As coleiras achadas e outras histórias de escravos

O Museu de Arqueologia expõe a partir de hoje um conjunto de peças da escravatura, incluindo duas coleiras que se julgavam desaparecidas. É uma de 41 iniciativas que acontecem em Lisboa com a memória africana como fio condutor.

"Como este objeto escalda as mãos quando se lhe toca!", escreveu José Leite de Vasconcelos sobre a coleira de escravo que incorporou no início do século XX no acervo do então Museu Etnográfico Português, quando era diretor. No objeto está inscrita parte da história: "Este preto pertence a Agostinho de Lafetá Carvalhais de Óbidos" e pode ver-se a partir de hoje na exposição Um Museu. Tantas Coleções!, no Museu Nacional de Arqueologia, no Mosteiro dos Jerónimos, no âmbito de Lisboa Capital Ibero- Americana da Cultura.

São duas as coleiras de escravos que vão ser mostradas. "Duas das três que se conhecem", precisa o diretor do museu. "A outra está numa coleção privada, foi adquirida recentemente num leilão e diz apenas Conde de Vale Flor", conta.

Estes exemplares são "para o escravo doméstico", explica António Carvalho. "Reduz [a pessoa] a uma dimensão animalesca, todavia é uma espécie de bilhete de identidade do proprietário, para o caso de se perder ou de fugir". Estão datadas do século XVIII, "mas podem ter tido um tempo de vida maior", continua. Uma veio de Óbidos, a outra de Benavente.

Quando a exposição foi anunciada, as duas peças do museu estavam em paradeiro incerto. António Carvalho conta a história com cautela de cientista. "No início, éramos para exibir as cópias dos desenhos [das coleiras]", começa. "Era tradição oral neste museu dizer-se que esta coleira estava desaparecida", diz, referindo-se à peça de Óbidos. "[O fundador do museu] Leite de Vasconcelos deu a notícia da sua existência e deu a notícia de que a trouxe para a museu, sempre sem desenho". Estamos, então, em junho de 1908, precisa o atual diretor do Museu de Arqueologia.

Leite de Vasconcelos descobre-a durante uma visita ao Cadaval e ao Bombarral, uma das muitas excursões científicas que fez. Veio da torre do Carvalhal de Óbidos e estava no fundo falso de um armário. "Isto é o que se sabe", diz António Carvalho. "A última vez que temos uma prova de que a coleira foi vista é em 1954". Foi Antonieta Moura, que escreveu sobre as Terras dos Carvalhais, quem a viu. "Ela descreve que Manuel Heleno [diretor que sucedeu a Leite Vasconcelos à frente do museu] abriu uma gaveta e lhe mostrou". Oficialmente, é a última pessoa que vê a coleira. "Estava ao cima das escadas, num armário, na gaveta de baixo", cita de cor António Carvalho. E voltou a guardá-la.

José Saramago refere-se ao objeto na sua Viagem a Portugal, de 1981, colocando-a como figura central da visita ao museu. No entanto, diz António Carvalho, "não temos documentação que nos prove que estava coleira alguma vez tenha estado exposta".

O diretor do museu dá um salto até 1993. "Várias vezes entidades perguntaram por esta coleira e a resposta oficial foi sempre "não se sabe onde está, não se encontra".

O assunto ganha nova dimensão quando a investigadora Isabel Castro Henriques publica A Herança Africana em Lisboa. Em 2008, é-lhe facultado acesso à pasta de desenhos, presumivelmente produzidos nos anos 40, descobrindo que existiam duas coleiras. Publica que existem dois desenhos, mas não se encontram as coleiras. António Carvalho chama a atenção para um detalhe: "Como esta estava publicada e tinha número de inventário não havia dúvida que era do museu", diz, apontando para a coleira de Óbidos. "Como desta existia [apenas] desenho, eram mais cautelosos", afirma, a propósito da segunda coleira. Seria do museu?

