Abraão Vicente: "O crioulo deve ter a dignidade de ser a língua oficial de Cabo Verde"

Entrevista com o ministro da Cultura de Cabo Verde, Abraão Vicente

O ministro da Cultura de Cabo Verde, Abraão Vicente, esteve na sessão final do VII Encontro de Escritores de Língua Portuguesa onde mais de vinte autores deram a partida a duas semanas de debates sobre a cultura na Cidade da Praia, que se prolongam pela primeira edição do Festival Morabeza que tem início hoje.

Porquê o nome de Morabeza para o novo festival?

É a palavra cabo-verdiana que usamos para explicar o espírito natural deste povo ao querer que os visitantes os conheçam bem. Queremos abrir as portas de Cabo Verde à literatura lusófona e a escritores que tenham obra consagrada e desse modo possam ajudar-nos a promover os nossos autores. A intenção é dar palco aos mais conhecidos, como o Prémio Camões, Arménio Vieira, bem como repescar nomes do século XX que ficaram no esquecimento.

E as novas vozes?

Se convidámos Oswaldo Osório, Joaquim Arena, Fátima Fernandes, Vera Duarte ou Germano de Almeida, a nova geração não está esquecida: Chissana Magalhães, Daniel Medina, Carmelita Gonçalves, Silvino Évora, e um conjunto de vozes emergentes, alguns sem livros publicados. Acreditamos que seja preciso dar-lhes espaço para conviver com Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Valter Hugo Mãe e Afonso Cruz e perceberem as novas dinâmicas.

A edição ainda é um dos maiores problemas?

Sim, temos duas ou três editoras mas não existe mercado entre o meio milhão de habitantes em que a leitura não é propriamente a primeira preocupação.

A diáspora não procura estes autores?

Há uma deficiência de distribuição, por isso o Morabeza será também um pretexto para se relançar a política pública de incentivo à leitura e ao livro através da Biblioteca Nacional e criar um conceito de promoção do país, pois os convidados acabarão por levar a palavra para fora ou escreverão algo sobre o país.

Tem sido um festival polémico...

É verdade, tem existido algum alvoroço porque todos querem participar numa primeira edição.

Não são os consagrados que contestam?

Não, houve foi um pequena construção de uma polémica que já se esvaziou. Noticiou-se que Germano Almeida, Arménio Vieira e José Luís Tavares iriam boicotar, o que foi desmentido com a participação dos dois primeiros. O terceiro sim, recusou, mas é normal e não podemos ter numa primeira edição todos os nomes.

O que fez nascer esta polémica?

Estão no seu direito num país onde nunca houve uma iniciativa destas, na qual estamos a investir muito dinheiro e daí ser normal haver uma grande expectativa.

Quem paga o Morabeza?

Estranhamente, é a iniciativa privada que financia 90 % do festival, cerca de 100 mil euros no total.

Até que ponto o festival poderá levar à internacionalização de autores?

O pretexto é a literatura, mas há uma predominância de poetas em Cabo Verde e esse não é um foco de edição estrangeiro. Posso avançar, no entanto, que em 2018 negociaremos direitos de autor para as línguas inglesa e francesa.

Em 2014 criticava a ausência de uma política cultural. O que fez para contrariar?

Acho que o tenho feito e com mais transparência, pois não financiamos ninguém por afinidade política ou proximidade pessoal com o ministro. Acredito que o Estado não deve sair da Cultura e o grande passo é, por exemplo, apoiar a existência de auditórios. Quando se fala da internacionalização dos músicos cabo-verdianos, também se deve dizer que a maior parte deles não conhece a ilha ao lado. Ou seja, não se cria por decreto uma geração de criadores em todas as áreas.

Este festival vai alterar o panorama cultural?

Não acredito em revoluções, sou um ministro que prefere processos de trabalho e hábitos. Um evento não muda nada, antes será um primeiro passo para dar uma visibilidade consistente a um conjunto de autores e a outros que não tem obras editadas.

A língua portuguesa ainda serve de veículo?

Sim e em Cabo Verde é a língua oficial. Mesmo que e seja um acérrimo defensor da oficialização do crioulo como língua materna e oficial, não um crioulo padronizado mas com todos os sotaques. O crioulo é o maior património construído pelos cabo-verdianos, daí que assuma que o português deverá ser a segunda língua, pois a grande maioria da população não a fala em casa e enquanto não entram no sistema educativo não o aprendem. Reconhecemos que os alunos devem aprender um português num nível de excelência, mas também devemos dar passos para valorizar o crioulo. O crioulo deve ter a dignidade de ser a língua oficial de Cabo Verde e o primeiro passo será sua oficialização simbólica. A própria Constituição o diz no artigo nove.

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