Um pomar na praia

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Quando se escreve um livro, a voz dos outros ecoa sempre na nossa escrita. Quem somos nós, a não ser parte da conversa infinita a que chamamos história, tradição, cultura? No caso do livro "Pomar", da autoria de Rodrigo Barros, editado pela Associação dos Albergues Nocturnos de Lisboa, vai-se mais longe. O autor compilou quarenta pequenas narrativas, obtidas através do diálogo com outros tantos utentes dessa IPSS lisboeta. Cada narrativa pessoal, abre sempre com uma poderosa citação em epígrafe, de um autor consagrado. De Homero a Mário de Sá Carneiro, ou Mircea Eliade. Todas as vozes nos surpreendem pela diversidade de origens e pelo pluralismo de linguagens e estilos, autênticas marcas de água de destinos singulares. São aventuras existenciais, sempre marcadas pela dificuldade, pelo infortúnio, pelas vagas alterosas da História. Temos existências colhidas pelo tsunami da queda dos impérios. Vozes do leste europeu, do Norte de África, de Angola, de Moçambique. Talvez por querer enaltecer essa prodigiosa paleta de experiências, intensas e dolorosas, Rodrigo Barros, intitulou o seu livro como "Pomar". Mas também poderia chamar-se "Praia". Esse local, onde acabam por chegar todos os náufragos. Na verdade, se há uma Voz comum a todas as vozes desse livro, ela é a extrema dignidade da reflexão e da introspecção. Há amargura, mas não queixume. No "Pomar" de Rodrigo Barros, moram seres humanos que chegaram, pela via dolorosa, à lúcida consciência da tragédia que habita na essência da condição humana. Todos nós, um dia, provaremos esse forte travo do jardim das oliveiras. Todos nós, um dia, seremos náufragos nessa praia para onde nos conduz o destino, a que muitos preferem chamar liberdade.

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