"Acresce que não estavam arrumadas em etnografia", continua o diretor. Foi depois de as encontrar, acondicionadas numa secção que resta de arqueologia náutica e subaquática, que a propriedade da peça se pôs. "Se toda a gente fala desta [de Óbidos] e não fala desta [de Benavente], como é que posso ter a certeza que é do museu para expor?", perguntou-se António Carvalho.

Foi já este ano que o Museu de Arqueologia deslindou o mistério em torno da peça, analisando a legenda escrita à mão que acompanha o desenho: "Foi do dr. Borralho, riscando o "é" do dr. Borralho", que assim abria a porta a que a peça estivesse no acervo e não fosse apenas um registo em desenho, como acontece com outros objetos.

Passo seguinte: ir ao arquivo administrativo antigo do museu. Entre muitos documentos, descobriu-se um que deixava registo que "no dia 29 de outubro de 1944 se pedia autorização para comprar uma coleira de escravo que foi do doutor Borralho". "Passámos a ter a certeza que eram ambas do museu". Só não estava inventariada.

Ana Isabel Palma Santos, comissária da exposição, junta-se à conversa. "Um cidadão sem bilhete de identidade não existe, uma peça não inventariada não há registo dela", compara. "E o facto de nunca ter sido atribuído um número de inventário à coleira de Benavente fez com que nem sequer internamente fosse conhecida a sua existência".

Embora semelhantes na forma e no facto de terem inscrições, António Carvalho sublinha as diferenças. "Uma diz "este preto" , referindo-se à origem, a outra diz "este escravo", refere-se à condição do indivíduo".

Bolsas de população negra

Outros instrumentos de sujeição - grilhetas e correntes - estão na exposição. A comissária Ana Isabel Palma Santos é rigorosa: "Não tenho documentação que diga que foram de escravos". Mas várias informações apontam neste sentido.

"Temos indicação que uma foi recolhida no Sabugal e outra em Marvão, o resto não temos informação", nota a comissária, conservadora do museu. "Sabemos que há bolsas de população negra em Portugal na zona de Alter do Chão, por exemplo, e na zona do Sado. Populações que vieram para trabalhar nos campos, nomeadamente na agricultura". José Leite de Vasconcelos publicou um artigo, Os Mulatos do Sado, sobre a sobrevivência dessa população, ainda no século XIX. Nesta zona, "havia uma população com características africanas evidentes", refere a curadora.

A iconografia em redor do assunto, apesar de escassa - "estampas e gravuras dos séculos XVI, XVII e XVIII" - permite dizer que "era este tipo de instrumentos que se usava". Encontra-se em museus como o Metropolitan, em Nova Iorque, na Bélgica, no Brasil. E uma das paredes desta exposição resgata imagens - gravuras, um postal e figuras de barro - que representam os negros em Portugal no século XIX.

Das reservas do museu vieram também manilhas de ligas metálicas. Eram usadas para comprar escravos, no tempo da pré-moeda, como explica Lívia Cristina, também comissária da exposição. "Um escravo valia sete ou oito manilhas, mais tarde 40 ou 50", diz Lívia Cristina Coito, bibliotecária do museu, citando documentação conhecida.

As peças vieram de múltiplos acervos do Museu de Arqueologia e justificam o título -Um Museu. Tantas Coleções! "O ponto de exclamação é propositado", sublinha o diretor. "Se calhar não sabe que temos iconografia, documentos, manuscritos, gravuras, pintura, registos de santos, literatura, incunábulos, livros antigos", completa Lívia Cristina.

Um diversificado conjunto que faz jus ao primeiro nome da instituição, Museu Etnográfico Português, e ao trabalho de José Leite de Vasconcelos, diretor durante 36 anos, e Manuel Heleno, diretor durante 34.

Um Museu, Tantas Coleções!

Museu de Arqueologia, Lisboa

Aberto de terça a domingo, das 10.00 às 18.00

Bilhete: 5 euros; entrada livre até aos 12 anos, primeiro domingo do mês, visitantes mobilidade reduzida; desconto de 50% para maiores de 65 anos

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