"A minha carreira está começando hoje. O passado, nem sei se existiu"

O músico brasileiro regressa a Portugal para mais dois concertos: amanhã no Auditório Municipal do Fórum Cultural do Seixal e, na quinta-feira, no Teatro Tivoli, em Lisboa

A mãe chamava-lhe "meu toquinho de gente" e o nome de Antonio haveria de ficar aquele. Depois de dois espetáculos esgotados em abril, em Lisboa e no Porto, na digressão em que celebra cinco décadas de carreira, Toquinho volta a deixar o Brasil onde vive e de onde atende o telefone para esta conversa, e regressa a Portugal para dois concertos. Amanhã leva clássicos como Aquarela ou Tarde em Itapoã ao Auditório Municipal do Fórum Cultural do Seixal e, na quinta-feira, regressa ao Teatro Tivoli, em Lisboa, acompanhado aqui e ali pela voz de Camilla Faustino e João Ventura no piano.

Toda a gente continua a chamar-lhe Toquinho?

Sim. Só as namoradas me chamam de Antonio.

Conta que o seu pai ouvia muita música. Quando é que começa a tocar violão?

Eu tive uma educação musical contínua pelo bom gosto do meu pai, da minha mãe também, que tocava violino, mas nunca tive afinidade com o violino. O violão entrou na vida dos brasileiros da classe média do Brasil depois do advento da bossa nova, do João Gilberto, no final da década de 50. Toda a minha geração, [Gilberto] Gil, Caetano [Veloso], Chico [Buarque], [Maria] Bethânia, tocamos violão por causa dele. Ele é que colocou o instrumento no coração da família de novo. Era um instrumento de boémios, de pessoas que ficavam na noite. Aí passou a ser uma coisa mais respeitada pela família brasileira. Nessa época eu tinha 12 anos, comecei a estudar seriamente com professores muito gabaritados, Paulinho Nogueira, Isaías Sávio.

Lembra-se do primeiro impacto ao ouvir João Gilberto?

Foi um impacto que toda a minha geração sofreu. Aquele samba colocado daquela maneira... Era tudo uma grande novidade, era a bossa nova. Ele é a bossa nova. Para mim o único que faz bossa nova é o João Gilberto, ele é a semente de toda a transformação da música brasileira. Chega de Saudade é um ponto de partida enorme para essa transformação.

No livro em que conta a história da bossa nova, Chega de Saudade, Ruy Castro diz que o Toquinho foi a primeira pessoa a "profissionalizar" o Vinicius de Moraes. Foi assim?

O Vinicius era um cosmonauta. Essa relação da gente durou quase 11 anos, fizemos mais de 130 músicas, mais de mil shows juntos. Realmente ele era muito disperso, era diplomata, não era um showman, e eu comecei a trabalhar com ele e a organizar um pouco a vida profissional dele, fazia tudo para nós dois. Mas essa é a parte mais fácil de administrar, a mais difícil é compor, fazer canções, administrar o amor e a amizade na relação.

Como compunham juntos? À noite?

Não, a toda a hora. Eu toco violão, estudo, todos os dias. Me atraso para os compromissos porque fico tocando violão, para mim é um prazer, não tem nenhum peso de profissionalismo, que vem depois. O Marcello Mastroianni falou que "ser ator era um sacrifício, mas era melhor do que trabalhar". Tocar violão é muito melhor do que trabalhar. Eu tocava violão todo o tempo com o Vinicius. Nós estávamos sempre juntos, praticamente morávamos juntos. As músicas saiam aos borbotões, o tempo inteiro.

Começava sempre pela música e a letra vinha depois?

Geralmente a música vinha antes. Eu fazia a canção, ficávamos curtindo a música, tocando ela várias vezes, aí depois deixava num gravador para o Vinicius e ele ficava amadurecendo a ideia e brigando com as palavras. Assim era mais ou menos o processo. Mas teve umas duas ou três canções que eu fiz musicando poemas dele, Tarde em Itapoã, feita na Bahia, um soneto, São Demais os Perigos Desta Vida, muito bonito também, e O Poeta Aprendiz.

