Eu tinha a certeza de que a única coisa que queria fazer na vida era escrever romances, contudo, os meus pais, que eram ambos oriundos de famílias humildes e nenhum deles frequentou a universidade, entendiam que a minha fértil imaginação era um traço peculiar divertido, que nunca daria para pagar a hipoteca da casa nem garantir uma pensão de reforma. Sei que agora esta ironia tem a força de uma bigorna..Eles esperavam que eu seguisse um curso profissional; eu queria estudar Literatura Inglesa. Então, a opção escolhida não satisfez ninguém, acabando por me decidir pelo curso de Línguas Modernas. Mas, mal o carro dos meus pais dobrou a esquina ao fundo da estrada, eu desisti do Alemão e inscrevi-me no Departamento de Estudos Clássicos..Não consigo lembrar-me se disse aos meus pais que optei por Estudos Clássicos. Penso que eles só vieram a saber disso no dia da cerimónia da minha formatura. Entre todos os cursos neste planeta, penso que lhes teria sido difícil indicar um que fosse menos útil que Mitologia Grega, para ter acesso a um emprego que garantisse a chave de um futuro próspero..Gostaria de deixar claro, entre chavetas, que não culpo os meus pais pelos seus pontos de vista. Há um prazo de validade no que diz respeito a culpabilizar os nossos pais por nos conduzirem na direção errada; no momento em que atingimos a idade de assumirmos, nós próprios, a condução da nossa vida, a responsabilidade passa a ser nossa. E mais ainda, não posso criticar os meus pais por desejarem que eu nunca fosse pobre..Eles próprios eram pobres, e eu era pobre; estou de acordo com eles que ser pobre não é uma experiência dignificante. A pobreza implica medo, ansiedade e, muitas vezes, depressão; pode fazer-nos passar por inúmeras pequenas humilhações e dificuldades. Sair da pobreza pelos nossos próprios esforços é uma coisa de que nos podemos orgulhar, mas a pobreza em si é romantizada apenas por loucos..Aquilo que eu mais receava que me viesse a acontecer quando tinha a vossa idade não era a pobreza, mas sim o fracasso. Quando tinha a vossa idade, apesar de uma evidente falta de motivação na universidade, onde passava demasiado tempo no bar a escrever histórias e pouquíssimo tempo a assistir às aulas, eu ia conseguindo passar nos exames e isso, durante anos, foi a medida do sucesso na minha vida e na dos meus colegas..Afinal, todos nós temos de descobrir por nós próprios o que constitui o fracasso, mas o mundo está ansioso por nos impor um conjunto de critérios, desde que o permitamos. Penso, por isso, que é justo dizer que, por qualquer razão convencional, sete anos depois do dia da cerimónia da minha formatura, fracassei redondamente. Um casamento demasiado breve colapsou, eu estava desempregada, era mãe solteira e tão pobre quanto é possível ser-se no Reino Unido de hoje, sem propriamente ser uma sem-abrigo. Os receios que os meus pais tinham sentido por mim, e que eu tinha sentido por mim própria, confirmaram-se, e de acordo com todos os padrões comuns fui o maior fracasso que conheci..Copyright©JKRowling 2008