Agora ao contrário: os desenhos passam do palco para um livro

De "O que Diz Molero" a "Frutoscópio", António Jorge Gonçalves deixa a sua marca no palco. No livro "Desenhos Efeméros", que será hoje apresentado, conta como se tornou um mestre do "desenho digital ao vivo".

Em Lisboa, Quem És Tu? os desenhos eram animados e projetados nas paredes do Castelo de São Jorge. Em O Telhado do Mundo, Filipe Raposo tocava piano, Ondjaki escrevia e António Jorge Gonçalves desenhava. E tudo isso acontecia à nossa frente, em três dimensões. No espetáculo infantil A Montanha, António usava um retroprojetor e desenhava cenários e personagens que iam interagindo com a atriz Ana Brandão.

O interesse de António Jorge Gonçalves pelo palco começou ainda miúdo, com a música e as bandas que teve com os amigos. Mas a aventura do teatro começou, lembra, com O Que Diz Molero?, o espetáculo imaginado em 1994 por Nuno Artur Silva a partir do texto de Dinis Machado. No palco estavam António Feio e José Pedro Gomes. Começou por fazer uns desenhos para serem projetados, em jeito de cenário, mas acabou a fazer "tudo", incluindo a caracterização e os figurinos, mesmo sem fazer a mínima ideia do que seria desenhar figurinos. "Um dia chego aos ensaios e o Zé Pedro está com o fato que eu tinha desenhado, e ele era muito melhor que os meus desenhos! Não há desenho, não há personagem que eu desenhe que possa ser tão boa como aquele ser humano que está em palco." E foi a partir daí, talvez, que percebeu que o teatro tem a ver com estar vivo. Mais do que com desenhos.

Ainda demoraria, no entanto, até fazer a primeira experiência de desenho digital ao vivo. Antes disso, comprou o seu primeiro computador e foi para Londres estudar cenografia de teatro e ver muitos espetáculos. Iniciou o projeto Subway Life - desenhos de pessoas que encontrava no metro. Desenhos feitos rapidamente, no tempo de uma viagem. Essa foi a génese: "Aquele desenho não está acabado quando eu achar que está bem desenhado, está acabado no tempo que existe. Tal como num palco."

É da junção destas experiências todas que nasce o autor-performer. E os desafios são mais do que muitos. Desenhar em palco, à vista de todos, ao vivo, no momento, tal como um ator ou um músico. Desenhar num computador e projetar essa imagem - num cenário, numa pessoa, numa parede, num chão, num monumento ou até na copa de uma árvore, como aconteceu em 2005 no Festival Au Parc Pasteur, em Orleans, França. Desenhar em conjunto com os outros que estão no palco - como uma colaboração, em vez do trabalho solitário, à secretária, como é costume.

E, no entanto, se lhe perguntarmos, ele dirá que o primeiro desafio que teve de vencer não foi nenhum destes: foi o de aceitar a imperfeição e a efemeridade dos desenhos feitos ao vivo. "Estava habituado a ver os meu desenhos como um prato confecionado. Quando fazemos desenhos para um livro sabemos que são objetos que nos vão sobreviver e por isso queremos que sejam o melhor possível. Desenhava no meu ateliê, sozinho, e mostrava às pessoas o resultado final", conta. "Mas, ali, num ato performativo, como as pessoas estavam a ver tudo, tive que aceitar que o processo, com as suas falhas, era mais interessante do que o resultado final, e que esse resultado nunca seria perfeito."

Tratava-se "relaxar e encontrar um groove, um fluxo no desenho, o prazer da coreografia da mão", mais do que a perfeição. " Ou seja, pensar menos e deixar que as ideias fluíssem. Sem policiamento. "Tive que aprender a escutar. A improvisação é igual a uma conversa, temos que construir pontes com a outra pessoa que está connosco no palco", conta.

De então para cá, a lista de espetáculos em que participou não pára de crescer. De autor de banda desenhada e de livros ilustrados (que ainda é - há um livro pronto, Estás Tão Crescida, que será editado em fevereiro pela Pato Lógico) o seu nome começou a ser cada vez mais associado às artes do palco. Todas elas. Comédia, ópera, espetáculos infantis, concertos, dança, eventos variados.

Acima de tudo, uma certeza: "Não vejo isto como um ato tecnológico. A criação é, na verdade, analógica; o computador é só um mediador." Não se deixa fascinar pelas possibilidades tecnológicas: "A emoção é mais importante do que os efeitos." De tal forma que, ultimamente, tem preferido usar um retroprojetor de transparências - que em termos tecnológicos é um recuo. "Não é muito sofisticado, não há muita subtileza, mas possibilita uma outra relação com o objeto e com o público."

Todas estas experiências são relatadas em Desenhos Efémeros, livro sobre a carreira performática de António Jorge Gonçalves, que é também, e paradoxalmente, uma forma de tornar menos efémera esta experiência. O livro é lançado hoje, às 18.30, no Teatro São Luiz, em Lisboa - com a participação daqueles que assinam textos na obra (Nuno Artur Silva, Rui Eduardo Paes, Carlos Pimenta, Pedro Moura) e a moderação de Anabela Mota Ribeiro; e ainda com direito a uma pequena performance de António Jorge Gonçalves com o pianista Filipe Raposo.

Desenhos Efémeros
António Jorge Gonçalves
Editora Orfeu Negro
PVP: 25,19 euros

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