Assemble: "Tentamos envolver as pessoas nos nossos projetos"

São 18 jovens sub-30 os responsáveis pela proeza de ganhar o Turner Prize a salvar um bairro de má fama

Inscreveram a arquitetura na lista das artes reconhecidas pelo Turner Prize: um prémio para a arte contemporânea, atribuído pela Tate, que herdou o nome do famoso pintor britânico, e agita o mundo dos artistas e dos críticos anualmente, há mais de três décadas. É um prémio habituado a provocar e a dar que falar. Por isso, quando a lista de quatro finalistas deste ano foi conhecida, muitos pressentiram o resultado final. O estúdio de designers de arquitetura Assemble ganhou, com o projeto de Granby Four Streets: trabalhou com a comunidade local que, resiliente, há anos lutava para salvar este bairro de classe operária de má fama de Liverpool. Estalou, obviamente, a polémica. É arte? É arquitetura? Os 18 jovens Assemble (todos com menos de 30 anos) pouco se importam. Preocupam-se em fazer jus ao nome: juntar pessoas, pôr em prática desafios.

Trabalham juntos e por gosto em projetos de dimensão local - tudo começou em 2009 na mesa de um pub numa discussão sobre o que poderiam fazer para não se separarem no final da universidade. Nasceu um cinema de bairro a partir de uma bomba de gasolina abandonada (ver página ao lado). Foram chamados a Toxteth pelos moradores. Os desacatos que em 1981 tornaram o bairro tristemente famoso pareciam ter passado a fazer parte do ADN das casas e das ruas. Mas não das pessoas. Se para as autoridades este era um bairro sem valor comercial e a abater, para os moradores era muito mais. Juntaram-se para angariar fundos para pintar as paredes das casas devolutas ou plantar jardins nas ruas esquecidas. Contaminaram com este espírito os jovens do Assemble, que aí intervieram. E, surpreendentemente, o Turner Prize: "O júri atribuiu o prémio aos Assemble, que trabalham juntamente com as comunidades para alcançar uma aproximação à regeneração, ao planeamento urbano e ao desenvolvimento em oposição à gentrificação [reestruturação de espaços urbanos residenciais pobres com projetos destinados às classes média e alta] corporativa", estamparam os jurados na declaração final.

O DN quis saber mais sobre este coletivo que pôs em polvorosa o mundo da arte contemporânea. Ainda não sabem que destino dar aos cerca de 34 mil euros do prémio, mas é provável que o apliquem com a comunidade de artistas e carpinteiros com quem partilham o ateliê. Entrevista feita em troca de e-mails com Jane Hall, 28 anos, uma das fundadoras do Assemble.

O projeto de Granby Four Streets: é arte ou arquitetura? Isso importa ao (coletivo de arquitetos, designers e artistas) Assemble?

Granby Four Streets é um conjunto de projetos do qual a renovação das casas é apenas uma parte. Se aquilo que fazemos é arte ou não nunca foi o mais importante para nós. Estamos interessados em fazer um bom trabalho, e por vezes isso significa atuar como um arquiteto, outras vezes como um artista, outras como um organizador. Adotamos as ferramentas de que precisamos para responder às situações da forma mais efetiva e com a nossa identidade.

Os moradores contactaram o estúdio Assemble para, de certa forma, salvar o bairro. Como foi esse processo?

Os moradores estavam a tentar salvar as suas casas há mais de 20 anos, antes de nós começarmos a trabalhar com eles. Eles tomaram o controlo do seu bairro depois de anos de decadência e esquemas de recuperação falhados. Fomos convidados em 2012 para adaptar as casas devolutas e usá-las para impulsionar ainda mais a mudança. Isto começou por conhecer muito bem aquela comunidade, tornar-nos parte de uma equipa colaborando numa série de projetos e atuando de diferentes formas para concretizar a ambição da CLT [Community Land Trust's, a comunidade local] de pôr as habitações abandonadas de novo a uso.

Quais foram as grandes linhas desse trabalho? A imprensa refere que usaram materiais low-cost e reciclaram outros de casas que foram demolidas. Esta prática aconteceu especificamente para este projeto ou são soluções em que já tinham trabalhado?

Regra geral procuramos materiais que estejam disponíveis num projeto e se há alguns específicos daquele local. Fizemos uma aproximação similar ao nosso Café Oto [em Dalston, Hackney], onde construímos um espaço musical a partir das pedras que estavam na rua, comprimindo-as em sacos de plástico para fazer os blocos que formaram as paredes do edifício. Depois forrámos esta estrutura com materiais que encontrámos no local. Apesar de termos muito interesse no desperdício da construção e na reutilização, apenas usamos esta solução quando nos parece fazer sentido naquele projeto.

O Granby Workshop foi lançado durante a exposição do Turner Prize. Como está a correr?

O Granby Workshop é um projeto em curso para apoiar a cultura e a criatividade em que estão já tão presentes nesta comunidade. Todos os produtos são feitos pelos habitantes de Granby, que desenvolveram objetos para a casa. Ao apoiar o Granby Workshop não está só a comprar um lindo objeto artesanal mas também a contribuir para a produção cultural daquela comunidade (www.granbyworkshop.co.uk).

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