Alfarrabistas da Rua do Alecrim recebem ordem para sair

Alfarrabistas e antiquário da Rua do Alecrim receberam notificação do senhorio dizendo que os contratos não serão renovados. O Trindade Alfarrabista vai procurar nova casa

As estantes começam a ficar vazias. António Trindade está a guardar os livros em sacos. Não tinha planos para abrir no sábado passado, mas acedeu a conversar com o DN, depois de um longo post no Facebook, intitulado "Unilateralmente Despejados!" em que descreve as razões por que deverá os números 32-36, na Rua da Trindade, onde o pai, João Trindade, abriu o negócio de livraria e antiguidades, um negócio que vai na terceira geração.

A história começa com a lei que obrigou à renovação de contratos de arrendamento que estavam congelados. Em 2013, "respeitando a lei", assinaram um novo acordo por cinco com o senhorio, a Sociedade Imobiliária do Alecrim, detidas por descendentes de Sebastião Lorena. No dia 11 de março, António Trindade recebeu a carta em que a empresa informava que o contrato não seria renovado. Nem o dele nem o de nenhum dos comerciantes deste edifício. Ele, o antiquário, o alfarrabista Campos Trindade, seu primo. Setembro é a data de saída. "Aquilo que são as joias de Lisboa estão a desaparecer", afirma ao DN, interrompendo a conversa com José Paulo Cavalcanti Filho, o brasileiro colecionador de Fernando Pessoa, que, de passagem por Portugal, veio falar de negócios e da situação da loja.

"É só lojas gourmet e concept que abrem e fecham ao fim de seis meses", critica António Trindade. O seu negócio, que começou há três gerações em Alcobaça, com os avós, expandiu para Lisboa - com os três irmãos a trabalharem lado a lado na rua do Alecrim - deverá mudar para outra loja. "Vai ser difícil encontrar outra", afirma. Do outro lado, garante, "não há propostas", afirma, questionado sobre a possibilidade chegar a acordo para novo contrato com o fundo que detém o imóvel. "Nas primeiras semanas nem queriam falar connosco", afirma.

Se a Sociedade Imobiliária do Alecrim está, ou não, disponível para renegociar o contrato ou que futuro querem dar a este edifício, um dos vários que detêm neste quarteirão (incluindo o Palácio do Chiado), não se sabe. O DN contactou uma das proprietárias que remeteu para a empresa. Esta porém não atendeu nenhum dos vários contactos.

O alfarrabista nunca submeteu a loja a uma candidatura de Lojas com História. "Fui incauto", reconhece agora

"Isto é um bulldozer, um terramoto", diz António Trindade. Ou, como escreveu no Facebook: "Fica a aparência de uma cidade que já foi plural e distinta, e que, presentemente se verga a uma única atividade, o turismo. Quem visita Lisboa vê uma casca, o que lhe dava a vida, já desapareceu ou vai desaparecer."

Tem em vista uma loja no Carmo, a arrendar a uma particular, e diz que pode ir para outra loja de Lisboa, mas "isto funciona como um circuito. "As pessoas como o senhor Cavalcanti vêm a Lisboa para ir ao senhor Bobone, ao senhor Rodrigues, ao Pedro Castro Silva, aos Trindades", afirma. "Isto era a rua dos Trindades. Funciona como um cluster", continua António Trindade, o único dos inquilinos que recebeu ordem de saída que falou ao DN. O Centro Antiquário do Alecrim estava encerrado no sábado e na livraria Campos Trindade não quiseram prestar declarações. Restará apenas um Trindade, dos três que se estabeleceram aqui entre os anos 60 e 80, o antiquário do outro lado da rua, tio de António, que é proprietário da sua loja.

Continua António Trindade: "A minha pergunta para Câmara é: querem negócios vazios ou coisas autênticas?" E pede "medidas urgentes que garantam que as pessoas que estão aqui há décadas possam continuar o seu negócio".

A Câmara Municipal de Lisboa respondeu, em 2015, com a criação do programa Lojas com História, para preservar espaços e negócios característicos da cidade de Lisboa, "movido por um sentido de urgência na preservação e dinamização deste património, sabendo que nele reside uma parte relevante da identidade e carácter da cidade e que é, ao mesmo tempo, um importante mecanismo social e económico para o seu desenvolvimento", lê-se no seu site. Inclui um património que vai das Pastéis de Belém, o café A Brasileira ou as livrarias Ferin e Aillaud & Lellos. Esta última, no entanto, apesar de ser uma Loja com História não continuará, por decisão dos livreiros, do Porto, que tinham concessionado o espaço. Apesar da distinção, os negócios só continuam se quiserem.

Podem candidatar-se, segundo os requisitos da autarquia, lojas com mais de 25 anos, últimos representantes de atividades e ofícios, bons exemplos de gestão duradoura, produção local e utilização de matéria-prima e produtos nacionais, entre outros critérios descritos na página oficial Lojas com História.

"Estiveram cá esta semana", diz António Trindade, mostrando o livro que conta a história dos Trindades alfarrabistas. "Os meus avós eram antiquários e alfarrabistas, conhecimentos que passaram e progrediram na nossa família. Provavelmente, a família que há mais tempo está neste negócio e que teve a sua origem em frente do Mosteiro de Alcobaça na década de 30 do século XX com os meus avós."

O alfarrabista, porém, nunca tinha submetido a loja a uma candidatura. "Fui incauto", reconhece agora. Diz ter acreditado chegaria a acordo com o senhorio quando este contrato de cinco anos terminasse. "Se não encontra uma loja vou ter de encaixotar tudo. Faria um alfarrabista gourmet se pudesse, mas não é fácil".

Visita assídua desde o início do século XXI, José Paulo Cavalcanti filho despede-se. "Lisboa ainda não está destruída, mas é preciso ter cuidado", sentencia, com a promessa de voltar em maio.

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