As 400 imagens que revelam o fotógrafo Francisco Afonso Chaves

Naturalista conhecido e viajante intrépido, era também um fotógrafo incansável, cujo trabalho está agora no Museu do Chiado.

Naturalista, geofísico, meteorologista. O nome de Francisco Afonso Chaves é conhecido entre cientistas. O que se desconhecia era a sua faceta de fotógrafo que, trazida à luz em 2010, revelou um espólio de cerca de 7 mil imagens, a maioria estereoscópicas, que pertencem ao Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada. Uma seleção de cerca de 400 mostra-se a partir de hoje no Museu do Chiado, em Lisboa.

Como foi possível atravessarem o século XX na sombra? Victor dos Reis, curador da exposição A Imagem Paradoxal com Emília Tavares, explica que elas pertencem ao acervo de História Natural do museu açoriano, de que o coronel Afonso Chaves seria o primeiro diretor. Entregue pela família ao museu no início dos anos 60, o conjunto era já conhecido dos cientistas. Faltava o outro lado, o estético. Victor dos Reis conheceu-o por sugestão de um funcionário do museu quando organizou uma exposição no museu acoreano. Interessado nas imagens de Francisco Afonso Chaves acabaria torná-las no seu tema de pós-doc . "O protagonismo do observador nele surge nele de forma muito clara, adquirindo uma dimensão muito moderna", afirma, durante a visita guiada pela exposição. Emília Tavares acrescenta: "É uma duplicação do ponto em que ele está a ver a paisagem". Gente a avistar é tema recorrente no total da sua obra fotográfica, elevada a uma nova categoria com esta presença no Museu de Arte Contemporânea.

No cenário azul turquesa das paredes do Museu do Chiado, com um Kaiserpanomrama a receber os visitantes, Victor dos Reis e Emília Tavares, fazem as despesas de apresentação deste homem, filho do governador dos Açores, oriundo de uma família abastada e amigo do rei D. Carlos, mas também do príncipe Alberto I do Mónaco e, membro de várias sociedades científicas em vários países. Pelas faces - e visores - da máquina veem-se imagens de Paris, Londres, Marraquexe, Zanzibar... Da mais próxima à mais longínqua, com o efeito 3D possível, as imagens estereoscópicas foram aquelas que mais usou ao longo da sua vida, como era tradição à época.

Francisco Afonso Chaves, que haveria de chegar a coronel, tinha três anos quando chegou aos Açores, e 69 quando morreu em Ponta Delgada, em 1926. Foi professor e dedicou-se a montar pontos de observação meteorológica e captação de dados nos Açores, suportados muitas vezes pelas imagens. "A fotografia era quase compulsiva", concluiu Victor dos Reis, analisando a obra.

Maioritariamente científicas, as fotografias mostram os Açores e documentam as viagens de trabalho que foi fazendo. Esteve em África em 1906, "subsidiado pelo príncipe Alberto do Mónaco", para montar a Estação Meteorológica Internacional. Alguns diários destas expedições estão também na exposição. "Só escrevia o diário nas viagens", sublinha Victor dos Reis. Na chegada à Cidade do Cabo mostra-se maravilhado com "as novidades".

Poucos dos seus objetos resistiram à passagem do tempo. Restam um visor de estereoscopias e algumas caixas de vidros, mas os curadores trouxeram para a exposição, tudo o que era necessário para revelar estas imagens graças ao espólio de um fotógrafo amador, Adelino Furtado, à guarda do Arquivo de Documentação Fotográfica. Dele conversam-se tinas de revelação, vidros e muitas ferramentas.

Afonso Chaves escreveu pouco sobre o seu papel como fotógrafo, mas refere-se às fotografias que tira amiúde, notam os curadores. Entre 1901 e 1926, faz da estereoscopia a técnica principal. Os curadores evocam-na na série de caixas com óculos para ver em estereoscopia que vão aparecendo ao longo da exposição no primeiro andar do MNAC.

"As imagens eram reproduzidas em revistas científicas e essa é outra das razões da sua invisibilidade", nota Victor dos Reis. Um desses casos é a imagem do cachalote que acompanha um artigo científico de um cientista francês, em 1890.

A Imagem Paradoxal está no museu até 26 de fevereiro de 2017 e é a primeira de três exposições a partir do acervo do Afonso que Chaves que se vão fazer até agosto de 2017. Começam no MNAC, passam pelo Museu de História Natural, na rua da Escola Politécnica, onde o autor estudou, e terminam no Museu Carlos Machado, de que foi o primeiro diretor, transformando em núcleo museológico o acervo pedagógico reunido pelo seu professor de liceu Carlos Machado, que batiza o museu.

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