Chico Buarque à boleia de Cristina e Laginha

Promessa cumprida: Mário Laginha e Cristina Branco fizeram desfilar alguns dos grandes êxitos do brasileiro Chico Buarque pelo palco principal do festival Sol da Caparica que até amanhã vai continuar a juntar famílias no Parque Urbano da Costa de Caparica.

A fasquia estava elevada. Afinal, havia o anúncio de um dos momentos "mais apaixonantes" do Sol da Caparica logo na abertura do palco principal. De magia, mesmo, em que melodias e sons cristalinos se iriam desprender do piano. E Cristina Branco e Mário Laginha, ainda à luz do dia, não defraudaram e foram exibindo os sons mais célebres de Chico Buarque. "Anos Dourados. Quem se lembra?", perguntou Cristina. O público tinha maioritariamente idade para se lembrar. E claro que se lembrava. Desta e de muitas outras que desfilaram calmamente antes de a noite chegar.

O público ocupava um quarto do recinto. "É algo diferente. Não é um espetáculo de massas. É quase só para quem aqui veio de propósito para assistir, como nós. É muito bom e vale a pena ouvir com atenção e silêncio", admitia Filipa Salema ao lado do marido João, da orgulhosa geração dos 60. "Da boa música, queres tu dizer", retorquia o marido, enquanto o grupo ao lado se apresentava como "rapazes para as mesmas idades", que tinham viajado do vizinho concelho do Seixal, mas que se abraçaram para abanar o corpo quando Cristina começou a cantar que "amou daquela vez como se fosse a última".

Muitos olhos fechados ao som da música. "É sempre bom homenagear o Chico Buarque", reconhecia Cristina Branco. Estava embalado o segundo dia do Sol da Caparica que já tinha escutado as primeiras músicas no outro palco com os Roda de Choro de Lisboa. Um rol de músicas clássicas pelas mãos de artistas portugueses e brasileiros que convidaram a dançar os poucos festivaleiros que quiseram entrar no recinto mal as portas abriram.

Depois do fandango ouviam-se os primeiros aplausos, mas o grupo queria antes animar a malta. "Nós não queremos aplausos, queremos que dancem", apelava Carlos Lopes, o "dono" do acordeão. "É slow, é fácil e sem regras", insistia. E alguns casais levantaram-se da relva para dar o pé de dança reclamado do palco.

Ali perto, Diogo Piçarra sentava-se em frente a umas dezenas de fãs para o projeto Debaixo da Língua, onde adotou um tom mais sério, quando pegou pela língua portuguesa, a principal característica do festival da Margem Sul, como "tesouro", abordando a dificuldade em "soltar a palavra" que sentiu ao escrever as letras do segundo disco.

"Pensei no que iria dizer que não tivesse ainda sido dito. As músicas em inglês não nos leva a uma análise. Mas quando cantamos em português estamos sempre sujeitos à crítica", revelava Diogo Piçarra cerca de três horas antes de subir ao palco. "Lá está, é difícil soltar as palavras e eu tenho muito cuidado para não repetir letras", justificou, admitindo por isso que uma música que se ouve em três minutos demore três meses a produzir. A revelação deixou as fãs de cara à banda.

"Não fazia ideia que demorava tanto a fazer uma música. Isto valoriza ainda mais o trabalho dos nossos músicos", comentava Ana Sofia, admiradora confessa de "toda a música portuguesa", embora ontem tivesse viajado de Lisboa até à Costa para ouvir Diogo Piçarra, logo a seguir a Cristina Branco e Mário Laginha, Jimmy P e The Gift. Lá estava na primeira fila à hora de fecho desta edição a sorrir para Diogo.

Por esta hora já o recinto estava bem composto de público. Era hora de jantar e os estabelecimentos de comes e bebes procuravam responder o mais rápido possível às filas de clientes. Bom presságio rumo às meta dos 70 mil visitantes até domingo, definida pela organização do evento que junta famílias no Parque Urbano da Caparica, sobretudo oriundas da região, fundamentalmente à boleia da música, mas também com a praia em fundo. O surf, tal com o skate cruzam-se este ano entre os festivaleiros, embora também o Placo Dança (o terceiro) tenha conquistado simpatias entre os mais novos, que ainda recordavam o concerto que fechou a primeira noite com C4 Pedro.

O músico angolano conquistou o ponto alto quando pôs milhares a aclamar os bombeiros portugueses. Uma homenagem entre o kizomba e saltos, retribuída por Smile que grafitou o rosto de C4 Pedro em versão "XXL" num painel. Ontem desenhava Mundo Segundo e para hoje tem previsto Rui Veloso. "É mais difícil no painel do que na parede mas até final do dia isto está feito", assegurava ao DN. E estava.

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