Há pouco falava da sua geração. A anterior acolheu-vos bem? Estou a pensar em si, ou no Chico Buarque a trabalhar com o Tom Jobim.

Não acho que tivemos livre acesso nos primeiros anos de nossas carreiras. Depois que fomos consolidando a nossa trajetória as coisas foram melhorando. Mas de cara acho que não sentimos isso. Foi só mesmo com uma comprovação de talento, de categoria. A geração anterior impunha uns certos rigores para abrir caminho para a nova. A gente conseguiu entrar de forma muito harmoniosa. Trabalhei com o Tom durante um ano inteiro, com Baden [Powell] muitas vezes. Essa fusão se deu naturalmente, mas mais por uma comprovação de talento da gente do que de generosidade deles.

Quando faz um espetáculo destes em que toca clássicos como Aquarela ou Tarde em Itapoã fica nostálgico?

Não. Eu não sou nostálgico para nada. Não suporto essa frase: "Bons tempos aqueles." Não. Bons tempos são esses, agora. Tem uma frase do Paulinho da Viola muito bonita. Ele fala: "Eu não vivo no passado, o passado vive em mim." É diferente. Eu canto as canções de uma forma nova, não nostálgica.

Pensa muito em quem tem à sua frente na plateia?

Penso muito. Eu não sou artista ditatorial, acho isso horroroso. O artista que chega e diz: "A litania que eu vou cantar é essa." Não. Eu vou ver o que o público quer. Se o público estiver curtindo o lado instrumental, vou tocar mais. Se o público gostar de cantar, vou cantar canções conhecidas. É um ato de amor o show; é que nem um homem ser egoísta e não pensar na mulher no ato sexual. O show é como um ato sexual. Quando vou cantar uma música nova, eu peço perdão, licença, para o público.

Este é o ponto alto da sua relação com Portugal, ou já houve outros?

Eu fiquei muito apreensivo durante anos com Portugal, porque era um país da Europa com quem eu queria tanto trabalhar, mas ninguém me chamava.

E com músicos portugueses?

Tenho muita vontade de fazer alguma coisa com a Carminho, cantora que eu adoro. Com o Carlos do Carmo, esse grande cantor português, já tivemos participação aqui no Brasil, sou muito amigo dele. E tive vários encontros com a grande força que foi Amália Rodrigues. Tínhamos o mesmo empresário na Itália e nos cruzamos várias vezes em varias tournés. Já dividimos o palco.

Que recordações tem dela?

Boas e sóbrias. Ela era sempre muito objetiva, sóbria, sem muitas brincadeiras, mas sempre jantávamos juntos e brincávamos um pouco, não muito. Ela era sempre muito amável mas com um certo distanciamento.

O que é que vê no seu futuro?

A minha carreira está começando hoje. O passado nem sei se existiu, é uma coisa que está lá atrás. Estou preocupado com o aqui e agora. Estou agora com músicas novas com o Paulo César Pinheiro, poeta brasileiro, e devemos fazer um disco este ano ainda. É um trabalho que é capaz de ser muito oportuno agora, nessa altura dos acontecimentos.

Como é que tem vivido a atual situação política e social do Brasil?

Eu estou absolutamente otimista porque o Brasil está provando que as instituições estão sendo respeitadas. O que está acontecendo agora é uma limpeza nessa sujeira de anos e anos. O Brasil é um país corrupto há muitos anos. A impunidade era uma coisa que pairava na política brasileira. Hoje vários políticos intocáveis estão na cadeia. Como é que eu posso olhar com pessimismo isso? O Sérgio Moro está conseguindo, e as leis estão sendo mudadas. O país estava nas mãos de velhos políticos, viciados e corruptos, e está sendo feita uma grande limpeza. Estou muito animado com o meu país, apesar de estarmos atravessando um caos político, porque, claro, se você vai limpar um banheiro, vai ter de sujar suas mãos.

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