304 espectadores despediram-se do cinema King

Após 23 anos nas mãos de Paulo Branco, o cinema King fechou as portas no domingo à noite. O aumento da renda para 12 mil euros foi a gota de água.

Paulo Branco, que pegou no Cinema King, em Lisboa, em 1990, não marcou presença na noite de domingo para assistir ao encerramento das salas. "Não gosto de funerais", justificou esta tarde numa conferência de imprensa. Mas 304 pessoas foram despedir-se daquelas salas de culto lisboetas: 109 para assistir ao filme "Eu e Tu", de Bernardo Bertolucci, as restantes para ver "Hannah Arendt", de Margareth von Trotta, "O Gosto do Saké" e "Viagem a Tóquio", ambos de Yasujiro Ozu, segundo dados adiantados pelo produtor.

Na sala 1 do Cinema King, Paulo Branco fez o enquadramento das razões que levaram ao encerramento do edifício: o desinteresse das gerações mais jovens pelo cinema, a facilidade com que se descarregam ou compram filmes na Internet, a falta de divulgação do cinema de autor pela comunicação social em geral e pela televisão pública em particular, a concentração de salas por grandes grupos, o investimento em equipamento digital e falta de interesse da classe política para a questão e, finalmente, o aumento da renda.

"Passou de quatro mil e tal euros para 12 mil euros", afirmou Paulo Branco, explicando que o aumento teve a ver com a nova lei das rendas e a reavaliação feita ao espaço pelas Finanças. "Muitos espaços culturais estão a fechar por causa de situações destas", alertou o produtor e exibidor, defendendo a existência de regras diferentes para espaços culturais.

Paulo Branco tentou negociar com o proprietário, que alegou que estava de mãos atadas devido ao IMI que tinha para pagar, e apelar à Câmara de Lisboa e à secretaria de Estado da Cultura. "A indiferença relativamente a estes temas é cada vez maior. E acho que pensavam: 'O Paulo Branco vai desenrascar-se'".

Não conseguiu desenrascar-se e, tal como aconteceu há dois anos, com os cinemas Saldanha Residence, teve de fechar as salas do King, onde em 2012 entraram 60 mil espectadores e em 2013 apenas 40 mil. "Quando aqui cheguei o King tinha uns dois espetadores por sala", conta. "Mais tarde chegámos a fazer 150 mil espectadores por ano", lembra.

Algum equipamento será reaproveitado para outras salas lisboetas exploradas pela Medeia em Lisboa (Nimas, Fonte Nova e Saldanha); outro será utilizado numa iniciativa que tentará levar cinema alternativo à província (tudo o que não é Lisboa e Porto).

Os sete funcionários do King, alguns lá a trabalhar desde a abertura, serão distribuídos pelo Nimas e pelo Fonte Nova.

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