A adequação dos universalistas

Até agosto, meio século de história da arquitetura portuguesa mostra-se em Paris. Cinco momentos de um percurso em construção

Cinquenta obras de arquitetos portugueses dos últimos 50 anos são, até ao fim de agosto, mostradas ao público de Paris na exposição Les universalistes, ontem inaugurada ao fim da tarde na Cité de l"Architecture et du Patrimoine pela Fundação Gulbenkian. O que pode a arquitetura portuguesa oferecer aos franceses, perguntaram os jornalistas presentes ontem na visita prévia guiada pelo comissário Nuno Grande? A capacidade de adequação ao lugar e à vida das pessoas, responderam os arquitetos portugueses.

Existe uma arquitetura portuguesa? Aí está uma boa questão, mas a que ninguém quer responder com um sim. Existe, sim, uma maneira portuguesa de fazer arquitetura. Será alemã na Alemanha, francesa em França, holandesa na Holanda, portuguesa em Portugal. Será sobretudo portuguesa na aproximação ao lugar e à vida do dia a dia, sem imposições. Adequação é a palavra escolhida por Eduardo Souto de Moura para sintetizar essa maneira de ser e de fazer. Ele que tem neste momento trabalho por todo o mundo, conquistada uma maior notoriedade a partir do Pritzker, responde da mesma forma que o mais jovem Manuel Aires Mateus, também ele com obras feitas, em curso e em projeto em diferentes países.

A exposição mostra, com um design bem imaginativo de Rui Albergaria (português residente em Paris) a evolução destas cinco décadas, a partir precisamente da sede da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, construída entre 1959 e 1969, e seguida do Hotel do Mar de Sesimbra, de Francisco Conceição e Silva. Daí parte para as cinco fases/cinco décadas, divididas por Internacionalismo, colonialismo, revolução, europeísmo, finalmente a globalização, sempre em relação com a ideia de universalismo.

O título da exposição levou Gonçalo Byrne a fazer uma autocrítica - "A minha primeira reação foi de estranheza, porque para nós, nos anos 60 e 70, a ideia de universalismo era-nos imposta pela ditadura, com a glorificação do império colonial. Mas vejo como o universalismo é aqui encarado como a atenção ao outro, a relação com o outro".

Arrumada (e bem) a questão semântica, a exposição avança com obras como o Convento dos Franciscanos de Calais, de Fernando Távora, a Piscina das Marés de Leça da Palmeira, de Siza, a Igreja do Sagrado Coração em Lisboa, de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, e a primeira década culmina com a chancelaria da embaixada de Portugal em Brasília, de Raul Chorão Ramalho, obra audaciosa no país e na cidade da invenção de Lúcio Costa e Niemeyer.

O colonialismo é já outra história, com sete obras de arquitetos portugueses em Moçambique , Angola e Macau, diferentes entre si como que a comprovar a ideia da "adequação". De Pancho Guedes a Manuel Vicente, uma arquitetura vista a olhar para os outros.

Já no capítulo Revolução cabem cinco projetos de habitação social, de com o programa SAAL em destaque mas também com Chelas (Lisboa) de Byrne e Reis Cabrita à Malagueira (Évora) de Siza. Talvez este tenha sido o aspeto que mais perguntas suscitou entre os que participaram anteontem no colóquio e também ente os jornalistas franceses. A inquietação vem da onda de imigrantes que chegam a França, depois dos maus resultados da política de HLM (habitation à loyer moderé - habitação de rendas moderadas) que criaram em torno das grandes cidades. Como resolveriam hoje os arquitetos portugueses este problema? Responde Gonçalo Byrne: "Penso que não se deve criar grandes espaços de habitação social, que acabam por tornar-se guetos, mas fazer programas mistos". A questão da habitação social, que os arquitetos gostam de debater, não +e no entanto algo que dependa exclusivamente deles: é um problema da gestão urbana, uma questão política no sentido da Polis, da cidade dos homens.

Souto Moura recordou a propósito que há que repensar a questão, misturar diferentes comunidades, e não esquecer que é fundamental melhorar a qualidade dos materiais. "Está provado que construir com melhores materiais reduz as probabilidades de destruição por parte das pessoas, moradores ou não, que sentem a diferença da qualidade".

E chegamos ao tema da europeização, na parte final do século XX. As obras mostradas vão da Pousada de Santa Marinha da Costa, de Távora, ao Teatro Municipal Joaquim Benite (o Teatro Azul), de Manuel Graça Dias, Egas José Vieira e Gonçalo Afonso Dias, mas passam também pela Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa, de João Luís Carrilho da Graça e pelo edifício Bonjour Tristesse, de Siza em Berlim. É uma fase de muitas obras públicas em Portugal - beneficiando de financiamentos europeus, e é talvez a fase de esplendor da arquitetura no território português.

12 obras da "globalização"

Chegados ao fim da exposição, doze grandes obras da "globalização". E aparece aquele que é a imagem permanente desta iniciativa, projetado durante todo o dia no colóquio de anteontem: o Estádio Municipal de Braga de Eduardo Souto de Moura - o próprio arquiteto, que diz que esta é a sua obra preferida, confessou que já não podia mais ver a imagem das bancadas... Mas desta última fase ressaltam obras excecionais como a Casa das Mudas na Madeira, de Paulo David, o Teatro e Auditório (com o amarelo como cor em destaque) de Poitiers, de João Luis Carrilho da Graça, a Casa das Histórias de Paula Rego, em Cascais, de Souto Moura, e os recém-premiados Centro de Arte Contemporânea Arquipélago da Ribeira Grande, Açores, de João Mendes Ribeiro, Cristina Guedes e Vieira de Campos, e o Centro de Criação Contemporânea de Tours, França, dos irmãos Francisco e Manuel Aires Mateus.

A completar as imagens, os textos e as maquetes que explicam todas estas 50 obras, há também painéis para cada um dos temas, onde são exibidos vídeos com entrevistas - e a primeira delas, deslumbrante, a Eduardo Lourenço, o grande ausente da inauguração, como notou Artur Santos Silva.

A presença portuguesa em Paris manifesta-se -como acontece há décadas - pelos inesperados encontros de rua, quando vamos a passar e ouvimos falar português. Mas agora é mais do que isso. Quatro exposições - cinco, se lhe juntarmos a de Julião Sarmento na delegação da Gulbenkian - coincidem nestes próximos meses: além dos "universalistes", abre na segunda-feira a grande exposição de Amadeo de Souza-Cardoso no Grand Palais, a ocupar o espaço onde estiveram expostos recentemente Picasso. O último grande segredo da rte moderna, chamam aqui à obra do artista nascido em Manhufe. E continua Helena Almeida no Jeu de Paume. Na semana passada, Ana Jotta inaugurou uma exposição no Credac centro de arte contemporânea, em Ivry Sur Seine.

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