Cannes. O festival vai começar sob o signo de Woody Allen

Vários nomes tradicionais a par de uma significativa presença de produções do Brasil e Roménia marcam a 69ª edição do festival de cinema de Cannes, que começa na quarta-feira

Há cerca de três semanas, quando a programação da 69ª edição do Festival de Cannes (começa na quarta-feira, dia 11, prolongando-se até 22) foi anunciada por Thierry Frémaux, delegado geral do certame, cinéfilos de todo o mundo proclamaram em coro: a Palma de Ouro vai ser disputada pelos "suspeitos do costume"...

Cannes possui, de facto, uma "caderneta" de autores que, ao longo dos anos, foram elegendo o festival como lugar ideal de apresentação de novos trabalhos. É o caso do espanhol Pedro Almodóvar, eterno candidato à Palma de Ouro, este ano de novo presente com Julieta, ou ainda dos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne que, com La Fille Inconnue, podem cometer a proeza de arrebatar pela terceira vez o prémio principal.

Há mesmo personalidades que, por assim dizer, parecem ter assinaturas de presença em determinados períodos da suas carreiras. Acontece agora com duas emblemáticas "renovações": o australiano George Miller e o americano Woody Allen. Estiveram ambos em Cannes, em 2015, com títulos extra-concurso (Mad Max: Estrada da Fúria e Homem Irracional, respetivamente). O primeiro regressa como presidente do júri oficial; o segundo irá apresentar, de novo fora de competição, o seu trabalho mais recente: Café Society.

Como sempre apoiado num elenco de luxo - Kristen Stewart, Jesse Eisenberg, Blake Lively, Steve Carell, Judy Davis, etc. -, Woody Allen propõe-se agora revisitar os bastidores da indústria de Hollywood na década de 30 numa abordagem que, a julgar pelo trailer já divulgado, terá tanto de romântico como de sarcástico. Em todo o caso, podemos apostar que Café Society suscitará especial atenção em torno de outro nome envolvido na sua produção: o director de fotografia italiano Vittorio Storaro, três vezes "oscarizado" (com Apocalypse Now, Reds e O Último Imperador). É verdade que Storaro nunca parou de trabalhar, sendo, em particular, um colaborador regular do espanhol Carlos Saura; ainda assim, talvez desde O Pequeno Buda (1993), de Bernardo Bertolucci, não surgia associado a um filme com tantas ressonâncias mediáticas.

Roménia e Brasil em destaque

Há vários cineastas já distinguidos com a Palma de Ouro a reaparecer na secção competitiva. São eles, além dos irmãos Dardenne, o inglês Ken Loach (I, Daniel Blake) e o romeno Cristian Mungiu (Bacalaureat). E há também nomes cuja notoriedade não pode ser desligada de anteriores presenças em Cannes, com destaque para a inglesa Andrea Arnold (American Honey), o canadiano Xavier Dolan (Juste la Fin du Monde), o americano Jim Jarmusch (Paterson), o filipino Brillante Mendoza (Ma" Rosa) e o dinamarquês Nicolas Winding Refn (The Neon Demon).

Muito se vai falar também, por certo, do cinema da Roménia, já que, além do citado filme de Mungiu, a "nova vaga" romena surge ainda representada por Sieranevada, de Cristi Puiu. Isto sem esquecer o potencial polémico de mais dois americanos na competição: Jeff Nichols com Loving, abordando a relação de um homem branco e uma mulher negra nos EUA de 1958, e Sean Penn com The Last Face, sobre a ajuda humanitária num país africano em guerra (Charlize Theron é um dos nomes principais do elenco, tendo terminado a sua participação no filme já depois da sua separação de Penn).

Seja como for, para além dos habitués da Côte d"Azur, importa não minimizar as boas surpresas que a seleção oficial contém. A mais significativa será, muito provavelmente, o regresso do Brasil à corrida para a Palma de Ouro, com Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, depois de oito anos de ausência (foi em 2008 que Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, esteve na competição). Protagonizado pela veterana Sónia Braga, o filme narra a odisseia da derradeira inquilina de um prédio do Recife que é uma verdadeira relíquia arquitetónica, tentando resistir às decisões tomadas pela companhia que o adquiriu.

Entretanto, 2016 ficará também, por certo, como um ano essencial na confirmação da importância da secção de obras restauradas (Cannes Classics) na conceção geral do festival. Para além da possibilidade de redescoberta de títulos de Kenji Mizoguchi (Contos da Lua Vaga, 1953) Marlon Brando (Cinco Anos Depois, 1961) ou Andrei Tarkovski (Solaris, 1972), anuncia-se uma obra de mais de três horas, Voyage à Travers le Cinéma Français, através da qual Bertrand Tavernier propõe uma visão que ele próprio definiu como de "cronista e aventureiro", evocando os autores franceses que marcaram a sua trajectória pessoal e artística.

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