A história do menino mapuche que não roubou o cão

O novo livro de Luis Sepúlveda conta a 'História de um cão chamado Leal'. Um relato arrebatador de uma amizade entre um menino índio e um pastor alemão.

Esta fábula é pagamento de uma promessa aos seus avós ou um regresso às memórias de infância?

É um pouco das duas situações mas, principalmente, é o pagamento de uma dívida a uma criança mapuche que conheci em 2010, aquando do terramoto que abalou o Chile. Foi um tremor terrível que destruiu meio milhão de casas na região onde vivem os mapuches, daí que nos tenhamos organizado para reconstruir uma escola. Enquanto recuperávamos o edifício com ajuda da comunidade, vi um menino de oito anos muito triste. O que era algo muito estranho porque na cultura mapuche o trabalho é coletivo e torna-se uma festa alegre. Uma criança naquele estado, mesmo que as réplicas fizessem a terra tremer a cada meia hora, fez com que me aproximasse dele e perguntasse o que se passava. Contou-me que uns dias antes, a polícia ficara-lhe com o seu cão.

Porquê?

A justificação era de que um cão de raça como aquele só poderia ser roubado. Tiveram um pensamento racista: um menino índio e um pastor alemão era igual a um cão roubado. Nunca poderia ser dele! Esse era o motivo da sua tristeza. Disse-lhe que como ele era leal ao cão, acreditava que o cão se apercebera disso e que um dia regressaria. Não era grande consolo, mas saí dali com a certeza que tinha de escrever esta história, com o final que lhe tinha dito: de um reencontro. E assim nasceu esta história.

O tema do livro é a relação do homem com a natureza. Isso ainda entusiasma o leitor atual?

Até onde conheço os meus leitores, sei que sentem atração por histórias que descrevam o ambiente da natureza e o mundo animal. Mas o livro é uma fábula. Esta é a quarta que escrevo, porque sempre me interessei por este género literário.

Foi fácil ser um narrador cão?

Não, tive que investigar bastante para perceber o comportamento dos cães. Como vê, o que vê, qual o espetro cromático que distingue. Só assim a narrativa seria credível. Li muito sobre biologia canina para entender também o mecanismo de perceção olfativa dos cães.

Como a capacidade de cheirar o medo nos homens?

Exato, mesmo que essa se verifique inconscientemente em todos os seres vivos. A atração entre um homem e uma mulher, mais do que o lado visual da beleza, deve-se às hormonas e feromonas que captam. A atração é sensorial e o mesmo acontece no mundo animal.

A grande investigação foi, então, sobre o mundo animal?

Sobre o mundo animal e também com um estudo antropológico sobre o mundo mapuche. Queria saber mais, apesar de que como era um livro para todos os leitores fosse necessário transformar a informação científica em literatura. Havia que resumir o conhecimento de várias páginas só em três linhas.

Nota-se uma defesa dos mapuches. São uma cultura ameaçada?

Sim, é uma realidade cruel porque todas as culturas originárias do continente americano estão ameaçadas. Mas o mesmo se passa na Europa, como o extermínio que os habitantes da Lapónia sofrem por parte dos suecos, finlandeses e noruegueses. No Chile, passa-se o mesmo. Só se mantêm vivos porque são um povo muito resistente.

O género da fábula é que mais o tem ocupado nos últimos anos de escrita. Porquê?

É um género de que gosto muito...

Deve-se à situação política complexa na América Latina, que não lhe inspira novos romances?

O próximo livro terá uma carga política muito forte porque conta, literariamente, a enorme complexidade que existe entre a ditadura chilena e os atuais governantes para que nada mude. Como não se pode escrever tudo ao mesmo tempo, faz-se uma coisa de cada vez.

Gostou do trabalho de ilustração?

As ilustrações do livro são muito boas e não se repetem. É o terceiro livro em colaboração com Paulo Galindro, em que complementa o texto como poucos sabem fazer.

Foi reeditado recentemente o seu Mundo do Fim do Mundo. Uma evocação da juventude?

Gosto de funcionar com a memória e a intenção foi homenagear o Greenpeace, que defende a vida na Terra. Também tem uma forte presença do Moby Dick porque o romance de Melville mostra o que a baleia representa: a luta do capitão Ahab contra o seu puritanismo religioso que o impede de ser livre.

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