A música de Ravel regressa à infância numa ópera-concerto no São Carlos

Joana Carneiro dirige, James Bonas encenou. L"Enfant et les Sortilèges estreou-se em 1925 e regressa ao São Carlos. Uma viagem musical ao quarto de um menino sozinho e triste, num espetáculo pensado para toda a família

Nos camarins do Teatro Nacional de São Carlos, cantores e músicos preparam o ensaio. O frenesim é grande nos bastidores de um dos teatros mais emblemáticos da capital. Na sala de figuração masculina, há um miniconcerto a começar onde até se canta música de Natal. Os cantores do Coro Juvenil de Lisboa aquecem a voz com exercícios guiados pelo maestro Nuno Margarido Lopes. Na semana de férias do Natal, os mais novos aproveitam para conviver e experienciar cantar uma ópera em palco, lado a lado com "uma grande orquestra e solistas conhecidos", como diz Leonor. Está quase a estrear-se L"Enfant et les Sortilèges, a fantasia lírica de Maurice Ravel, e eles fazem parte do espetáculo.

"Tem sido uma experiência diferente, todos os dias, normalmente só ensaiam ao domingo", assegura o maestro, enquanto todos se riem quando o gravador se vira para Duarte, "um elemento especial" do grupo que destaca a "partilha" como a melhor parte deste trabalho. "É uma experiência muito rica para eles, sobretudo no convívio", diz o maestro à medida que dedilha as escalas no órgão eletrónico, e os alunos o seguem de voz cristalina e muito entusiasmo.

Corredores fora, cantores, solistas, músicos, técnicos e funcionários do teatro vão aproveitando os últimos minutos para afinar detalhes. Nos ecrãs da direção de cena, o palco ganha vida já com muitos elementos da orquestra a ocupar o seu lugar. Atrás das cortinas, a azáfama cumpre-se nos últimos preparativos, entre instruções e últimas diretrizes, enquanto o contrarregra Herlânder Valente explica ao DN que os pequenos conjuntos de roupa, régua e mochila dispostos na mesa pertencem aos adereços dos jovens cantores que interpretam os alunos de Aritmética na peça. "Os ensaios estão a correr bem e com as crianças por aqui o ambiente é muito bom", diz o profissional responsável pelas entradas e saídas dos atores em cena, neste caso, cantores.

Em cena, os instrumentos já são muitos nas mãos e no coração das várias dezenas de músicos que seguirão o movimento ágil de Joana Carneiro, na direção musical do espetáculo L"Enfant et les Sortilèges, de Maurice Ravel, com estreia hoje, no Teatro Nacional de São Carlos. "Está tudo bem? Está tudo pronto?", pergunta a maestrina, de sorriso largo e rabo-de-cavalo, enquanto se junta à equipa para chegar ao palco. Entre o abrir e fechar de portas, numa atmosfera a baixa luz, há alguém que aproveita o vão da escada para aquecer as cordas do violino. Joana Carneiro encaminha-se para dirigir um ensemble de nove cantores portugueses, o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, o Coro Juvenil de Lisboa e a Orquestra Sinfónica Portuguesa.

A viagem de miúdos e graúdos

Estreada em 1925 e de regresso ao São Carlos - já não era encenada desde os anos 1980 - a fantasia lírica de Maurice Ravel integra o enredo da escritora francesa Colette que em menos de oito dias, em 1914, escreve um poema em prosa que viria a transformar-se num libreto em duas partes.

O solista João Pedro Cabral, 30 anos, será o professor de Matemática "furioso", mas é vestido de bule que troca umas palavras com o DN, momentos antes de entrar em palco, enquanto alguém do guarda-roupa confere as pilhas do fato insuflável. "Ele não estava assim antes do Natal", ouve-se, entre risos. "Quando desinchar, faço de professor e ainda de rã, e também canto!", conta o tenor.

A experiência, algo mágica, é pensada para toda a família. É a última composição lírica de Maurice Ravel, considerada a mais valiosa, em que retrata o mundo de um menino que é repreendido pela mãe e deixado sozinho no seu quarto. Rebelde e turbulento, atormenta e magoa objetos como a cadeira, o relógio de pé alto, o bule, a chávena, o fogo, até as personagens de um papel de parede rasgado e os seus deveres de aritmética, mas não tarda a que todos se virem contra ele, até as árvores e os animais. Ao dar-se conta das consequências das suas ações, a criança, através de uma viagem espiritual, conhece o amor, a amizade e o perdão, numa obra sobre a infância, o respeito e a liberdade. A partitura de Ravel habita um aparato cénico fora do comum e oferece um espetáculo de ópera que pode ser um concerto, mas que acima de tudo imita a fábula.

E são muitas as surpresas preparadas pelo encenador britânico James Bonas que estudou Psicologia e Filosofia na Universidade de Oxford. O também ator está a "adorar" a primeira colaboração com o São Carlos e prepara uma peça que começa por ser um concerto muito normal mas que depois se transforma em "algo muito estranho com uma grande quebra". A partir daí tudo pode acontecer e há movimentações não só em cima como fora do palco. "O que eu quis aqui fazer foi esbater as fronteiras e barreiras físicas, os cantores surgem de vários lados, há alguém que aparece atrás dum relógio, o que se pretende é tornar o espetáculo mais intimista, onde todos se misturam, o público vai sentir isso", revela o artista, deixando o recado para todos aqueles que se deixam levar pela imaginação. "Esta história é contada de uma forma muito especial e os mais novos vão conseguir fazer uma viagem muito interessante", assegura, enquanto se dirige para a sala. Joana Carneiro já está sentada de batuta na mão. Os músicos e solistas estão a postos. A história de Ravel vai começar.

L"Enfant et les Sortilèges
Teatro Nacional de São Carlos
De 28 a 29 e 30 de dezembro e de 4 a 6 de janeiro de 2018
Bilhetes de 10 a 30 euros

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