Brincando aos arqueólogos no Castelo dos Mouros

Miúdos entre os 6 e os 14 anos são convidados a explorar o Castelo dos Mouros com os olhos dos especialistas: levantando hipóteses e usando pincel e vassoura para encontrar vestígios.

Liliana e Miguel Guerra, os pais. Leonor e Manuel, os filhos. Trocaram a tarde de praia e um sol inclemente por um dia com arqueologia. Um dia com Arqueologia, que é o nome do atelier que o serviço educativo da Parques de Sintra lançou no domingo para as famílias que queiram ver o Castelo dos Mouros de maneira diferente. Repete uma vez por mês. A próxima é no dia 28 de agosto, e a reserva é obrigatória.

A família Guerra é de Cascais, a poucos quilómetros de Sintra, e o pai costuma estar atento ao Facebook da Parques de Sintra, que gere os monumentos da vila património cultural da UNESCO, e foi assim que descobriu que havia um programa de arqueologia para miúdos entre os 6 e os 14 anos. Inscreveu os filhos, de 6 e 9 anos.

O atelier recebe até 15 pessoas (8 euros por participante). No domingo, apesar de terem chegado ao limite das reservas, três famílias desistiram. "A praia levou a melhor", justifica a guia, Carla Ventura, ficando por conta dos Guerra.

Passa pouco das 15.00, o ponto de encontro são as bilheteiras do Castelo dos Mouros. A vegetação espessa mantém o calor longe. Leonor traz a máquina fotográfica cor-de-rosa e entretém-se a captar imagens de tudo o que vai vendo. Manuel é quem se mais interessado quando Carla Ventura desfia a história deste local "com mil anos de ocupação". Houve romanos por aqui, os mouros construíram muralhas. "Eram eles que aqui estavam quando Afonso Henriques conquistou esta zona", avança a guia. "A guerra foi em Lisboa, aqui vigiavam quem entrava pelo rio", explica. "Daqui via-se o castelo de Palmela". Hoje já é impossível. E quando o castelo de S. Jorge foi conquistado, deixou de fazer sentido manter o de Sintra ocupado e os mouros partiram.

Carla Ventura avança alguns séculos na História, a sua formação de base, e explica os efeitos pós-1755. "Sabem o que acontecem em 1755?" Manuel, que em setembro entra no 5.º ano, responde: "Um terremoto e um maremoto". Um dos acontecimentos que deixou marcas neste lugar. "Os arqueólogos trabalham com camadas, assumem que o mais recente está em cima, o mais antigo em baixo, um terremoto muda tudo", explica, com folhas cheias de imagens.

Depois da teoria, começa o passeio. Pelo caminho estreito do Castelo, esculpido à escarpa, e sujeito a obras para receber visitantes ao longo do tempo, chega-se a uns buracos escavados na rocha.

"O que são e para que serviriam?", lança a guia aos mais novos. "Os arqueólogos têm de pôr hipóteses", diz. Os buracos são, então, silos que foram encontrados por arqueólogos durante as campanhas realizadas no Castelo dos Mouros. "Serviam para guardar cereais e plantas leguminosas", conta Carla. "Tinham umas tampas muito grandes", acrescenta.

O passeio continua, com a guia a explicar que os caminhos que aqui se veem foram abertos por ordem do rei D. Fernando II, que também mandou construir o Palácio da Pena. No século XIX acreditava-se que o Castelo dos Mouros tinha sido palco de uma grande batalha. E que eram desse confronto os ossos que foram encontrados por aqui e que o monarca decidiu juntar num jazigo comum.

"Sabemos hoje que nunca aconteceu aqui uma batalha", continua Carla Ventura. "Aqui ficava um cemitério", diz. "Ao lado da igreja, como era habitual". É lá que continua a visita. A igreja deixou de ser lugar de culto e reúne peças encontradas por aqui, tão antigas que chegam à pré-história. Por exemplo, um vaso encontrado quase intacto pelos arqueólogos. "Depois de encontrado foi entregue aos conservadores restauradores".

O atelier termina no contentor que serviu de base a uma anterior campanha de escavações. Com as mãos na caixa cheia de terra, as crianças procuram pedaços de barro, (falsas) moedas antigas e até tampas de garrafas que servem para despistar. Leonor e Manuel usam a vassoura e a pá para encontrar os vestígios e um pincel mais pequeno para limpar o que resta. "Têm de desenhar", diz-lhes Carla Ventura, depois de ensinar como os arqueólogos fazem as quadrículas onde se escava. No final só é preciso colar os pedaços encontrados como se de um puzzle se tratasse. E receber o diploma de arqueólogo por um dia.

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