Sónia Bompastor. Costela portuguesa, quatro filhos e treinadora de sucesso no Lyon

Antiga jogadora francesa deu palestra na Cidade do Futebol e lembrou a primeira conversa que teve com a mãe quando decidiu ser jogadora. Vanda Sigurgeirsdottir, presidente da Federação da Islândia, Nuria Martinez Navas, <em>team manager </em>da seleção de Espanha, e Raquel Rosa, agente FIFA, falaram de liderança no feminino.
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Já dizia o poema de António Gedeão, Pedra Filosofal, que "o sonho comando a vida", mas, para ser jogadora de futebol, segundo Sónia Bompastor, treinadora da equipa feminina do Lyon (clube que venceu seis das últimas sete edições da Champions), além de ser essencial "viver os sonhos logo de pequenina", "é preciso que haja oportunidades iguais" e que as meninas se sintam apoiadas quando decidem que querem ser jogadoras: "Rodeiem-se de quem vos dê apoio".

Filha de pais da Póvoa de Varzim, mas já nascida em França, a agora treinadora de 42 anos, foi uma das melhores futebolistas francesas da sua geração. Representou França por 158 vezes, incluindo nos mundiais de 2003 e 2011 e nos europeus de 2001, 2005, 2009. Mas o início "foi muito difícil", segundo contou esta segunda-feira durante uma palestra na Cidade do Futebol, em Oeiras.

A começar pela primeira conversa com a mãe, que logo a tentou demover da ideia de ser futebolista, pondo-a a jogar andebol, ténis e até ping-pong. Ter um pai árbitro de futebol e um irmão futebolista só fez aumentar a paixão e as discussões sobre futebol lá em casa. Jogar muito tempo rapazes na Infância e adolescência, deu-lhe uma força muito grande e permitiu que descobrisse as suas reais habilidades.

Foi no Lyon que Sónia Bompastor conheceu os maiores sucessos como jogadora, tendo sido campeã francesa por oito vezes e vencido a Champions por duas vezes. Foi lá que assumiu depois o papel de coordenadora técnica (de 2014 a 2020), antes de assumir o comando técnico.

E foi também no histórico emblema francês, antes de assumir o cargo de treinadora que sentiu uma certa discriminação. Perguntaram-lhe se teria tempo para um cargo tão exigente, aludindo ao facto de ser mãe de quatro filhos. Ao que ela respondeu: "Faria essa pergunta a um treinador que tivesse quatro filhos?

No evento organizado pela Federação Portuguesa de Futebol, dedicado ao futebol feminino e às mulheres que lideram no futebolVanda Sigurgeirsdottir, presidente da Federação da Islândia, Nuria Martinez Navas, team manager da seleção de Espanha, e Raquel Rosa, agente FIFA apontaram o segredo do sucesso e da evolução da modalidade: "Nunca desistir de lutar."

Mesmo que a luta comece bem cedo e comece com pequenas coisas como a ordem de entrada nos hotéis. "Tinha 10 anos quando comecei a perceber que havia diferenças. E, mais tarde, teria já uns 20, ao serviço da minha seleção, impus-me quando vi que os futebolistas homens entravam primeiro nos hotéis e nós tínhamos que ficar à espera, no autocarro", contou a dirigente islandesa, antiga jogadora e treinadora.

Vanda Sigurgeirsdottir tem hoje assento na UEFA e defendeu a importância de "ter mulher onde há decisões", principalmente se essas decisões dizem respeito ao futebol feminino, que vive grandes mudanças: "As mulheres têm de estar nesses cargos. Foi assim na Islândia: decidiu-se nesse sentido. E a diversidade permitiu-nos trabalhar melhor."

A espanhola Nuria Martinez Navas, a única mulher que esteve sentada num banco de jogo no último Mundial 2022 e concorda com a ideia de abrir caminho a mais mulheres no futebol de elite, "até porque, no final do dia, o futebol é para toda a gente".

Já a empresária Raquel Rosa, defendeu que as mulheres deviam acreditar nas suas competências e não se deixarem enredar em questões que nada têm a ver com competência e capacidade de trabalho. "Temos cada vez mais agentes no futebol feminino e mais virão. O trabalho de um agente é muito duro, temos que andar de um lado para o outro, temos de ter muito cuidado com o network, com os poderes, caso contrário não duramos muto tempo", acrescentou, tematando: "Não cheguei onde cheguei por ser mulher ou homem, mas porque me foquei sempre muito nos objetivos."

Para Raquel Rosa o futebol feminino não deve replicar tudo o que o masculino faz: "Não quero estar à uma da manhã a beber uma cerveja ou com um copo de vinho a discutir contratos. Tenho de lutar pela negociação e objetivos de uma forma diferente da que fazem os homens. Temos que descobrir por nós próprias esses meios."

E começar por mudar algo tão banal como a forma de comunicar. "Por exemplo, mudar os nomes às competições. Por que é que chamamos Mundial feminino e ape.nas Mundial quando é só futebol masculino? Não se diz que a Nuria é "da seleção masculina, diz-se que é da seleção espanhola", disse Vanda Sigurgeirsdottir.

O evento aconteceu dias depois da seleção feminina de Portugal ter conseguido o inédito apuramento para o Mundial 2023.

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