Coachella, o festival de luxo onde a moda é tão importante como a música

Já começou em Indio, nos EUA, o mais icónico festival, onde uma lagarta gigante convive com as pinturas faciais e a música dos AC/DC.

Há um festival em que os selfie sticks são proibidos, os transportes do parque de estacionamento para o festival custam 56 euros e os bungalows VIP ficam a 6500 euros. Usam-se flores na cabeça e pinturas douradas na cara, há refeições veganas e sem glúten para quem quiser; a cada esquina, uma instalação de arte e jogos de luzes transformam este pedaço de deserto no mais surreal evento musical a que se pode assistir. É o Coachella, um festival épico que se divide durante dois fins de semana e que já arrancou em Indio, Califórnia, com um cartaz muito interessante que mistura grandes nomes do rock, como AC/DC e Steely Dan, bandas recentes como os Bad Suns e prodígios do rap e da controvérsia, como Drake e Azaelia Banks.

Os AC/DC foram o ponto alto do primeiro dia de música, na sexta-feira, com uma audiência muito entusiasmada e surpreendentemente jovem. Brian Johnson e companhia tocaram por mais de uma hora, começando pelos clássicos e metendo algumas músicas do novo Rock or Bust pelo meio. "Não sou uma fã tremenda, mas queria muito vê-los", diz ao DN Lindsey, de 37 anos, sorrindo por entre os vários piercings na cara e acrescentando que "pode ser a última oportunidade de os ver ao vivo." É a quinta vez que vem ao Coachella e, tal como os milhares de festivaleiros que se espalham pelo recinto a beber, deitados na relva ou a fazer partidas aos amigos, não vem apenas pelos concertos. "É divertido, é descontraído, conhece-se imensa gente", diz. "Conheci algumas pessoas do Chile aqui há sete anos e ainda sou amiga delas."

Um dos aspetos que surpreendem no Coachella é a pouca diversidade de pessoas, apesar da variedade musical - são seis palcos em simultâneo para todos os gostos - mas também com a arte e o ambiente criativo que se vive. É basicamente um festival frequentado por consumidores brancos, jovens e com dinheiro. Ao lado de Lindsey há rapazes em tronco nu e universitários com a bandeira da fraternidade ao pescoço. Mais para trás, um homem com um smiley gigante na mão, que conseguiu no set de um DJ - coisa rara, porque brindes é coisa inexistente.

Esta é outra diferença: ao contrário de tudo a que estamos habituados em Portugal, aqui não há marcas a patrocinar coisa nenhuma. O festival chama-se simplesmente Coachella Valley Music and Arts Festival e lá dentro não há slides patrocinados por bebidas nem stands a oferecer chapéus - quem quiser tem de comprar. Este ano, a Sam- sung e a JBL têm uma espécie de lounge que está refundido nas franjas do espaço, ao lado da sala de imprensa, mas quase ninguém sabe do que se trata. Porque não é porreiro ter marcas a invadir a experiência psicadélica que é acampar durante três dias no deserto, com 30 graus de temperatura em abril e mais poeira do que o Sudoeste alguma vez conseguirá reunir (máscaras para proteger a boca e o nariz fazem parte da moda oficial). A roda gigante logo à entrada do recinto é de deixar o Rock in Rio roído de inveja, mas não há grandes filas, porque a viagem é paga. O que há de sobra e gratuito é água filtrada e carregadores de telemóvel; o festival também se arrisca a ter a zona de alimentação mais bonita e organizada de qualquer festival do mundo, com coberturas coloridas em forma de tenda de luxo no deserto e com luzes variadas.

O Coachella é conhecido pelos festivaleiros jovens, entre o hipster e o cool, ao estilo dos que encheram a área do palco principal quando foi a vez dos Interpol - um regresso após quatro anos sem darem concertos - e dos Tame Impala. "Obrigado, Coachella, melhor festival de sempre", disse Kevin Parker, no final do set, para gáudio de quem estava a assistir. Ali ao lado, na tenda VIP, ia um quem-é-quem de Hollywood (Los Angeles fica a duas horas de caminho); Justin Bieber e Kendall Jenner já apareceram por aí de mãos dadas, Kanye West é quase mobília e Paris Hilton fez uma entrada em grande na sexta-feira. Mas apesar de não haver comida vegan gourmet à discrição nem brisas de água para acalmar o calor fora da tenda, este é um festival em que as condições para a entrada geral são francamente acima da média. Assim como o preço.

"Estou muito velha para isto", diz uma mulher com pouco mais de 30 anos, rindo-se e apontando para a pulseira VIP, que custa de 900 dólares para cima em vez dos 375 da entrada normal. Leva botas num saco porque à noite faz mais frio e a poeirada é insuportável nos vinte minutos que demora a caminhar entre a porta do festival e as várias saídas. O recinto é grande e completamente plano, o que permite uma visibilidade alargada de qualquer ponto. Ainda assim, é possível ver festivaleiros munidos de walkie-talkies para não se perderem dos amigos, como o caso de Stephanie, de 25 anos, que já noite fria com top e calções falava ao walkie-talkie enquanto pedia informações. "Eles não percebem nada disto", queixou-se. Mas percebem: há assistentes de todo o tipo em todos os cantos do festival, desde seguranças e mapas ambulantes a guias para o acampamento, que fica logo ao lado. Há shuttles pré-pagos a 60 dólares por pessoa, táxis e uma novidade interessante: um centro de reservas Uber, através do qual consegui um condutor em 15 minutos e escapei à fila de duas horas para o táxi. Não se consegue mais em 2015 do que isto.

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