Prisioneiros da História

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De um lado fala-se do pior massacre de judeus desde a Shoa, o genocídio pelos nazis, do outro de uma nova Nakba, a palavra árabe para catástrofe, que descreve o êxodo palestiniano em 1948 de terras que eram suas quando os Exércitos árabes fracassaram no ataque a Israel e o recém-criado Estado Judaico saiu vencedor em toda a linha.

Israelitas e palestinianos são, claramente, reféns da História, e cada um dos povos usa o sofrimento do passado para tentar legitimar a sua luta de hoje. Estão ambos os lados extremados - os israelitas de uma forma nova depois do massacre de civis e dos sequestros pelo Hamas no dia 7, os palestinianos pela repetição dos bombardeamentos na Faixa de Gaza, que depressa fazem subir o número de vítimas civis. Extremados estão também os apoiantes de uma e outra causa no exterior, com muitos dos pró-Israel a ignorarem o impacto do bloqueio a Gaza e da construção de colonatos judaicos na Cisjordânia, e muitos dos pró-palestinianos a mostrarem-se insensíveis ao terror que o Hamas praticou numa escala massiva há poucos dias.

Mesmo a narrativa de que há um Golias e um David não é totalmente clara, sobretudo vista por cada um dos povos. Por um lado, perante o poderio militar de Israel, é evidente que nenhum dos grupos armados palestinianos tem hipótese de vitória no campo de batalha, o que faz do primeiro o Golias e dos segundos o David, sem grande margem para dúvidas. Mas a rapidez com que os Estados Unidos reafirmaram o apoio a Israel, ordenando agora, até, que um segundo porta-aviões se desloque para o Mediterrâneo Oriental, revela também a preocupação com o ódio que subsiste na região ao Estado Judaico, 74 anos depois da sua criação, apesar do recente estabelecimento de relações diplomáticas com vários países árabes. Os americanos querem garantir que, enquanto se concentra em Gaza, Israel não é desafiado noutras zonas. O ambiente hostil em redor inclui o Hezbollah no Líbano, também uma Síria que não perdoa a perda dos Golã, igualmente uma maioria palestiniana numa Jordânia que até reconhece Israel, mas cujo rei teve de autorizar manifestações de uma população irada, e ainda um Egito que foi pioneiro entre os países árabes a estabelecer relações com Israel, que tem servido como o mediador de serviço entre israelitas e palestinianos, mas cuja população, quando votou livremente depois da Primavera Árabe, elegeu um político da Irmandade Muçulmana, o movimento que promoveu o nascimento do Hamas há quatro décadas. E há a acrescentar, um pouco mais longe, outros inimigos declarados de Israel, como o Irão, que não esconde o apoio ao Hamas a par de uma denúncia sistemática do Estado Judaico, ao qual chama de "entidade sionista", e tem igualmente forte influência sobre o Hezbollah. Isto sem falar do receio israelita de uma vaga de confrontos na Cisjordânia, o outro território palestiniano.

Se a situação está extremada, com a comunidade internacional a pressionar Israel para não confundir os 2,3 milhões de habitantes de Gaza com o Hamas e não transformar a retaliação ao terror numa punição coletiva, a verdade é que uma solução para o conflito israelo-palestiniano é impossível sem um dia haver negociações. Mas para isso será preciso emergirem lideranças que acreditem na paz, e dispostas a fazer compromissos em nome dos seus povos: do lado israelita, a aceitação de um Estado Palestiniano que não seja uma manta de retalhos, do lado palestiniano a aceitação da existência de Israel e do seu direito à segurança. Com os Acordos de Oslo de 1993, tal parecia começar a desenhar-se. Hoje parece tudo tão, tão, tão distante.

Diretor interino do Diário de Notícias

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