De tradutor de David Bowie a maestro da picanha. Seu Jorge está de volta

A vida de Jorge Mário Silva, cidadão brasileiro, tinha tudo para dar errado. Talento, sorte e teimosia permitiram desmentir o pessimismo. Está de volta

A frase de Seu Jorge explica quase tudo: "O que me separa do Mané Galinha [a notável personagem que interpreta no filme Cidade de Deus] é que ele escolheu a vingança e eu optei por mudar de vida." Jorge Mário Silva, nascido em Belford Roxo, município da área metropolitana do Rio de Janeiro, a 8 de junho de 1970, sabe do que fala: enfrentou infância e adolescência na favela, conseguindo quase sempre fugir entre os "pingos da chuva", que é como quem diz da miséria e da violência que lhe vem agregada. Houve um momento especialmente difícil: um dos seus irmãos mais novos, Vitório, foi morto num tiroteio entre grupos rivais da favela. Jorge viveu como sem-abrigo por três anos. Poderia ter valido o princípio do fim ao homem que hoje conhecemos como o cantor de É Isso Aí ou Burguesinha. O seu gosto pela música e a sorte de um encontro valeram-lhe o trajeto oposto à destruição.

A história entra na legião das lendas: Seu Jorge tocava na rua quando foi abordado por Gabriel Moura, filho do saxofonista e maestro Paulo Moura. Além do incentivo, ficou o contacto. Passado pouco tempo, o rapaz que já fora marceneiro, empregado de uma fábrica de borrachas, descascador de batatas e militar aparecia integrado no Teatro da Universidade do Rio de Janeiro, com um contrato para duas dezenas de espectáculos, como cantor e ator. Tratou-se, a partir daí, de agarrar oportunidades, começando pelo grupo Farofa Carioca, que alcançou um êxito estrondoso com Moro no Brasil, no final do século passado. Apesar do "conforto", percebia-se que Seu Jorge haveria de trilhar um caminho próprio, pessoal, o que acabou por confirmar-se com as edições de Samba Esporte Fino e de Cru, os dois álbuns que definiram todo o trajeto, cruzando samba, reggae, funk e MPB, a evocar mestres como Jorge Benjor ou Tim Maia. Mas também Zeca Pagodinho e, mais à distância, Martinho da Vila ou Moreira da Silva. Adicionavam-se ainda um tempero de malandragem e com sinais evidentes daquilo a que, por comodidade, podemos chamar consciência de classe, evidentes em canções como Hagua (sobre a degradação do meio ambiente) ou Eu Sou Favela (que dispensa explicações), mais tarde prolongadas em Trabalhador, Burguesinha ou América do Norte.

O cinema e Pelé

Há dois momentos que justificam o crescimento uniformemente acelerado do artista: a sua destacada presença no elenco de Cidade de Deus, o filme de Fernando Meirelles que vale como retrato fiel e verdadeiro do quotidiano de uma favela, internacionalmente reconhecido. De tal forma que apareceu nomeado para quatro Óscares: realizador, argumento adaptado, fotografia e montagem. O cinema volta a estar na base do segundo salto de Seu Jorge, integrado na pandilha que o cineasta Wes Anderson juntou para Um Peixe Fora de Água - Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchett, Anjelica Huston, Jeff Goldblum, Willem Dafoe, Michael Gambon e... o nosso homem. No papel de Pelé dos Santos (alusão pouco dissimulada a Pelé e ao Santos, clube em que jogou quase toda a sua carreira), Seu Jorge aproveita para brilhar como cantor, apresentando mais de uma dúzia de canções de David Bowie com letra em português, aventura que foi premiada com o agradecimento do autor original. Caso para dizer: não faltava mais nada.

Os dados estão lançados: Jorge surge em produções cinematográficas da Grã-Bretanha ou da Venezuela, marca presença em diversos filmes e séries de TV do Brasil. No próximo mês de maio será estreado Pelé: The Birth of a Legend, abordagem biográfica à vida do rei dos futebolistas. Refira-se um outro enorme desempenho do artista em Casa de Areia, filme brilhante de Andrucha Waddington, que junta Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, mãe e filha na vida real... e na fita.

Do lado da música, a atividade é constante: antes de gravar o multifacetado América Brasil, Seu Jorge regista e edita um espetáculo em parceria com Ana Carolina. Liga-se ao coletivo Almaz, na companhia do multi-instrumentista António Pinto e de dois músicos do grupo Nação Zumbi, o guitarrista Lúcio Maia e o baterista Pupillo. Com novos álbuns ao vivo, deságua na fase mais recente, com dois volumes de Músicas para Churrasco, lançados em 2011 e em 2015. O primeiro, convém assinalar, ganhou um Grammy, reservado para o melhor álbum de pop contemporâneo. Representam, em ambos os casos, um aprimorar das qualidades que Seu Jorge carrega, sem esforço mas com muito trabalho, desde o início: a voz, possivelmente tornada mais grave pela vida, e a sua capacidade como observador, capaz de recorrer a um humor irresistível - como acontece com A Doida ou com Ela É Bipolar. Provas evidentes de que, apesar de estar presentemente a viver em Los Angeles, Seu Jorge não se afasta um milímetro do jeitinho brasileiro.

Um bónus chamado Marisa

Discreto, o aviso aumenta desmedidamente a expectativa: "Seu Jorge convida Marisa Monte." Significa que há outra voz carioca para ouvir em Guimarães e em Lisboa - "apenas" a da mulher mais influente dos últimos 25 anos da música do Brasil. Já ganhou quatro Grammies (um deles com o projecto Tribalistas, lado a lado com Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes) mas isso, sinceramente, é o que menos importa. Valem, isso sim, sete capítulos primorosos em estúdio, mais discos ao vivo e colaborações que ninguém esquece, da Velha Guarda da Portela aos Titãs. Descontado o registo da digressão 2012/2013, Verdade, Uma Ilusão, a mais recente passagem pelo estúdio resume tudo: O Que Você Quer Saber de Verdade, trocado o título pela questão, só merece uma resposta - com Marisa Monte, tudo. E sempre, a qualquer hora.

Seu Jorge

Sexta, Multiusos, Guimarães, 22.00

Sábado 5, Meo Arena, Lisboa, 22.00

bilhetes de 25,00 a 75 euros

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