Chico Buarque no Coliseu de Lisboa no modo cante de António Zambujo

O sétimo disco de originais do cantor português é dedicado ao compositor brasileiro, escolha difícil quando só podia gravar 16 temas de uma obra enorme. Entrevista com o homem dos coliseus em dia de subir a este palco.

António Zambujo está hoje de volta ao Coliseu de Lisboa, uma sala que esgotou durante várias noites no espetáculo em parceria com Miguel Araújo e onde bateram o recorde de apresentações sucessivas. Desta vez, Zambujo está em palco com a sua banda para interpretar as canções de Chico Buarque que gravou no seu sétimo álbum. Intitulado Até Pensei Que Fosse Minha, o concerto já deveria ter acontecido há um mês mas a morte do pai obrigou a adiar a continuação das três noites iniciais - esgotadas como está esta - no grande auditório da Fundação Gulbenkian.

A noite de hoje revisita todo o álbum em que Zambujo interpreta o compositor brasileiro, num espetáculo igual ao que inaugurou a digressão que começou no Brasil em fins do ano passado, com concertos no Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo; que esteve em Lisboa e em Beja - terra natal do cantor -, bem como em mais duas dezenas de localidades em Portugal, além de vários países europeus.

Alternando os dois concertos que têm apresentado, as canções de Buarque e o próprio repertório, António Zambujo tem a agenda cheia. Acabou de chegar do Japão, onde, garante, cantou igual à sua forma de o fazer com outros públicos: "Cantar é igual, aqui ou em qualquer parte do mundo." É certo que em Tóquio a audiência não conheceria os seus grandes sucessos como acontece nos palcos nacionais - os que hoje não irá cantar. Por isso, quando se lhe pergunta se a carreira não está demasiado marcada por duas canções, Lambreta e Pica do 7, o cantor concorda: "Às vezes é um bocado assustador quando uma música faz tanto sucesso e condena um músico a viver com ela para o resto da vida."

O sucesso gigantesco que tem tido nos últimos anos vem confirmar que não poderia fazer outra coisa na vida que cantar. Zambujo não hesita na resposta: "A música na minha vida vem de há tanto tempo que nunca me imaginei a fazer outra coisa. Mas, na altura em que senti que a música teria um papel importante, se não fosse de uma maneira tão forte, provavelmente teria seguido outra carreira." Dá exemplos de outras coisas que poderia ter feito: "Arquitetura, por exemplo, sempre gostei muito." Mas há mais: "Desporto, também." No entanto, conclui: "Foi a música que entrou de maneira muito forte na minha vida e tão arrebatadora."

Interpretar Chico Buarque não foi uma ideia que surgisse de repente, antes resulta de algum cansaço perante fazer mais do mesmo durante vários anos. Zambujo conta que depois do sexto disco de originais precisava de fazer outra coisa: "Sentia falta de um novo caminho, que ainda não sei muito bem qual é." Acrescenta: "Nos concertos ao vivo vamos fazendo novas experiências e vendo o que é que vai surgindo, tendo sempre por base inevitavelmente a voz e a guitarra, que é a forma como eu canto, como eu componho e como crio as bases das músicas."

Ainda falta alguns meses para que António Zambujo se confronte com um novo projeto: "Lá para o final do ano começarei a pensar no novo disco e a imaginar outras coisas, mesmo que já surjam naturalmente algumas dessas ideias."

O caso Até Pensei Que Fosse Minha

O concerto de hoje é totalmente Chico Buarque. Zambujo tem com o compositor e cantor brasileiro uma relação especial, tanto assim que este esteve presente em várias sessões de gravação do disco e até sugeriu a inclusão no alinhamento da canção Cecília, um tema que o cantor português desconhecia e cuja interpretação foi definida por Chico Buarque como "definitiva".

A eleição do brasileiro para gravar músicas que não são suas foi uma decisão tão pensada como aguardada. Só podia ser o Chico? A resposta espanta: "A escolha foi muito impulsiva e poderia ser outra. Há muitos compositores que sigo, tal como o João Gilberto, a partir de quem fiquei a conhecer os grandes compositores brasileiros desde o período pré-bossa-nova até ao pós, como Noel Rosa e Cartola, alguns intérpretes como o Orlando Silva e o Pixinguinha. Aliás, há um disco fantástico que a Adriana Calcanhotto fez só com músicas do Lupicínio [Rodrigues] que ouço muito. Portanto, poderia ser também um destes compositores a homenagear."

A escolha definitiva de Chico Buarque ocorreu num momento em que Zambujo estava mais em sintonia com o brasileiro: "Sempre estive mais próximo da pessoa, que é muito apaixonante e de quem gosto muito, até porque nos entendemos muito. O que ajudou nessa altura - há dois anos - e permitiu que tudo fizesse sentido na minha cabeça. Por exemplo, quando fizemos a escolha dos temas a ajuda do Chico foi muito importante porque optar por 16 músicas numa obra tão grande é muito complicado."

Novamente esgotado

Regressar ao Coliseu de Lisboa a cantar Chico Buarque poderá ser um concerto bastante diferente mas não perderá a intimidade habitual entre público e cantor. A receita para os 28 coliseus no ano passado passou por essa relação: "O sucesso desses concertos passou um pouco pela espontaneidade e comunicação com o público. As pessoas escolhiam uma música - tínhamos um alinhamento mais ou menos aberto - e nós tocávamos. Por isso, havia concertos que duravam três horas e outros uma hora e meia ou quase duas horas." Ou seja, tal como nos concertos da Gulbenkian, onde Zambujo teve de repetir alguns temas para que o público o deixasse sair do palco, esta noite no Coliseu também estará na mão de quem esgotou a sala lisboeta.

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