Psicólogas criam jogo para prevenir abusos sexuais de crianças

Joana Alexandre e Rute Agulhas, psicólogas e docentes do Instituto Universitário de Lisboa (Iscte), desenvolveram um jogo de tabuleiro que ensina as crianças a lidar com situações de perigo.
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Chama-se "Picos e Avelã à Descoberta das Ilhas do Tesouro", é um jogo de tabuleiro (destinado a crianças entre os 7 e os 12 anos) e tem como objetivo prevenir situações de abuso sexual de crianças e jovens. Ao DN, Joana Alexandre e Rute Agulhas, criadoras do jogo, adiantam que começaram a desenvolver materiais didáticos de prevenção do abuso sexual "de aplicação universal" em 2015, porque entendem que "a responsabilidade da prevenção da violência sexual é de todos nós". "Publicámos, em 2016, os primeiros materiais para crianças dos 6 aos 10 anos de idade e, em 2017, criámos, em colaboração com outras colegas, o material didático "Picos e Avelã à Descoberta da Floresta do Tesouro". Destina-se a crianças em idade pré-escolar, sendo que os nossos estudos têm indicado que pode também ser aplicado a crianças do 1.º ciclo de escolaridade", explicam.

O jogo foi apresentado, recentemente, em Cabo Verde, mas pode ser adaptado à realidade social e ao contexto religioso de todos os países. "O nosso trabalho pode ser adaptado ao contexto religioso, promovendo competências que ensinem as crianças a lidar com situações de perigo", afirma Rute Agulhas, especialista que também integra a Comissão do Patriarcado de Lisboa. Questionada sobre a importância da prevenção, num momento conturbado em que vários países registam casos de abusos sexuais por parte de membros do Clérigo, a especialista assume a relevância do projeto. "A problemática do abuso sexual é um problema de saúde pública dado o seu impacto a curto, médio e longo prazos, não só nas vítimas, mas também na comunidade. É uma realidade global, um pouco por todo o mundo, mas permanece ainda um tema tabu: as pessoas evitam falar nisso e só quando surgem casos mais mediatizados ou quando a comunicação social coloca em destaque esta problemática, as pessoas pensam sobre a mesma", sublinha.

Para as psicólogas, não ensinar as crianças a identificar o perigo é um erro crasso. "Se ensinamos as crianças a atravessarem nas passadeiras ou a participarem em simulações em caso de sismo, não faz sentido que não se abordem as situações de abuso sexual", defendem. "Picos e Avelã à Descoberta das Ilhas do Tesouro" aborda, por isso, nove temas transversais à violência sexual, inspirados em nove ilhas do país: são os casos do corpo e partes privadas, dos segredos, das emoções, da internet, da capacidade de a criança dizer "sim" e "não", ou de pedir ajuda quando confrontada com situações de abuso sexual.

O jogo abrange, ainda, a violência baseada no género, os direitos das crianças e as competências sociais e emocionais.

Joana Alexandre e Rute Agulhas criaram um jogo estimulante e divertido para abordar a problemática do abuso sexual. Como se trata de um jogo gigante, os peões são os próprios jogadores (crianças), agrupados em diferentes equipas. Como o processo criativo das especialistas começou numa viagem a Cabo Verde, o tabuleiro apresenta 9 temas, distribuídos pelas 9 ilhas do arquipélago que são habitáveis. A ilha de Santa Luzia (desabitada) é a casa de partida e joga-se com um dado gigante. Cada ilha aborda um tema e os jogadores devem lançar o dado e ir para a ilha correspondente. Depois, lançam novamente o dado e esse número vai indicar a carta de atividade ("carta desafio") que devem realizar em equipa. "A ideia é criar em cada carta-desafio uma oportunidade para debater coletivamente uma dada situação. Ganha a equipa que primeiro conseguir passar por todas as ilhas e, então, terá de descodificar uma mensagem baralhada. Cada uma destas mensagens baralhadas (o jogo tem um total de 27) representa uma ideia-chave que é um verdadeiro tesouro", explicam as especialistas. Há também três cartas complementares que representam "sinais de alerta" em situações potencialmente abusivas: Perigo Ver, Perigo Falar e Perigo Tocar.

O adulto que dinamiza o jogo deve ler previamente um pequeno guia que acompanha o jogo (à semelhança dos outros materiais que temos vindo a desenvolver, existe um "Guia para o Adulto"). O adulto deve assumir um papel de facilitador, ou seja, dinamizar a atividade, colocar outras questões que possam gerar debate e potenciar a reflexão e a participação de todos.

Joana Alexandre e Rute Agulhas estão a ultimar o jogo "Vila Segura", destinado a jovens entre os 11 e os 14 anos e que tem como objetivos aumentar os conhecimentos dos jovens sobre o abuso sexual, mas também sobre os maus-tratos.

Segundo as psicólogas, "trata-se de um jogo de cartas que aborda os grandes temas que a literatura destaca no âmbito da prevenção da violência sexual (corpo, toques, segredos, emoções, dizer "sim" e "não" e pedir ajuda)". "Considerando a faixa etária a que se destina o jogo, foram adicionados os temas Internet e bystanders/efeito do espetador. Tendo em conta que a literatura tem vindo a evidenciar a importância das competências socio-emocionais, também se abordam os seguintes temas: relações saudáveis (para uma tomada de decisão mais responsável), comunicação e resolução de problemas", sublinham. Os desafios do jogo são também diversificados para abordar as várias temáticas da faixa etária, com diferentes desafios com recurso a vinhetas, palavras cruzadas, bandas desenhadas, ordenação de frases ou labirintos.

O mais importante, defendem as psicólogas, é que "as nossas crianças e jovens se sintam empoderados: saber identificar situações potencialmente abusivas contra si ou contra outros; aprender que não devem ser espetadores passivos; saber estar atentos a comportamentos menos adequados e aprender a reportar e a pedir ajuda nessas situações". Os jogos podem ser adquiridos pelo público em geral. "As Aventuras do Búzio e da Coral" são da editora Sílabo. Já "Picos e Avelã à Descoberta das Ilhas do Tesouro" e "Vila Segura", são da editora Ideias com História.

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