Regime de Assad tortura e enforca em massa

Amnistia Internacional denuncia tortura em massa numa prisão do regime de Bashar al-Assad. No espaço de quatro anos, cinco mil a 13 mil pessoas foram torturadas e mortas em seguida.
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A prisão de Saidnaya transformou-se desde setembro de 2011 num local de terror e morte, denuncia a Amnistia Internacional (AI), num relatório hoje divulgado. Desde aquela data e até finais de 2015, um número estimado entre cinco mil e 13 mil pessoas foram torturadas e enforcadas no final. E "não há razão para pensarmos que tenham cessado desde então", refere a AI no texto que acompanha o relatório.

Saidnaya está situada a 30 quilómetros a norte de Damasco e nela estão detidos essencialmente civis opostos ao regime de Assad. A prisão é dirigida por militares, com os presos a serem submetidos, numa primeira fase a um simulacro de julgamento em Damasco, sem direito à presença de advogados. "São ouvidos durante um ou dois minutos (...) e são, invariavelmente, condenados", refere um antigo juiz à AI. Em seguida, são enviados para Saidnaya, onde o mais certo é a morte.

Descrições citadas no documento da AI, referem que nenhum condenado à morte é avisado com antecedência, só o sabendo no dia em que os guardas percorrem os corredores chamando pelos seus nomes. O macabro ritual sucede ao início da tarde e aos presos apenas é dito que vão ser transferidos. O rosto é-lhes tapado com uma peça de roupa que tragam vestida e são levados para um cela no subsolo da prisão, onde têm de permanecer de pé. Começa a tortura. Um ex-guarda conta que "batemos-lhe como queremos, fazemos dele o que queremos. De qualquer modo, sabemos que vão morrer".

O local de execução foi ampliado em 2012, estando repartido por duas salas, onde podem ser enforcadas, em simultâneo, dez pessoas numa e 20 noutra. Antes de serem mortos, são obrigados a colocar uma impressão digital no seu certificado de óbito. Estão sempre de olhos vendados e "não sabem sequer como vai acabar a sua vida: enforcados, fuzilados ou de outra forma qualquer", conta um antigo responsável da prisão.

As execuções sucedem uma a duas vezes por semana e são mortos 20 a 50 presos de cada vez, indica o relatório intitulado "Human Slaughterhouse: Mass hangings and extermination at Saydnaya prison, Syria" - "Matadouro Humano: enforcamentos em massa e extermínio na prisão de Saydnaya, Síria".
O mais terrível é quando um preso "não morre logo, por ser pouco pesado. Para os mais novos, o peso deles não é suficiente para os matar", conta um ex-juiz. Então, alguns soldados "empurram para baixo os corpos de forma a partir-lhes o pescoço". Os cadáveres são enviados para um hospital militar em Damasco para serem registados. São depois levados para valas comuns situadas em terrenos do exército.

A AI entrevistou mais de 80 pessoas, entre detidos que vieram a ser libertados, ex-guardas e ex-juízes, mas está interdita de se deslocar à Síria. A organização nota que estas execuções, que o regime de Assad se recusa a admitir a existência, foram aprovadas ao mais alto nível.

A AI recorda que, em 2016, um relatório das Nações Unidas acusou o regime de Damasco de "extermínio" de detidos, o que constitui crime contra a humanidade.

A guerra civil na Síria dura desde 2011 e já causou quase 500 mil mortos, 4,8 milhões de refugiados no exterior e 6,3 de deslocados internos.

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