à cabeça.

Mais difícil será imaginar que os Stones alguma vez baseiem um concerto, ainda menos uma digressão, neste disco, já que os fãs não perdoariam a ausência dos emblemas. Mas isso vale mais uma razão para não se perder este intervalo, muito bem preenchido, em que os Stones voltam à meninice, sem abdicar das vivências.

A traquinice chega, até, para piscarem o olho a alguns parceiros iconográficos - será difícil ouvir All of Your Love, Little Rain ou I Can"t Quit You Baby e não sentir no ar um certo perfume de Led Zeppelin. Outro ponto a favor, claro, num álbum em que o azul não desbota nem esmorece.

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