A excêntrica Ana Jotta (e outras duas exposições)

Arte eletrónica e obras de José Carlos Teixeira mostram-se na Central Tejo, a partir de hoje. A vencedora do prémio EDP Arte em 2013 sai do museu

"Ana Jotta é uma excêntrica", diz a curadora Ana Anacleto. A frase soa a provocação, mas é literal. A artista portuguesa, vencedora do prémio EDP Arte em 2013 quis sair do centro na hora de se apresentar no MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia. O resultado é uma exposição que nada tem de antológico, como era habitual, e que se quis "fora da avenida". Antes na Rua do Embaixador, 30B, em Belém. E de entrada livre.

Uma loja de montras amplas, caixilharia de alumínio hexagonal, que se anuncia com as cortinas cor de rosa, o nome de Ana Jotta e a placa com o símbolo do MAAT. A porta aberta deixa ver nove obras que a artista, ausente da visita guiada para os jornalistas ontem de manhã, escolheu. Ana Anacleto, a curadora, toma, pois, a palavra para falar de Bónus, nome dado à exposição e referência ao prémio EDP Arte.

Até aqui, ao prémio sucedia uma uma exposição antológica, mas Ana Jotta, protagonista de uma mostra ampla na Culturgest em 2014 (A Conclusão da Precedente) "resolveu dar a volta ao jogo" e "mostrar o que estava a trabalhar na altura, inédito", esclarece a curadora.

As duas séries escolhidas são, considera a curadora, "reação da Ana em relação a este espaço". "A escolha das peças partiu das condições deste espaço - dois pisos com características diferentes", antecipa Ana Anacleto, contando que, na preparação para a exposição, Ana Jotta (Lisboa, 1946) estava a trabalhar no atelier de gravura Meelpress de Hugo Amorim. Sobressaíram as xilogravuras feitas a partir de papel de tiro ao alvo com arma de fogo, "que ela adquiriu numa feira da ladra em Bruxelas". "Ela é uma colecionadora, recolhe vários objetos. Estes alvos teve-os em pousio, pensando o que podia fazer com isto. Entretanto, no meio das suas coleções, encontrou um jogo com peças de madeira circulares e não só... Levou todo este material para o atelier e começou a fazer as sobreposições", explica a curadora. A série chama-se Ricochete.

A visita continua na cave. "Esta sala já tinha estava pintada deste cor de rosa, já tinha esta iluminação, já tinha este chão", explica Ana Anacleto. "Ana desceu as escadas e disse: perfeito!", recorda. Olhou para este espaço como palco. "Isto era uma academia de pole dance", conta a curadora. E a única coisa que a artista queria fazer "era uma coisa pontual, com um conjunto de objetos, em bronze, em que estava a trabalhar na altura".

Por fim, Ana Anacleto aproxima-se do círculo de luz ao fundo da sala que ilumina uma bengala. "A Ana tem uma série de objetos que usa e apresenta algumas vezes que se assemelham à letra jota. Esta bengala é um jota e de certa maneira decidiu colocá-la aqui como uma assinatura e um ponto final".

Exílio e Arte Eletrónica

Do outro lado da rua, a Central Tejo recebe outro artista português, José Carlos Teixeira (ambas as exposições podem ser vistas até 5 de fevereiro) cujo trabalho se concentra em conceitos como alteridade, fronteira e deslocamento. Chama-se On Exile. "É o resultado trabalho que o José Carlos Teixeira tem vindo a desenvolver nos últimos três anos, um território de encontro entre a produção artística e a investigação", diz a curadora Ana Anacleto sobre o artista, professor no departamento de Arte da Universidade do Wisconsin. "Essa dupla atividade acrescenta uma processo e uma metodologia devedora das ciências sociais". "Exílio é um conceito dividido em duas dimensões [nesta exposição]", segundo o autor. "O exílio metafórico, que tem de ver com a forma como os doentes com depressão crónica se encontram exilados de si próprios", diz, sobre a primeira das instalações que se pode ver no Cinzeiro 8 em Fragments in the Search of Being. A segunda, "mais física e geopolítica", Elsewhere Within Here, resulta de entrevistas com refugiados que vivem nos EUA.

Electronic Superhighway é a terceira exposição que abre ao público hoje (e fica até 19 de março). Nascida na londrina White Chapel em 2016, assinala os 40 anos de Experiments in Art and Technology , uma colaboração entre artistas e engenheiros, e o seu título é uma citação do sul-coreano Nam June Paik, pioneiro da arte eletrónica, autor de uma das peças centrais do MAAT: Wrap Around the World Man, de 1986, um robô feito de ecrãs, com imagens gravadas por todo o globo.

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