António Costa mudou. Já não é o homem que conseguiu um acordo histórico com a extrema-esquerda e o Partido Comunista para fazer o que nunca antes fora tentado, governar sem ter ganho as eleições; o governante que pôs todas as fichas - ou, mais literalmente, todos os euros disponíveis - na rua, entre renacionalizações, subsídios, contratação recorde de funcionários públicos e injeções em empresas do setor do Estado, ora desprezando ora castigando a iniciativa privada. Já não é o primeiro-ministro que distribuiu generosamente pastas e pastinhas desdobrando as suas legislaturas em ministérios, dando origem aos maiores governos da história do país - primeiro 18, depois 20, gabinete do primeiro-ministro incluído..Continua, como antes, a pedir uma "maioria expressiva" - e a fugir, como sempre, a assumir que a desejava "absoluta" - e até está disposto a libertar os confinados para que possam ir votar, mesmo que até lá sejam obrigados a trabalhar à distância e tenham de cumprir certos requisitos para ir a um espetáculo cultural ou a um jogo de futebol ou dançar a uma discoteca. Mesmo que estejam doentes com covid. Mesmo que há precisamente um ano, quando se reelegeu Marcelo Presidente, não tivessem sido dadas abébias sequer a quem tinha as mais remotas possibilidades de estar infetado. Nem nas autárquicas..Mas o candidato António Costa é diferente do primeiro-ministro António Costa. Basta ouvir a paixão com que fala em constituir um executivo espartano à sua volta e liderar um caminho que ajude a economia a levantar-se e sair do buraco. Escutar como defende a necessidade de um microgoverno, uma espécie de "task force muito focada no investimento". Quem o veja a implodir com argumentos novos os sonhos de Catarina Martins de voltar a levantar a sua voz, a encostar Jerónimo de Sousa às cordas, pondo-lhe ao pescoço o peso do fim da geringonça e da morte prematura do último governo que liderou, nem o reconhece. Até já concorda com Rui Rio na maioria dos pontos dos respetivos programas eleitorais..Há porém um ponto de afastamento entre os líderes dos dois maiores partidos - e que revela talvez o cansaço de seis anos de governação, ou o conhecimento do real volume da despesa pública e do que é preciso para a alimentar. Enquanto Costa vai falando da necessidade de fazer "ajustes" fiscais para famílias e empresas, mantendo as "contas certas na trajetória de recuperação e convergência", preferindo uma espécie de "mecenato salarial" que beneficie as empresas que subam a retribuição aos trabalhadores, como escrevia na edição de ontem o jornalista João Pedro Henriques, Rui Rio é mais concreto e ambicioso. O candidato do PSD quer "rever substancialmente" toda a carga de impostos, propondo cortes diretos na fatura fiscal que as famílias pagam, a começar pelas que têm menos, prometendo retomar a reforma do IRC interrompida com Costa, fixando-o nos 17% em dois anos. E ainda acena a um dos setores mais afetados pela pandemia com a tão reclamada redução temporária de IVA para a restauração (a 6% entre julho deste ano e dezembro do próximo), para dar gás à recuperação e apoiar a tesouraria de negócios que estiveram grande parte destes dois anos impedidos de funcionar ou a trabalhar com grandes restrições e dificuldades..Será a derradeira linha que os separa, quando cada vez mais vozes se juntam no coro dos que veem num entendimento ao centro a única solução para o país sair da crise que ainda está para chegar.