A hora e a vez do cinema francês

Ontem foi um dia especial, com os novos filmes de Laurent Cantet e André Techiné.

Há duas tradições irónicas do Festival de Cannes que sempre se cumprem. A primeira decorre da certeza de que em algum dia haverá chuva... Este ano, ainda que de forma discreta, já se cumpriu. A outra tem a ver com esse misto de surpresa e indignação que, a certa altura, nos leva a dizer: "Mas porque é que este filme não esta na competição?"

Assim é, de facto: há filmes "empurrados" para as secções paralelas que, pelas suas qualidades, se destacariam, sem esforço, de vários títulos que concorrem para a Palma de Ouro. Este ano, o caso mais gritante será o absolutamente admirável L"Atelier, de Laurent Cantet, mesmo se não podemos deixar de compreender a sua ausência do lote a ser avaliado pelo júri presidido por Pedro Almodóvar. Acontece que L"Atelier, centrado nas relações entre a professora e os participantes de um ateliê de escrita, em La Ciotat, tem argumento de Cantet e do seu colaborador habitual, Robin Campillo, que, por sua vez, está na competição oficial (com 120 Battements par Minute, evocando as lutas pela divulgação e tratamento da sida no começo da década de 90).

Seja como for, estamos perante um filme capaz de encenar as tensões no interior de um grupo muito particular, refletindo temas e tensões do presente. O fulcro da intriga envolve a professora (Marina Fois) e um dos alunos (Matthieu Lucci) que circula por meios próximos da extrema-direita francesa. Digamos, para simplificar, que L"Atelier percorre todos os temas que a situação envolve, desde as questões de inserção social até ao envolvimento/alheamento político dos mais jovens. O certo é que o faz através de um espírito humanista cujas raízes francesas estão na obra de Jean Renoir: com ou sem razão, todas as personagens têm direito a expor as suas razões.

Já vencedor de uma Palma de Ouro, em 2008, com A Turma (com a colaboração de Campillo, precisamente), Cantet fica, assim, como o grande "ignorado" desta edição. O mesmo não se poderá dizer de André Téchiné, objeto de uma belíssima sessão de homenagem do festival, incluindo a apresentação do seu novo e magnífico Nos Années Folles. A partir de uma historia verídica, acompanhamos a odisseia de um par que se transforma quando o homem, depois de desertar do exército francês, em plena Primeira Guerra Mundial, assume uma identidade feminina: o par mantém-se como uma espécie de palco multifacetado da sexualidade, conseguindo Téchiné mostrar o amor, não como a união dos sexos, antes como a sua metódica dissolução.

A sessão contou com a presença das grandes atrizes que têm surgido nos filmes do cineasta, incluindo Catherine Deneuve, Juliette Binoche, Emmanuelle Beart e Isabelle Huppert. Nomeando-as a todas, Techiné agradeceu em particular a Deneuve, reconhecendo-a como uma figura essencial na sua obra e na sua vida - Téchiné já a dirigiu em sete filmes.

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