Alice no país das sombras do Teatro Negro de Praga

Amanhã no Centro Cultural de Belém estreia-se "Alice no País das Maravilhas"

"Preparamos todos os nossos espetáculos para toda a família, porque acho que o mundo é muito duro, a vida é difícil, as pessoas têm muitos problemas, e eu não quero que os problemas entrem no teatro. Por isso trabalhamos as obras que são ternurentas, que têm sentido de humor, para que as pessoas gostem muito. Ontem uma pessoa de Santander [Espanha] disse-me que o nosso espetáculo é um presente para os olhos." Pavel Marek sabe do que fala. O diretor e fundador do Teatro Negro Nacional de Praga, que amanhã estreia Alice no País das Maravilhas no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, descobriu o teatro de luz negra como solução para encenar e dizer o que a censura do regime comunista não permitia.

Agora, porém, os tempos mudaram: o comunismo caiu há quase trinta anos, e o teatro de luz negra, que se instaurou na República Checa por volta de 1960, diz Marek, permanece. Criada na China e chegada ao Japão no século XVIII, a técnica foi usada por George Meliès no cinema no século seguinte. No teatro, a caixa negra, conjugada com a luz negra (luz ultravioleta) cria um espetáculo onde a nossa visão tropeça em ilusões encenadas, diluindo as fronteiras entre realidade e fantasia, sombras e luzes. E arrisque-se dizer que talvez Lewis Carroll, criador de Alice, não se opusesse a ver o seu texto transposto para uma técnica assim.

Ao tradicional teatro de luz negra, Marek acrescentou "algumas inovações dentro dos espetáculos. Não trabalhamos apenas com os truques negros, mas com outras possibilidades cénicas: filmes, projetores, engenhos para voar, que são como entradas secretas na câmara escura, e em que conseguimos chegar muito perto do público". Estas técnicas e este teatro, que estarão em cena no CCB até quinta-feira, foram a escolha do diretor e fundador do Teatro Negro Nacional de Praga por outra razão, além da liberdade de expressão que permitem. "Atuamos sem palavra, a nossa língua, o nosso idioma, é a música, são os truques. Não precisamos de falar durante o espetáculo, por isso não temos fronteiras para o nosso trabalho. Atuamos aqui na Europa, atuamos na Rússia, na América... Pode compreender-se um espetáculo destes em todo o mundo", afirma Marek.

A companhia do teatro é composta por "atores, acrobatas, bailarinos clássicos, marionetistas..." A estes acrescem uma outra parte fundamental no espetáculo, para que nele possamos ver Alice, o Chapeleiro Louco, o Coelho Branco, ou a Rainha de Copas: os técnicos que trabalham na projeção, som e iluminação. O primeiro espetáculo da companhia e estreou-se há mais de vinte anos. Entretanto, já levaram a cena obras como As Viagens de Gulliver ou A Flauta Mágica, que agora preparam, diz Marek. Amanhã serão dez em palco, entre a sombra e a luz.

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