Drama social vale a Ken Loach uma segunda vitória em Cannes

Contrariando a maior parte das previsões, o júri presidido por George Miller atribuiu a Palma de Ouro de Cannes ao filme I, Daniel Blake, um drama social assinado pelo realizador britânico, um repetente

O veterano inglês Ken Loach entrou para o prestigioso clube dos vencedores repetentes do Festival de Cannes: o seu filme I, Daniel Blake (à letra: Eu, Daniel Blake) valeu-lhe a sua segunda Palma de Ouro, dez anos depois de ter arrebatado a mesma distinção com Brisa de Mudança. O filme (com distribuição portuguesa assegurada pela Midas Filmes) narra o drama de um carpinteiro, interpretado por Dave Johns (popular ator cómico no Reino Unido), que devido aos seus problemas cardíacos tenta obter ajuda da assistência social, acabando enredado numa desgastante teia burocrática.

Prolongando a lógica política do seu cinema, sempre enraizada na frondosa tradição realista britânica, o vencedor agradeceu ao júri presidido por George Miller num discurso emocionado em que verberou os desequilíbrios provocados pelo "liberalismo". Considerando que "o mundo chegou a um ponto perigoso" em que o cinema pode assumir uma posição moralmente "dissidente", condensou a sua mensagem nestas palavras: "Outro mundo é possível - possível e necessário."

A história de Cannes ensina-nos que as previsões dominantes dos jornalistas que acompanham o festival raras vezes são confirmadas pelo júri oficial. Neste ano, as discrepâncias terão sido maiores do que nunca. E desde logo porque alguns dos títulos apontados como candidatos mais fortes à Palma de Ouro ficaram fora dos prémios. Era o caso do alemão Toni Erdmann, de Maren Ade, ou do brasileiro Aquarius, de Kleber Mendonça Filho; neste último, Sônia Braga emergia mesmo como potencial vencedora do prémio de interpretação feminina.

O Grande Prémio, "segundo lugar" do palmarés, acabou por pertencer ao jovem canadiano Xavier Dolan, com Juste la Fin du Monde, adaptado da peça homónima de Jean-Luc Lagarce, sobre uma família em aguda crise de relações. Para Dolan, Cannes transformou-se numa montra essencial do seu trabalho, conseguindo esta distinção dois anos depois de o seu filme Mama lhe ter valido o prémio do júri.

Filmes de muitas crises

Os filmes de Loach e Dolan podem resumir uma "tendência" fundamental da seleção oficial: muitos filmes deram a conhecer personagens que vivem e, sobretudo, sobrevivem através de profundas crises sociais e emocionais. Escapando a quase todas as expectativas, o júri distinguiu nos prémios de interpretação a filipina Jaclyn Jose, em Ma" Rosa, de Brillante Mendoza, e o iraniano Shahab Hosseini, em Le Client, de Asghar Farhadi. Este último conseguiu a proeza de ser o único filme distinguido duas vezes, já que o prémio de argumento foi para o próprio Farhadi.

American Honey, primeiro filme da inglesa Andrea Arnold rodado nos EUA, recebeu o prémio do júri. Numa decisão francamente invulgar, porventura reveladora de significativas diferenças de avaliação entre os membros do júri, o prémio da realização foi atribuído ex aequo ao romeno Christian Mungiu (Bacalaureat) e ao francês Olivier Assayas (Personal Shopper).

Entre os ausentes do palmarés ficam ainda os filmes de Jean-Pierre e Luc Dardenne (La Fille Inconnue), Jim Jarmusch (Paterson) e Paul Verhoeven (Elle); este último, em particular, tinha aquela que foi, para muitos, a melhor atriz do certame: Isabelle Huppert. Um dos atores que com ela contracenam, Laurent Lafitte, repetiu as funções de apresentador que já assumira na abertura e terá sido um dos que viveram a cerimónia de forma mais angustiada. Isto porque, depois do longuíssimo discurso de Houda Benyamina (Câmara de Ouro para um primeiro filme, por Divines), se tornou praticamente impossível controlar a avalanche de agradecimentos, pontuados por muitos risos e lágrimas... De alguma maneira, tais excessos minimizaram o momento mais simbólico da noite: a atribuição de uma Palma de Ouro honorária ao ator Jean-Pierre Léaud, por certo uma das figuras mais lendárias da história do moderno cinema francês.

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